Raquel Lanseros – Oração

Que não cresça jamais em minhas entranhas
essa paz aparente chamada ceticismo
Fuja eu do amargor,
do cinismo,
da imparcialidade de ombros encolhidos.
Creia eu sempre na vida
Creia eu sempre
nas mil infinitas possibilidades.
Que me enganem os cantos das sereias,
que minha alma guarde sempre um toque de ingenuidade.
Que nunca se pareça minha pele
com a de um imóvel e congelado
paquiderme.
Que eu chore ainda
por sonhos impossíveis
por amores proibidos
por fantasias de menina feitas em pedaços.
Fuja eu do realismo espartilhado.
Conservem-se em meus lábios as canções,
muitas e muito altas e com muitos acordes.

Para o caso de chegarem tempos de silêncio.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 25/03/2020

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Invocación

Que no crezca jamás en mis entrañas
esa calma aparente llamada escepticismo.
Huya yo del resabio,
del cinismo,
de la imparcialidad de hombros encogidos.
Crea yo siempre en la vida
crea yo siempre
en las mil infinitas posibilidades.
Engáñenme los cantos de sirenas,
tenga mi alma siempre un pellizco de ingenua.

Que nunca se parezca mi epidermis
a la piel de un paquidermo inconmovible,
helado.
Llore yo todavía
por sueños imposibles
por amores prohibidos
por fantasías de niña hechas añicos.
Huya yo del realismo encorsetado.
Consérvense en mis labios las canciones,
muchas y muy ruidosas y con muchos acordes.

Por si vinieran tiempos de silencio.

Wendy Cope – Entediante

Entediante

                    ‘Que você viva em tempos interessantes.’ 
– maldição chinesa

Se você me perguntar “O que há de novo?”, não terei nada a dizer,
Exceto que o jardim está crescendo.
Tive um leve resfriado, mas hoje já estou melhor.
Estou contente com o andamento das coisas.
Sim, ele continua o mesmo de sempre,
Ainda comendo e dormindo e roncando.
Eu sigo com o meu trabalho. Ele com o dele.
Sei que isso tudo é bem entediante.

Já houve drama o suficiente em meu passado turbulento:
Lágrimas e paixão – já esgotei minha cota.
Nenhuma notícia é boa notícia, e que assim seja por muito tempo.
Se nada acontecer, fico grata.
Uma planta mais satisfeita como você nunca viu,
Meus espíritos vegetais estão nas alturas.
Se você busca emoção, mantenha distância de mim.
Quero continuar sendo entediante.

Não vou a festas. Para que elas servem
se você não precisa encontrar um novo amante?
Você bebe e ouve e bebe um pouco mais
E tira o dia seguinte para se recuperar.
Alguém para ficar em casa comigo era tudo o que eu queria
E agora que encontrei um porto seguro,
Tenho apenas uma ambição na vida: aspiro
A continuar sendo entediante.

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Being Boring

                    ‘May you live in interesting times.’ 
– Chinese curse

If you ask me ‘What’s new?’, I have nothing to say
Except that the garden is growing.
I had a slight cold but it’s better today.
I’m content with the way things are going.
Yes, he is the same as he usually is,
Still eating and sleeping and snoring.
I get on with my work. He gets on with his.
I know this is all very boring.

There was drama enough in my turbulent past:
Tears and passion–I’ve used up a tankful.
No news is good news, and long may it last.
If nothing much happens, I’m thankful.
A happier cabbage you never did see,
My vegetable spirits are soaring.
If you’re after excitement, steer well clear of me.
I want to go on being boring.

I don’t go to parties. Well, what are they for,
If you don’t need to find a new lover?
You drink and you listen and drink a bit more
And you take the next day to recover.
Someone to stay home with was all my desire
And, now that I’ve found a safe mooring,
I’ve just one ambition in life: I aspire
To go on and on being boring.

Juan Vicente Piqueras – Visível e Invisível

(Para os amigos que ainda estão vivos,
          mas desapareceram, onde quer que estejam,
          com um abraço póstumo)

As pessoas tendem a desaparecer.

Um dia te fazem rir e no seguinte já não estão.

Um dia te ligavam todos os dias
para saber como estavas,
e agora já nem te lembras de suas vozes.

Um dia disseram sempre
e sempre acabou sendo nunca mais.

As pessoas se parecem com fantasmas.
Aparecem, seduzem, crês nelas,
dão medo, brilham e desaparecem.

Partem e, de repente, já não existem,
como se nunca tivessem existido.
Chegas a convencer-te de que as sonhou.

Eu sou uma delas.

Morrer, no nosso caso,
É uma redundância.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 24/03/2020

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Visto y no visto

(A los amigos que siguen vivos
          pero han desaparecido, allá donde estén,
          con un abrazo póstumo.)

La gente tiende a desaparecer.

Un día te hacen reír y al siguiente no están.

Un día te llamaban cada día
para saber cómo estabas,
y ahora ya no puedes ni recordar sus voces.

Un día dijeron siempre
y siempre acabó siendo nunca más.

La gente se parece a los fantasmas.
Aparecen, seducen, crees en ellos,
dan miedo, brillan y desaparecen.

Se van y, de repente, ya no existen,
como si nunca hubieran existido.
Llegas a convencerte de que los has soñado.

Yo soy uno de ellos.

Morir, en nuestro caso,
es una redundancia.

Sharon Olds – Depois de 37 anos minha mãe pede desculpas pela minha infância

Quando você se inclinou para mim, braços abertos,
como quem tenta atravessar uma fogueira,
quando você cambaleou em minha direção, gritando
que sentia muito pelo que havia feito comigo, seus
olhos se enchendo de um líquido terrível como
bolhas de mercúrio de um termômetro partido
deslizando pelo chão, quando você bradou baixinho
A quem mais eu poderia recorrer? Quem mais eu tinha?, os
pratos em pedaços em suas mãos oscilando em minha direção, a
água escorrendo de seus olhos como pedras úmidas
sob forte pressão, eu não consegui
imaginar como seria o resto de minha vida.
O céu parecia estar se estilhaçando, como uma janela
por onde alguém entra e sai, seu
rosto delicado brilhava como
cristal despedaçado, com verdadeiro arrependimento, o
arrependimento do corpo. Não conseguia imaginar como
seriam meus dias com você arrependida, com
você desejando não ter feito o que fez, o
céu desabando ao meu redor, os fragmentos
cintilando em meus olhos, seu corpo velho e
mole caído sobre mim em horror, eu a
segurei em meus braços e disse: Está tudo bem,
não chore, está tudo bem, o ar se encheu de
vidro voando, eu mal sabia o que havia
dito ou quem eu seria agora que a tinha perdoado.

Trad.: Nelson Santander

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After 37 Years My Mother Apologizes for My Childhood

When you tilted toward me, arms out
like someone trying to walk through a fire,
when you swayed toward me, crying out you were
sorry for what you had done to me, your
eyes filling with terrible liquid like
balls of mercury from a broken thermometer
skidding on the floor, when you quietly screamed
Where else could I turn? Who else did I have?, the
chopped crockery of your hands swinging toward me, the
water cracking from your eyes like moisture from
stones under heavy pressure, I could not
see what I would do with the rest of my life.
The sky seemed to be splintering, like a window
someone is bursting into or out of, your
tiny face glittered as if with
shattered crystal, with true regret, the
regret of the body. I could not see what my
days would be, with you sorry, with
you wishing you had not done it, the
sky falling around me, its shards
glistening in my eyes, your old, soft
body fallen against me in horror I
took you in my arms, I said It’s all right,
don’t cry, it’s all right, the air filled with
flying glass, I hardly knew what I
said or who I would be now that I had forgiven you.

Sharon Olds – Uma semana depois

Uma semana depois, eu disse a um amigo: acho que
nunca poderia escrever sobre isso.
Talvez daqui a um ano eu consiga escrever alguma coisa.
Há algo em mim que talvez algum
dia possa ser escrito; por ora está dobrado, e redobrado,
como um bilhete da escola. E em meu sonho
alguém jogava jacks1, e no ar havia um
jack arremessado, enorme, pairando
em chamas. E quando acordei, dei por mim
contando os dias desde a última vez que vira
meu marido – apenas dois anos, e algumas semanas
e horas. Tínhamos assinado os papéis e descido até o
térreo do Edifício Chrysler,
a beleza intacta de seu saguão ao nosso redor
como a tumba de um rei, no teto o pequeno
aeroplano pintado, no mural, voando. E
entrou em meu contrito coração, esta manhã,
suave e timidamente, de forma cautelosa,
indomável, uma visão mais ampla da doçura
e vastidão de sua vida que prossegue,
desconhecida e invisível para mim,
inaudível, intocada – mas conhecida, visível,
audível, palpável. E ocorreu-me,
por um momento, momento a momento,
ficar feliz por ele estar com aquela
que ele acredita ter sido feita para ele. E pensei em minha
mãe, a minutos de sua morte, oitenta e cinco
anos desde o nascimento, os ossos
de passarinho de seus ombros sob minha mão, a
casca de ovo da nuca, enquanto ela jazia em paz
nos lençóis limpos, e eu podia lhe falar com o melhor
do meu pobre e parcial amor, podia cantar para ela,
e percebia a sorte
e o privilégio daquela hora.

Trad.: Nelson Santander

  1. A autora se refere a um jogo infantil tradicional nos Estados Unidos, conhecido no Brasil como “jogo das cinco marias” ou “pedrinhas”. O jogo é composto por pequenas peças de metal ou plástico (chamadas jacks) e uma bolinha, e o objetivo é jogar a bolinha para o alto enquanto se recolhem os jacks do chão em sequência. ↩︎

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 22/03/2020

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A week later

A week later, I said to a friend: I don’t
think I could ever write about it.
Maybe in a year I could write something.
There is something in me maybe someday
to be written; now it is folded, and folded,
and folded, like a note in school. And in my dream
someone was playing jacks, and in the air there was a
huge, thrown, tilted jack
on fire. And when I woke up, I found myself
counting the days since I had last seen
my husband – only two years, and some weeks,
and hours. We had signed the papers and come down to the
ground floor of the Chrysler Building,
the intact beauty of its lobby around us
like a king’s tomb, on the ceiling the little
painted plane, in the mural, flying. And it
entered my strictured heart, this morning,
slightly, shyly as if warily,
untamed, a greater sense of the sweetness
and plenty of his ongoing life,
unknown to me, unseen by me,
unheard, untouched-but known, seen,
heard, touched. And it came to me,
for moments at a time, moment after moment,
to be glad for him that he is with the one
he feels was meant for him. And I thought of my
mother, minutes from her death, eighty-five
years from her birth, the almost warbler
bones of her shoulder under my hand, the
eggshell skull, as she lay in some peace
in the clean sheets, and I could tell her the best
of my poor, partial love, I could sing her
out with it, I saw the luck
and luxury of that hour.

Billy Collins – Memento Mori

Não é preciso muito para me lembrar
que sou uma efêmera,
uma bolha de sabão flutuando sobre a festa das crianças.

Estar sob os ossos de um dinossauro
em um museu sempre cumpre o papel,
assim como ver uma rocha da lua em uma vitrine.

Até a Igreja de St. Anne serve,
uma estrutura que acabei de ver em uma revista –
construída em 1722 de arenito e calcário na cidade de Cork.

E a percepção de que ninguém
que já navegou pelas águas do tempo
descobriu um modo de evitar a morte

sempre me puxa pelas rédeas e me acomoda
à beira da estrada, grato pelas doces ervas daninhas
e pelas porções de flores silvestres coloridas.

Tantos lembretes de minha mortalidade
aqui, ali e em todo lugar, visíveis a qualquer hora,
praticamente em tudo que penso, exceto em você,

placa sobre a porta deste bar em Cocoa Beach
anunciando ter sido fundado –
embora fundado soe estranho – em 1996.

Trad.: Nelson Santander

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Memento Mori

It doesn’t take much to remind me
what a mayfly I am,
what a soap bubble floating over the children’s party.

Standing under the bones of a dinosaur
in a museum does the trick every time
or confronting in a vitrine a rock from the moon.

Even the Church of St. Anne will do,
a structure I just noticed in a magazine –
built in 1722 of sandstone and limestone in the city of Cork.

And the realization that no one
who ever breasted the waters of time
has figured out a way to avoid dying

always pulls me up by the reins and settles me down
by a roadside, grateful for the sweet weeds
and the mouthfuls of colorful wildflowers.

So many reminders of my mortality
here, there, and elsewhere, visible at every hour,
pretty much everything I can think of except you,

sign over the door of this bar in Cocoa Beach
proclaiming that it was established –
though established does not sound right – in 1996.

William Stafford – Uma cópia de arquivo

Deus tira seu retrato: não desvie o olhar –
agora, neste quarto, seu rosto inclinado
exatamente como é, antes de você pensar
ou controla-lo. Vá em frente, deixe-se trair por
todas as urgências secretas e ainda mantenha
aquele disfarce parcial que você chama de caráter.

Mesmo o seu lábio, dizem, o modo como ele arqueia
ou não, ou hesita, entregará
volumes de provas. A câmera, totalmente aberta,
está pronta; a exposição é de uns trinta e cinco anos
ou mais – depois disso você se torna
aquilo que verniz já era, por completo.

Agora você quer se explicar. Sua mãe
foi uma certa – como expressa-lo? – influência.
Sim. E seu pai, seja lá o que tenha sido,
não poderia mudar isso. Não. E sua cidade,
claro, tinha seus limites. Continue, siga falando:
Espere. Não se mexa. Esse é você para sempre.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 21/03/2020

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An archival print

God snaps your picture: don’t look away –
this room right now, your face tilted
exactly as it is before you can think
or control it. Go ahead, let it betray
all the secret emergencies and still hold
that partial disguise you call your character.

Even your lip, they say, the way it curves
or doesn’t, or can’t decide, will deliver
bales of evidence. The camera, wide open,
stands ready; the exposure is thirty-five years
or so – after that you have become
whatever the veneer is, all the way through.

Now you want to explain. Your mother
was a certain – how to express it? – influence.
Yes. And your father, whatever he was,
you couldn’t change that. No. And your town
of course had its limits. Go on, keep talking :
Hold it. Don’t move. That’s you forever.

José Infante – Corpo estranho

Corpo Estranho

Para Rafael Inglada,
Ele sabe por quê.

Como é lógico e natural que aconteça,
meu corpo vem mudando ao ritmo
implacável dos anos. Rugas, flacidez,
deterioração total por todos os lados, os olhos apagados
e sem brilho. E no olhar opaco nada
que anteveja o futuro. É estranho
este corpo que agora arrasto todos os dias
e cujo passo se torna cada vez mais lento
e sem destino. Não há nada esperando por mim.
Meu corpo, velho companheiro, o sabe,
e compartilha minha desilusão e minhas misérias.
Já não o reconheço. Nada nele é familiar
e antigo. Parece um corpo novo
mas desfeito e desgastado como se fosse
velho. Talvez ele seja mais velho do que eu.
Cheguei irremediavelmente à velhice,
embora por dentro me sinta mais jovem
do que os anos que completei
com uma precisão impressionante e pontual.
E me parece igualmente estranho e desconcertante
ter me tornado mais velho que meu pai,
que morreu aos sessenta e dois. Qual é
realmente o corpo que me abriga?
O deteriorado e velho ou o que jaz dentro dele,
ainda com a curiosidade e o coração despertos?
Em nenhum deles me encontro. Tudo parece estranho.
Alheio já à vida, que arrasto com desgosto
em direção a um outro corpo, que será o meu cadáver
transformado em cinzas e fumaça
espalhada entre as ondas dos mares.

Trad.: Nelson Santander

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Cuerpo Extraño

A Rafael Inglada,
Él sabe por qué.

Como es lógico y natural que ocurra
mi cuerpo ha ido cambiando al paso
implacable de los años. Arrugas, flacidez,
deterioro total por todas partes, los ojos apagados
y sin brillo. Y en la mirada opaca nada
que presienta el futuro. Es extraño
este cuerpo que ahora aûastro cada día
y cuyo paso se hace cada vez más lento
y sin destino. No hay nada que me espere.
Mi cuerpo, antiguo compañero, lo sabe
y comparte mi desazón y mis miserias.
Ya no lo reconozco. Nada en él es familiar
y antiguo. Parece un cuerpo nuevo
pero deshecho y desgastado como si fuera
viejo. Tal vez sea más viejo que yo.
Llegué ya sin remedio hasta la ancianidad,
aunque dentro de mí me sienta más joven
que los años que he cumplido
con una precisión abrumadora y puntual.
Y me parece igualmente raro y desconcertante
haber llegado a ser más viejo que mi padre,
que murió a los sesenta y dos. ¿Cuál es
en realidad el cuerpo que me alberga?
¿El deteriorado y viejo o el que yace dentro de él,
aún con la curiosidad y el corazón despierto?
En ninguno me encuentro. Todo parece extraño.
Ajeno ya aIa vida, que arrastro con desgana
hacia otro cuerpo que será mi cadáver
convertido en ceniza y en humo
esparcido entre las olas de los mares.

Nicanor Parra – Último brinde

Querendo ou não,
só temos três alternativas:
o ontem, o presente e o amanhã.

E nem sequer três,
pois, como diz o filósofo,
ontem é ontem,
é nosso apenas na memória:
à rosa que já se desbastou
não se pode arrancar outra pétala.

As cartas por jogar
são apenas duas:
o presente e o dia de amanhã.

E nem sequer duas,
porque é um fato bem estabelecido
que o presente só existe
na medida em que se faz passado
e já passou…,
como a juventude.

Em suma,
só nos resta o amanhã:
levanto minha taça
para esse dia que nunca chega
mas que é o único
de que realmente dispomos.

Trad.: Nelson Santander

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Ultimo brindis

Lo queramos o no
sólo tenemos tres alternativas:
el ayer, el presente y el mañana.

Y ni siquiera tres
porque como dice el filósofo
el ayer es ayer
nos pertenece sólo en el recuerdo:
a la rosa que ya se deshojó
no se le puede sacar otro pétalo.

Las cartas por jugar
son solamente dos:
el presente y el día de mañana.

Y ni siquiera dos
porque es un hecho bien establecido
que el presente no existe
sino en la medida en que se hace pasado
y ya pasó…,
como la juventud.

En resumidas cuentas
sólo nos va quedando el mañana:
yo levanto mi copa
por ese día que no llega nunca
pero que es lo único
de lo que realmente disponemos.

Adam Zagajewski – Cidade submersa

Esta cidade deixará de existir, não haverá mais halos
nas manhãs de primavera, quando as colinas verdejantes
tremeluzem no meio e se elevam
como barreiras de dirigíveis —

e maio não cruzará suas ruas
com pássaros estridentes e promessas de verão.
Fim dos momentos de tirar o fôlego
e dos gélidos êxtases das águas da nascente.

Torres de igrejas repousam no fundo do oceano,
e vistas perfeitas de avenidas arborizadas
não atraem os olhares de ninguém.

E mesmo assim vivemos calma e
humildemente — com malas,
em salas de espera, nos aeroportos, trens,

e ainda, cega e obstinadamente, buscamos a imagem,
a forma final das coisas
entre inexplicáveis acessos
de mudo desespero —

como se vagamente nos lembrássemos
de algo que não pode ser recordado,
como se aquela cidade submersa nos acompanhasse,
sempre nos questionando,

e sempre insatisfeita com nossas respostas —
exigente e, à sua maneira, perfeita.

Trad.: Nelson Santander da versão do poema em inglês traduzido por Clare Cavanagh

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Submerged City

That city will be no more, no halos
of spring mornings when green hills
tremble in the midst and rise
like barrage balloons—

and May won’t cross its streets
with shrieking birds and summer’s promises.
No breathless spells,
no chilly ecstasies of spring water.

Church towers rest on the ocean’s floor,
and flawless views of leafy avenues
fix no one’s eyes.

And still we live on calmly,
humbly—from suitcases,
in waiting rooms, on airplanes, trains,

and still, stubbornly, blindly, we seek the image,
the final form of things
between inexplicable fits
of mute despair—

as if vaguely remembering
something that cannot be recalled,
as if that submerged city were traveling with us,
always asking questions,

and always unhappy with our answers—
exacting, and perfect in its way.