Joan Margarit – No museu

Agacha-se junto ao menino e aponta para o quadro.
Com um gesto solene, comprime o punho
e tenta explicar a força que
acredita ver na pintura.
Esta velha obsessão de transmitir
aos pequenos nossos pobres recursos.
Atento, o menino observa com temor.
Talvez pressinta a solidão que se oculta
nos gestos, na retórica da arte.
Temos sempre a verdade diante de nós,
mas, assim como ao contemplar o céu,
não conseguimos ver mais do que a grafia
de um poema em um idioma estranho.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 08/03/2020

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En el museo

Se agacha junto al niño y le señala el cuadro.
Con un grave ademán aprieta el puño
y trata de explicar aquella fuerza
que le parece ver en la pintura.
Esta vieja obsesión por transmitir
a los pequeños nuestras pobres armas.
Atento, el niño mira con temor.
Quizá intuye la soledad que ocultan
los gestos, la retórica del arte.
Siempre tenemos la verdad delante
pero, como al mirar el firmamento,
no podemos ver más que la grafía
de un poema en una lengua extraña.

Sharon Olds – Tudo

A maioria de nós jamais foi concebida.
Muitos de nós nunca nascemos —
sobrevivemos em um mar solitário por horas,
semanas, com membros extras ou ausentes,
ou segurando nos braços nossa pobre segunda cabeça,
que brota de nosso peito. E muitos de nós,
frutos do mar em seu caule, sonhando com algas
e búzios, somos eliminados em nossos primeiros meses.
E alguns que nascem, vivem apenas por minutos,
outros, por dois, três ou quatro verões,
e quando partem, tudo
se vai — a terra, o firmamento —
e o amor permanece, onde nada há, e busca.

Trad.: Nelson Santander

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Everything

Most of us are never conceived.
Many of us are never born —
we live in a private ocean for hours,
weeks, with our extra or missing limbs,
or holding our poor second head,
growing from our chest, in our arms. And many of us,
sea-fruit on its stem, dreaming kelp
and whelk, are culled in our early months.
And some who are born live only for minutes,
others for two, or for three, summers,
or four, and when they go, everything
goes — the earth, the firmament —
and love stays, where nothing is, and seeks.

Michael Krüger – Discurso do homem lento

A história acelera,
logo nos alcança,
precedendo-nos com passos ligeiros.
Vemos então por trás
a Era Glacial, Grécia,
Roma, a Revolução francesa,
a nuca de Stalin, as luzes traseiras
do carro de Hitler.
Estranho que não se canse
nem esmoreça.
Às vezes se vira
e nos mostra sua cara
com a boca escancarada
e os dentes podres.

Trad.: Nelson Santander (a partir de tradução para o italiano feita por Luigi Forte)

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 07/03/2020

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Discorso dell’uomo lento

La storia accelera,
presto ci raggiunge
precedendoci con passo rapido.
Allora vediamo l’epoca glaciale
da dietro, Grecia,
Roma, la Rivoluzione francese,
la nuca di Stalin, le luci posteriori
dell’automobile di Hitler.
Strano, che non si stanchi
e cada.
A volta sigira
e ci mostra il suo volto
con la bocca aperta
e i denti marci.

Raymond Carver – Luto

Acordei cedo esta manhã e da minha cama
olhei para longe através do Estreito e vi
um pequeno barco movendo-se na água agitada,
com uma única luz acesa. Lembrei-me
de um amigo que costumava gritar
o nome de sua falecida esposa do alto das colinas
ao redor da Perugia. Que colocava um prato
para ela em sua mesa simples muito tempo depois
que ela se fora. E que abria as janelas
para que ela pudesse ter ar fresco. Eu achava
embaraçosa tal demonstração. Assim como os outros
amigos dele. Eu não conseguia compreendê-la.
Não até esta manhã.

Trad.: Nelson Santander

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Grief

Woke up early this morning and from my bed
looked far across the Strait to see
a small boat moving through the choppy water,
a single running light on. Remembered
my friend who used to shout
his dead wife’s name from the hilltops
around Perugia. Who set a plate
for her at his simple table long after
she was gone. And opened the windows
so she could have fresh air. Such display
I found embarrassing. So did his other
friends. I couldn’t see it.
Not until this morning.

Louise Glück – Under Taurus

Estávamos no píer, e você desejava
que eu visse as Plêiades. Eu podia ver
tudo, menos o que você desejava.

Agora o seguirei. Não há uma única nuvem; as estrelas
aparecem, até mesmo a irmã invisível1. Mostre-me onde olhar,
como se elas fossem ficar onde estão.

Instrua-me na escuridão.

Trad.: Nelson Santander

  1. A “irmã invisível” se refere à sétima estrela das Plêiades, um aglomerado estelar na constelação de Touro. Na mitologia grega, as Plêiades eram sete irmãs, mas apenas seis são facilmente visíveis a olho nu. A sétima irmã – Mérope -, por ter-se relacionado com um mortal, foi condenada por Zeus a não ter seu brilho visto da Terra. ↩︎

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 06/03/2020

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Under Taurus

We were on the pier, you desiring
that I see the Pleiades. I could see
everything but what you wished.

Now I will follow. There is not a single cloud; the stars
appear, even the invisible sister. Show me where to look,
as though they will stay where they are.

Instruct me in the dark.

Indrė Valantinaitė – Provavelmente serei uma velha magra

Provavelmente serei uma velha magra

Rasgando seus beijos e seus medos
Ela acorda à noite
Para se maravilhar com tudo que a substituiu.
Paul Éluard

Em 2055, provavelmente serei uma velha magra
que ocupa pouco espaço nos ônibus e nas filas.

Daqui a meio século, apenas o espelho do banheiro
e os médicos olharão para o meu corpo.

Apenas me roçarão
as suadas camisolas
rasgadas nas axilas.

Então, antes de dormir, me lembrarei
da língua do meu amado e do sabor de sua saliva.
E de todos os outros homens
que um dia me desejaram.

E do rangido da cama
onde nos deitávamos
juntos.

Trad.: Nelson Santander

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Greičiausiai būsiuliesa senė

Prapl ė šdama savo bu č inius ir baimes
Ji atsibunda naktį,
Kad stebėtųsi viskuo, kas ją pakeitė.
Paulo Éluard

Kokiais 2055 greičiausiai būsiu liesa senė
ir užimsiu mažai vietos autobusuose ir eileėse.

Už pusės amžiaus į mano kūną
Težiūrės vonios veidrodis ir daktarai.

Prie manęs liesis
tik prakaituoti naktiniai marškiniai
praplyšusia pažastim.

Tada prieš užmigdama prisiminsiu
mylimojo liežuvį ir jo seilių skonį.
Ir visus kitus vyrus,
kurie manęs kadaise geidė.

Ir dar – kaip girgžda lova
Į kurią sugulama
po du.

Dan Fante – [Agora que eu já escrevi]

Agora que eu já escrevi
dez anos de livros e peças
e abandonei álcool e cigarros
e a gloriosa pornografia suja
e minhas roupas não fedem por passar a noite dormindo no velho Pontiac
e meu cabelo está caindo e estou dez quilos mais gordo
Aos meus cinquenta anos com ligações a retornar e responsabilidades
e as discussões que tenho com policiais não são mais sobre fiança
ou inadimplência
ou onde escondi minha arma
Agora eu me sinto capaz de comprovar que o tempo não muda nada
que esta coisa que toda minha vida vem pulsando e se contorcendo dentro de mim
– este buraco vazio
Esta necessidade de gritar e mudar coisas e nunca estar satisfeito –
Esta voz que sobreviveu a psiquiatras e prisões e 3 divórcios
e suicídio e falência e cursos de auto-ajuda aos finais de semana
Esta raiva
ainda guia minha visão
e exige que eu vá de cabeça contra minha vida
como um tolo
em
busca
de
uma
chama
pura e branca

Trad.: Edivaldo Ferreira

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 05/03/2020

Joy Sullivan – Compaixão

Um dia, grelhávamos abobrinhas
no quintal. Era verão
e eu estava prestes a deixá-lo.
Um louva-a-deus pousou na grelha.
Ele era belo e brilhante,
mesmo enquanto crepitava e eu queimava
todas as pontas dos dedos tentando salva-lo.
Não se sabe ao certo se um inseto está sofrendo,
mas ele devia estar, e você o colocou
gentilmente na grama, onde
o encontrei e o esmaguei com o pé.
E acho que nos surpreendemos com o
que cada um de nós entendia por compaixão.

Trad.: Nelson Santander

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Mercy

Once, we were grilling zucchini
from the garden. It was summertime
and I was about to leave you.
A praying mantis landed on the grill.
He was bright and beautiful
even as he fizzled and I burned
all my fingertips trying to save him.
You can’t tell when an insect is in pain
but he must have been and you put him
in the grass so softly
where I found and stomped him.
And I think it surprised us
what we each defined as mercy.

Merrit Malloy – Epitáfio

Quando eu morrer
Doa o que restar de mim
Às crianças
E aos idosos que esperam para morrer.

E se precisares chorar,
Chora por teu irmão
Que caminha pela rua ao teu lado.
E quando precisares de mim,
Põe teus braços
Em volta de alguém
E dá-lhe o que tens a me oferecer.

Quero deixar-te algo,
Algo melhor
Que palavras
Ou sons.

Busca por mim
Nas pessoas que conheci
Ou amei,
E se não puderes me doar
Ao menos deixa-me viver em teus olhos
E não em teus pensamentos.

Podes me amar mais
Permitindo que as mãos
Toquem as mãos,
Que os corpos toquem os corpos,
E deixando ir
As crianças
Que precisam ser livres.

O amor não morre,
As pessoas sim.
Portanto, quando tudo que restar de mim
For amor,
Doa-me.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 02/03/2020

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Epitaph

When I die
Give what’s left of me away
To children
And old men that wait to die.

And if you need to cry,
Cry for your brother
Walking the street beside you.
And when you need me,
Put your arms
Around anyone
And give them
What you need to give to me.

I want to leave you something,
Something better
Than words
Or sounds.

Look for me
In the people I’ve known
Or loved,
And if you cannot give me away,
At least let me live on in your eyes
And not your mind.

You can love me most
By letting
Hands touch hands,
By letting bodies touch bodies,
And by letting go
Of children
That need to be free.

Love doesn’t die,
People do.
So, when all that’s left of me
Is love,
Give me away.

Maria do Rosário Pedreira – ouvidos

ouvidos

Quando estou sozinha,
sento os mortos à mesa
e dou-lhes de comer –
um prato a cada um, em

troca dessas histórias que
morro de saudades de os
ouvir contar. E escuto-os

com a velha paixão – tal
qual estivessem vivos –
para não me fugirem as
suas vozes da memória.

Às vezes choro, claro –
e nem é por eles já não
terem dentes e me
deixarem quase tudo no

prato; mas por os ver ali,
ao pé de mim, e me sentir
na mesma tão sozinha.

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