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Sophia de Mello Breyner Andresen – Quando

Quando o meu corpo apodrecer e eu for mortaContinuará o jardim, o céu e o mar,E como hoje igualmente hão-de bailarAs quatro estações à minha porta. Outros em Abril passarão no pomarEm que eu tantas vezes passei,Haverá longos poentes sobre o mar,Outros amarão as coisas que eu amei. Será o mesmo brilho a mesma festa,Será…
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Ada Limón – Antes

Descalça, com um capacetevermelho reluzente, eu iana garupa da Harley do meu paiaos sete anos de idade.Antes do divórcio.Antes do novo apartamento.Antes do novo casamento.Antes da macieira.Antes das cerâmicas na lixeira.Antes da corrente do cachorro.Antes que todas as carpas fossem comidaspela grou. Antes da estradaentre nós, havia a estradaembaixo de nós, e eu era grande…
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Ian Hamilton – Fantasmas

O caixão lustroso e suntuosamente adornadoDesliza como um novo navio para as profundezas em chamas.Na terra firme,A congregação se ajoelha em murmúrios. Do meu banco no cantoTenho uma visão livre e desimpedidade sua partida.Se você estivesse deitada de ladoTalvez pudesse captar seu olhar insuspeito. No pátio, ao anoitecer,Os tributos florais. Eu poderia jurarTê-la vistoAspirando o…
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Konstantinos Kaváfis – Muros

Sem cuidado nenhum, sem respeito nem pesarErgueram à minha volta altos muros de pedra. E agora aqui estou, em desespero, sem pensarnoutra coisa: o infortúnio a mente me depreda. E eu que tinha tanta coisa por fazer lá fora!Quando os ergueram, mal notei os muros, esses. Não ouvi voz de pedreiro, um ruído que fora.Isolaram-me…
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Joan Margarit – Banheiro

Cuido para que não caias ao banhar-te,e ao secar-te as costas sigo suavementea grande cicatriz da espinha.O futuro está sempre na janela.Tua vida é este pequeno espaçode tua cama e tua música, este céude umas poucas pessoas e uma casa.E pela primeira veznão estarei mais contigo.Não virei mesmo que me chames.Ficarei te olhandonas fotografias dos…
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Rachel McKibbens — Sem título

Às minhas filhas, preciso dizer: Fiquem com quem as ama biblicamente.Aquele cujo amor ergue a cabeça para vocêsapesar do pescoço partido. Cujo corpo explodeem dezesseis braços elétricos para carrega-las, gentisdo modo como o luto antigo é gentil. Amem o amor caótico em tudo que tem de excessivo,o corpo que cavalga melhor o seu corpo, cuja…
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Joseph Stroud – Lázaro em Varanasi

De uma pira no flamejante ghat,um cadáver se ergue lentamente entre as chamas. Como se lembrasse de algo importante.Como se quisesse olhar ao redor uma última vez.Como se finalmente tivesse algo a dizer.Como se houvesse uma saída para isso. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 24/06/2019 Mais do que uma leitura,…
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Konstantinos Kaváfis – Prece

Um marujo o abismo do mar guardou consigo.Sem de nada saber, a mãe coloca um círio aceso diante da Virgem, um longo círio,para que volte logo, a salvo dos perigos. No bramido dos ventos põe o seu ouvido;mas, enquanto ela reza e faz o seu pedido, sabe o ícone a escutá-la, grave, com pesar,que o…
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Wilfred Owen – Futilidade

Coloquem-no à luz do sol… Em casaSeu toque gentil o acordava com a lembrançaDe campos ainda por plantar…O sol o acordou sempre, até na França,Até chegarem a manhã de hoje e a neve que aí está.Se alguma coisa pode acorda-lo agora,Só o velho sol saberá. Lembrem que também acorda sementes…E que há muito acordou a…
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Patrick Philips – Matinê

Após a biópsia,após a cintilografia óssea,após a consulta e o choro, por algumas horas ninguém conseguia encontrá-los,nem mesmo minha irmã,porque acontece que eles tinham ido ao cinema.Passava uma tragédia,um épico, mas no fim eles foram de comédia,com suas cocase pipocas, a velha mulher sussurrando tudo duas vezes,o velho maridocobrindo o ouvido com a mão, enquanto…