-
Jorge Sousa Braga – Litania

Estava sentado numa sala anexa ao bloco operatórioe uma enfermeira passou com o teu útero num saco de plástico transparenteCom o teu útero com a minha primeira casa e a de meus irmãosainda escorrendo sangueUma pequena construção toda em pedracom divisões de tijolo e cal hidráulicae janelas abrindo para o valeCom o teu úteroCom a…
-
Nathan McClain — Nighthawks, de Edward Hopper

Nighthawks*, de Edward Hopper Vê como ela está sentada perto do homemde terno azul? Vê como as mãos delesquase se tocam? Como ela me lembraminha mãe — uma mulher de vermelho tomando café. Vê?Hopper obviamente se sentia só.Por que outro motivo pintaria ela, minha mãe,sentada ali assim? E isso me faria o quê?O balconista de…
-
Nuno Júdice – Nostalgia de setembro

Quando vinham as nuvens de setembro, jáos pássaros tinham emigrado para além dos mares,o campo ficava em longos silênciosque só a passagem dos rebanhos, a caminhodo matadouro, cortava num tropel que ecoavaainda, depois da paisagem, com os gritosdo pastor e o ladrar dos cães. Eu gostava dessas nuvensquando começavam as primeiras chuvas, e podiaouvir o…
-
Leon Stokesbury – Mensagem não enviada a um irmão em sua dor

Por favor, não morra agora. Escute.Ontem, nuvens de tempestade avançaramdo oeste como músculos espessos.Relâmpagos floresceram. Um espetáculode cores. Você devia ter visto.Uma mulher assistiu comigo, e depois fomos dormir.Quando acordei primeiro, vino rosto dela que o descanso é possível.O céu – de repente pareceimportante lhe dizer – o céuestava rosa como uma concha. Ouça-me. Há…
-
Maria do Rosário Pedreira – À avó

Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nosque não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.E, desde então, as nossas feridas têm a espessurado teu silêncio, as visitas são desejadas apenasa outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapetecontinua engelhado, como à tua ida.Provavelmente ficará assim para sempre. No outro Natal, quando a…
-
Ted Kooser – Pais

Meus falecidos pais tentam se manter fora do meu caminho.Quando entro em um cômodo, eles já o deixaram,foram procurar o que precisa ser feitoem outra parte da casa, meu pai com o aspirador,minha mãe com pano de pó e o lustra-móveis. Às vezes,ouço seus velhos chinelos tamborilandopelo corredor, ou vejo por um breve instanteo que…
-
Czesław Miłosz – Uma descrição honesta de mim mesmo com um copo de whisky num aeroporto, digamos, em Minneapolis

Meus ouvidos captam cada vez menos as conversas, meus olhos vêm se tornando fracos, embora sigam insaciáveis. Vejo suas pernas em minissaias, em calças compridas, em tecidos ondulantes, Observo uma a uma, separadamente, suas bundas e coxas, acalentado por sonhos pornô. Velho depravado, é chegada a hora da cova, não dos jogos e folguedos da…
-
Homero Aridjis – Pela Porta Verde

Pela porta verde Para Eva Sofia Sou um indocumentado da eternidade.Sem papéis, ultrapassei as fronteiras do tempo.Detido pelos agentes de imigração do nascimentoe da morte, lancei-meao tabuleiro de xadrez dos dias.Fiscais astutos, em busca de lembranças valiosas,vasculharam minha bagagem de sombras.Nada a declarar. Nada a lamentar.Passei pela porta verde. Trad.: Nelson Santander Mais do que…
-
Nicolás Guillén – Um poema de amor

“Um poema de amor”, um poema de Nicolás Guillén que narra o reencontro arrebatador de dois amantes marcados pelo tempo e pela impossibilidade, explorando o desejo contido, a despedida inevitável e a intensidade fatal de um amor vivido à beira do abismo.
-
Vijay Seshadri – Chaleiras Reluzentes de Cobre

Amigos mortos voltando à vida, famílias falecidasfalando línguas vivas e mortas, suas mentes retentivas,os cinco sentidos intactos, suas pegadas como as de borboletas,a compaixão brilhando em rostos indulgentes —esta é uma das minhas coisas favoritas.Gosto tanto disso que passo o tempo todo dormindo.Lua de dia e sol à noite me encontram dispersonos sonhos profundos onde…