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Anônimo – da “Antologia Grega”

Não esbanjem comigo o odor da mirra,nem ofereçam coroas de flores,nem acendam a pira funerária,tudo isso é desperdício; ofereçam-mepresentes, se quiserem, enquantoestiver vivo – mas espalhar cinzasno vinho torná-lo-á lamae dele não beberão os mortos. Versão: José Alberto Oliveira REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 27/10/2018
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Andrea Cohen – Crepúsculo

Havia, enquanto caminhávamos pelas planícies salgadas ao crepúsculo,uma linha invisível entre nós –até que eu senti sua tesoura invisível. Trad.: Nelson Santander Dusk There was, as we walked the salt flats at dusk, an invisible thread between us –and then I felt her invisible scissors.
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Automedon – da “Antologia Grega”

Mandaste chamá-la, disseste para vir,preparaste tudo. Mas, se vier, o que farás?Repara no que se passa contigo, Automedon.Esse canalha, que era alegre e firme, estáagora flácido, como cenoura cozida, mortoe encolhido entre as pernas. Como irãorir se te puseres a navegar de mãosvazias, um remador que perdeu o remo. Versão: José Alberto Oliveira REPUBLICAÇÃO: poema…
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Laura Gilpin – Vida após a morte

O que eu sei:como os vivos seguem vivendoe como os mortos seguem vivendo com eles Assim, em uma floresta,mesmo uma árvore morta projeta uma sombrae as folhas caem uma a umae os galhos se partem com o ventoe a casca se desprende lentamentee o tronco se rachae a chuva se infiltra através das rachadurase o…
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Marcus Argentarius – da “Antologia Grega”

Psyllas jaz aqui. A sua ocupaçãoproxeneta; mantinha um bandode raparigas e alugava-as para festas.Um negócio pouco simpático, ganhardinheiro com carne humana e fraca.Mas poupem o seu túmulo, não atirempedras, agora que está morto e enterrado.Lembrem-se disto: os serviços que prestouconvenceram os rapazes a deixaremas nossas mulheres sossegadas. Versão: José Alberto Oliveira REPUBLICAÇÃO: poema publicado na…
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Jorge Luis Borges – Maio 20, 1928

Agora é invulnerável como os deuses. Nada na terra pode feri-lo, nem o desamor de uma mulher, nem a tísica, nem as ansiedades do verso, nem essa coisa branca, a lua, que já não precisa fixar em palavras. Caminha lentamente sob as tílias; olha as balaustradas e as portas, não para recordá-las. Já sabe quantas…
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Platão – da “Antologia Grega”

Eu, Lais, que escarneci dos gregose enxame de amantes retive à porta,ofereço a Afrodite o meu espelho. Não olhareipara esta cara e não consigo ver a anterior. Versão: José Alberto Oliveira REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 24/10/2018
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Adam Zagajewski – Amizades impossíveis

Por exemplo, com alguém que já não existe mais,que vive apenas nas cartas amareladas. Ou longas caminhadas à beira de um córrego,cujas profundezas guardam xícaras de porcelana ocultas — e conversas sobre filosofiacom um tímido estudante ou um carteiro. Um transeunte de olhar altivoa quem você nunca conhecerá. Amizade com este mundo cada vez mais…
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Zenodotus – da “Antologia Grega”

Quem esculpiu o Amore o colocou juntodesta fonte, pensariaque poderia subjugar,com água, tal fogo? Versão: José Alberto Oliveira REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 23/10/2018
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Linda Hogan – Noite ártica, luzes cruzando o céu

Estamos entrelaçados,corpo a corpo, célula a célula,um braço sobre o outro.O mundo é um leito para a noite fria,um gato aninhado na dobra de um joelho,um cachorro aos nossos pés,minha mão na sua, estamos abraçadosna presença animal, calidez,o mar lá fora ressoandoondas de inverno, uma chegando após a outrado mistério distante,onde, no fundo do mar,habitam…