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Paulo Henriques Britto – “Da metafísica”

Ser parte de alguém ou algotão grande que não se entenda:toda crença, ao fim e ao cabo,se resume a essa lenda – o mais rematado dislate,coisa jamais entendida,que eleva ao sumo quilateo caco mais reles de vida. REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 04/11/2018
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A. E. Stallings – Lógica de conto de fadas

Os contos de fadas estão repletos de tarefas irreais:Juntar os pelos do queixo de uma cabra que os homens devora,Ou cruzar um lago sulfúrico em uma danificada igara,Escolher o príncipe de uma fila de máscaras iguais,Caminhar na ponta dos pés até onde se aquece um dragãoE roubar-lhe um osso; contar partículas de areia, grão por…
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Miguel-Manso – Na morte da avó

não bastasse a humilhação pública de morrerespera-se do corpo que cumpra com indiscutívelpompa o intolerável protocolo de ausentar-se a penosa execução circular e noturna do velórioa presença inconveniente dos agentes funeráriosos adereços lutuosos a obscena maquiagem no dia seguinte, o inventário das orações, a concisacerimônia (não há muito a dizer, sejamos honestose soa até a…
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James Tate – A volta para casa

Eu disse ao médico que nunca mais o veria. “Não, achoque não”, ele disse. Saí pela porta me sentindo realmente bem.Claro, eu sabia que ia morrer, mas ainda assim o dia parecia claropara mim. Caminhei até o lago. Patos circulavam ao redor por ali.Vi um veleiro passar. Prossegui ao longo da margem. O sol batiaem…
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Paulus Silentiarius – da “Antologia Grega”

Zeus, em chuva de ouro, atravessou o bronzeque guardava Danae e roubou-lhe a virgindade.Moral da história: o ouro tudo domina – paredese grilhetas de bronze, fechaduras e peias.Foi o ouro que subjugou Danae. Não é necessáriorezar a Afrodite; só é preciso dinheiro. Versão: José Alberto Oliveira REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 30/10/2018
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Dorianne Laux – De qualquer forma

Se estamos fraturados,assim o estamoscomo estrelasfeitas para brilharem todas as direções,por qualquer dimensão,bilhões de anos desde então. Não lamentareio humano, ainda não.Há algo maispor vir, nossos coraçõessão como uma mina de ouroinexplorada,um mar desconhecido. Nada se foi para sempre.Se viemos do póe ao pó voltaremos,então podemos descobrir ocaminho para qualquer coisa. Ainda não se sabe…
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Páladas – da “Antologia Grega”

Nascidos nus. Enterrados nus.Qual a azáfama? Toda a vidaconduz à primeira nudez. Versão: José Alberto Oliveira REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 29/10/2018
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Maya C. Popa – O que não foi dito

Com que frequência, dirigindo por aquelas estradas,receávamos não bater em algo,as cabras pelas quais passamos naquela manhãpastoreadas àquela hora para que os chacaisnão as matassem mais rapidamente,a gema vermelha rompendo sobre os picosenquanto corríamos contra a luz, descendo a montanha? Apenas uma vez um javali irrompeu do bosquecomo uma pergunta rapidamente retirada.Depois ficamos sozinhos outra…
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Lucilius – da “Antologia Grega”

Eutychides, o poeta lírico, morreu.Fugi, ó moradores do Hades! – ele transporta odese ordenou que consigo queimassemvinte liras e vinte e cinco pautas de música,que Caronte terá de transportar.Onde se poderá encontrar refúgio,agora que Eutychides canta pela eternidade? Versão: José Alberto Oliveira REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 28/10/2018
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Natasha Trethewey – Blues do Cemitério

Choveu o tempo todo enquanto a deitávamos no chão;Choveu da igreja ao túmulo quando a enterramos no chão.A sucção da lama em nossos pés: uma murmuração. Quando o pregador conclamou, eu levantei a minha mão;Quando ele pediu uma testemunha, ergui a minha mão —A morte detém a lida do corpo, a alma do artesão. O…