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Vladimir Holan – A Neve

A neve começou a cair à meia-noite. E não há dúvidade que o melhor mesmo é ficar sentado na cozinha,ainda que seja a cozinha da insônia.Ali faz calor, você prepara alguma coisa, bebe vinhoe olha pela janela a eternidade familiar.Por que se atormentar querendo saber se nascimento e morte são apenas dois pontos,sabendo que a…
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Tung-Hui Hu – Como cuidar?

Naquele mês, eu me perguntava onde eles se reuniam,antes dos hospitais, antes da ala oncológica, dos cuidados intensivos, das urgências. Naquele tempo, tudo era urgente, amarrarmãos e pés, imobilizar o corpoantes que pudesse se transformar em cadáver. Agoraé mais fácil, olhar fotografias em vez disso, uma dele em sua camisa de trabalho, colarinho desgastado,esticada sobre…
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José Luis García Martín – Em algum lugar

Logo, depois, mais tarde, quando nunca,meus passos se afastaram dos meus passose em algum lugar, não sei se dentro ou fora,ouviu-se uma voz que repetia um nome.Uma voz, apenas um eco, quase nada,talvez a voz do vento entre as árvoresonde árvores sequer existiam.Tremiam os alicerces da terraou seria eu quem tremia naquele instantequando um sol…
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Louise Dupré – [cada poema é um outono]
![Louise Dupré – [cada poema é um outono]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2023/11/98146051-9429-4d24-9237-828c0999ff4e.jpg)
cada poema é um outono mais não o das belas frases só o outono desgrenhado nas folhagens semelhantes aos cabelos dos feiticeiros que entretem as crianças nas varandas escreves para atrair o sol para a lentidão de um bordo antes que a noite venha devorá-lo tudo se torna imagemna tua corrida contra a treva Mais…
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Paulo Henriques Britto – À margem do Douro

Não espero nada, e já me satisfaçocom a consciência de ainda estar em mime não de volta ao nada de onde vim.Por ora, ao menos, ainda ocupo espaço,junto a uma mesa no Cais da Ribeira;permito-me, sem culpa, desfrutarde pão, e queijo, e vinho, e vista, e ar,todo o entorno da minha cadeira.Que os dias que…
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Marie Howe – A menina

Tão perto do fim da minha vida fértil esem filhos — se eu pudesse me lembrar de um dia em que fui inteiramente meninae ainda não mulher — mas não acho que tenha havido um dia assim para mim. Quando olho para a menina que fui, escorrendo em seu maiô,ou andando de bicicleta, pedalando com…
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Juan Vicente Piqueras – Os Deuses Dentro

Os deuses sabem mais e melhor que nóso que nos faz falta. Pedimos-lhes um filhoe nos mandam um lobo, e não os compreendemos. A vida a cada dia os esquece.A morte à noite os inventa. E as doenças, como bem disse o sábio,são deuses que agonizam dentro de nosso corpo, seu último templo em ruínas,seu…
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Tess Gallagher – Paro de escrever o poema

Paro de escrever o poema*para dobrar as roupas. Não importa quem viveou quem morre, continuo sendo mulher.Sempre terei muito o que fazer.Cinjo as mangas da camisa deleunindo-as. Nada pode deternosso afeto. Voltarei a seruma mulher. Mas por enquantohá uma camisa, uma enorme camisa,em minhas mãos, e, em algum lugar, uma garotinhaao lado de sua mãeobservando…
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Joseph Stroud – Lendo Kaváfis sozinho na cama

Eu também me lembro do passado, meu quarto à luz de velas,e da noite em que ela entrou e tocou meu rosto com o delacom boca, língua e lábios,da noite no pomar, do aroma das frutas,seus seios – lembra, corpo?* – aquele quarto,lembra? – nossos gritos, as velas bruxuleantes? Trad.: Nelson Santander * N. do…
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Sharon Olds — Amor verdadeiro

No meio da noite, quando nos levantamosdepois de fazer amor, nos olhamosem completa sintonia, sabemos plenamenteo que o outro tem feito. Ligados um ao outrocomo alpinistas descendo uma montanha,atados pelo vínculo da sala de partos,vagamos pelo corredor até o banheiro, malconseguindo andar, cambaleio pelo ar granuladoe sem sombra, e de olhos fechadossei onde você está,…