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Dorianne Laux – Eu te desafio

É outono, e estamos nos livrandodos livros, nos preparando para aposentar emudar para um lugar menor, maisgerenciável. Vivendo ao contrário,na nova casa à prova de idade, nadano chão para tropeçar, nenhum obstáculopara os vagarosos mecanismos de nossos corpos,uma mesinha para dois. Nosso mundo estáencolhendo, nossos armários, quase vazios,se foram as saias justas e os sapatos…
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Billy Collins – As cadeiras em que ninguém se senta

Vêem-se em varandas e em relvadosmesmo à beira do lago,geralmente dispostas em pares indicando que um casal se poderá sentar ali e olhar paraa água ou para as grandes árvores frondosas.O problema é que nunca se vê ninguém sentado nessas cadeiras abandonadasembora a dada altura deva ter parecidoum bom lugar para parar e não fazer…
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Terence Winch – Aquele navio já partiu

Em nossa antiga vida, comíamos sorvete e pudimde pão. Bebíamos copo após copo de Grand Marnier até ficarmos enjoados.Nossa libido era grande como um outdoor.Nossa libido era maior do que a telade um cinema drive-in no meio do nada,exibindo intermináveis clássicos pornográficosadolescentes. Tínhamos um apetite insaciável.Derramávamos banha derretida sobre nossapipoca, que então cobríamoscom uma tempestade…
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Ursula K. Le Guin – Prece de uma Noite de Janeiro

Sinos badalam, excêntricos ventosassobiam gelados vindos das terras desérticassobre as montanhas. Janus, Senhordo inverno e dos começos, fendidoe abalado, com duas faces,sentinela dos portões dos ventos e das cidades,deus dos insones:livra-me da gélida invejae da ira mesquinha. Abreminha alma para os vastoslugares escuros. Diz-me, e diz de novo:nada nos é tomado, só ofertado. Trad.: Nelson…
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Wendell Berry – Eles se sentam juntos na varanda

Eles se sentam juntos na varanda, a escuridãoAproximando-se, a casa atrás deles na penumbra.Terminada a refeição, lavaram e secaramA louça – apenas dois pratos agora, dois copos,Duas facas, dois garfos, duas colheres – tarefa pequena para dois.Ela se senta com as mãos cruzadas no colo,Em repouso. Ele fuma seu cachimbo. Não trocam palavras,E quando finalmente…
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Linda Pastan – Os meses

Janeiro Retorcidas pelo vento,meras estruturas para gelo ou neve,as árvores decidemresistir por enquanto, elas brotarão em abril.E eu devo ser pacientecomo as árvores —uma resolução de inverno que quebro novamente,enquanto o frio pressionasua lâmina afiadacontra minha garganta. Fevereiro Após uma interminávelhibernaçãono peitoril da janela,a orquídea floresce — pontos púrpuras bordados,acima e abaixo,numa fina haste.Lá fora,…
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Mark Perlberg – A segunda vida das árvores de natal

Em um janeiro congelante, meus amigos e euarrastávamos árvores de natal descartadasdas calçadas de nossa cidade tremeluzentepara um terreno baldio. Um fósforo aceso e o fogose alastrou por um ramo seco como um jorro de vida.Uma rajada de vento e a pilha se incendiou,flamejando acima de nossas cabeças. Ondas de seda.Aroma de breu e bálsamo…
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Allen Hoey – Ano Novo

Neve de novo. Às vezes uma rajadafaz girar os flocos que caem em linha reta.Uma dúzia de pardais se fazdiminuta nos galhos nus daRosa-de-Saron, flores do ano passadoemaranhadas nas pontas dos ramos.Que eu nunca me torne indiferente à perda. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter…
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Retrospectiva 2023

E assim, mais um ano se foi. Veloz como um pássaro em voo, impulsionado pela velocidade dos eventos climáticos extremos. Mais um ano marcado pelo terror, destruição e pelas indignidades das guerras e massacres (e nisso a humanidade nunca falha: todo ano, a guerra – esse servidor público do extermínio – bate o ponto em…
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Larry Levis – Na cidade das luzes

A última coisa que meu pai fez por mimFoi traçar um caminho: ele morreu, & assimTornou a morte possível. Se ele conseguiu, euTambém, um dia, terei essa honra. Certa vez, À noite, caminhei pelas ruas iluminadasDe Nova York, do Gramercy Park Hotel,Subindo a Lexington & naquela hora, sozinho,Eu parei de ouvir o tráfego, as vozes,…