Rainer Maria Rilke – Fonte Romana

Vila Borghese

Duas velhas bacias sobrepondo
suas bordas de mármore redondo.
Do alto a água fluindo, devagar,
sobre a água, mais embaixo, a esperar,

muda, ao murmúrio, em diálogo secreto,
como que só no côncavo da mão,
entremostrando um singular objeto:
o céu, atrás da verde escuridão;

ela mesma a escorrer na bela pia,
em círculos e círculos, constante-
mente, impassível e sem nostalgia,

descendo pelo musgo circundante
ao espelho da última bacia
que faz sorrir, fechando a travessia.

Adélia Prado – A Treva

Me escolhem os claros do sono
engastados na madrugada,
a hora do Getsêmani.
São cruas claras visões
às vezes pacificadas,
às vezes o terror puro
sem o suporte dos ossos,
que o dia pleno me dá.
A alma desce aos infernos,
a morte tem seu festim.
Até que todos despertem
e eu mesma possa dormir,
o demônio come a seu gosto,
o que não é Deus pasta em mim.

Anne Sexton – Frágil Fio

Minha fé
é um grande peso
suspenso por um frágil fio,
como a aranha
suspende seu bebê em uma fina teia,
como a videira,
galhos finos e madeira,
sustenta as uvas
como globos oculares,
como muitos anjos
dançam na cabeça de um alfinete.

Deus não precisa
de muito fio para manter-Se lá,
apenas uma veia fina,
com o sangue pulsando,
e um pouco de amor.
Como já se disse:
O amor e a tosse
não podem ser disfarçados.
Nem mesmo uma pequena tosse.
Nem mesmo um pequeno amor.
Então, se você tiver apenas um fino fio,
Deus não se importa.
Ele penetrará em suas mãos
tão facilmente quanto dez centavos costumavam
pagar uma Coca.

Trad.: Nelson Santander

Anne Sexton – Small Wire

My faith
is a great weight
hung on a small wire,
as doth the spider
hang her baby on a thin web,
as doth the vine,
twiggy and wooden,
hold up grapes
like eyeballs,
as many angels
dance on the head of a pin.

God does not need
too much wire to keep Him there,
just a thin vein,
with blood pushing back and forth in it,
and some love.
As it has been said:
Love and a cough
cannot be concealed.
Even a small cough.
Even a small love.
So if you have only a thin wire,
God does not mind.
He will enter your hands
as easily as ten cents used to
bring forth a Coke.

Laura Riding – Uma Gentileza

Estar viva é estar curiosa.
Quando perder interesse pelas coisas
E não estiver mais atenta, álacre
Por fatos, acabo este minguado inquérito.
A morte é a condição do supremo tédio.

Vou deixar que me desintegre
E aí, por saber da paz que a morte traz,
Seria bom seguir convencendo o destino
A ser mais generoso, estender, também,
O privilégio do tédio a todos vocês.

Trad.: Rodrigo Garcia Lopes

Giuseppe Ungaretti – Vigília

Cima Quatro, 23 de Dezembro de 1915

Toda uma noite em claro
caído ao lado
de um companheiro
massacrado
com sua boca
arreganhada
exposta à lua cheia
com o hematoma
de suas mãos
cravado
em meu silêncio
escrevi
cartas cheias de amor
Não tinha nunca estado
tão
aferrado à vida

Trad.: Nelson Ascher

Giuseppe Ungaretti – Não gritem mais

Parem de matar os mortos,
Não gritem mais, não gritem
Se ouvir ainda os quiserem,
Se imperecer ainda esperam.

Eles, sussurro imperceptível,
Não fazem mais ruído
Que o mato quando cresce,
Alegre, onde homem não passa.

Trad.:  Aurora Bernardini

Giuseppe Ungaretti – Peso

    Mariano, 29 de junho de 1916

Aquele camponês
se fia na medalha
de Santo Antonio
e segue tranquilo

Mas bem só e bem nua
sem qualquer miragem
carrego minha alma

Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti

Georg Trakl – Ocaso

A Karl Borromäus Heinrich

Por sobre o lago branco
Partiram os pássaros selvagens.
No crepúsculo sopra de nossas estrelas um vento gelado.

Por sobre os nossos túmulos
Inclina-se a fronte despedaçada das trevas.
Sob carvalhos, balançamos numa barca prateada.

Sempre ressoam os muros brancos da cidade.
Sob arcos de espinhos
Oh, irmão, ponteiros cegos, escalamos rumo à meia-noite.

Georg Trakl – Olhando um velho álbum

Sempre voltas, melancolia,
Mansidão da alma solitária.
Por fim arde um dia dourado.

Com humildade curva-se à dor o paciente
Ressoando harmonia e suave loucura.
Olha! Já escurece.

Volta de novo a noite e um mortal lamenta-se
E com ele sofre um outro.

Arrepiada sob estrelas de outono,
A cabeça mais baixa a cada ano.

Federico García Lorca – E Depois…

Os labirintos
que criam o tempo
se desvanecem.

  (Só fica
o deserto.)

  O coração,
fonte do desejo,
se desvanece.

  (Só fica
o deserto)

  A ilusão da aurora
e os beijos
se desvanecem.

  Só fica
o deserto.
Um ondulado
deserto.

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