Mário Dionísio – Elegia ao Companheiro Morto

Meu companheiro morreu às cinco da manhã

Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã

Ah antes fosse noite noite apenas noite
sem a promessa da manhã

Ah antes fosse noite noite noite apenas noite
e não houvesse em tudo a promessa da manhã

Deitado para sempre às cinco da manhã

Agora que sabia olhar os homens com força
e ver nas sombras que até aí não via a promessa risonha da manhã

Mas quem se vai interessar amigos quem
por quem só tem o sonho da manhã?

E uma vez de noite ao fim da noite mesmo ao cabo da noite
meu companheiro ficou deitado para sempre
e com a boca cerrada para sempre
e com os olhos fechados para sempre
e com as mãos cruzadas para sempre
imóvel e calado para sempre

E era quase manhã E era quase amanhã

Alberto Caeiro – Poema XLIII (“Antes o voo da ave”)

Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!

Bruna Kalil – Paleativa

Você é rebelde só da cintura para baixo
1984, George Orwell


busco prazer sendo profana
para que o físico compense
o descompasso
do meu interior tão triste
e tão mole. fujo
dos sentimentos
justamente por ter a plena consciência
de que sou sentimental dem-
ais.
tenho medo, pavor, fobia
de apaixonar-me outra
vez, dói muito. o amor
corroeu minha alma,
fez dela um terreno caduco,
descrente.
então, eu fecho os olhos,
passo o batom vermelho
e abro minhas pernas,
tentando esquecer que sou humana:
vou morrer.​

Rui Pires Cabral – Cartas

Escreves-me cartas, sou o destinatário
da tua solidão. E sempre compreendo
tudo, mesmo o que não dizes, o que tinge
as entrelinhas de um branco desespero

que é tanto teu como meu: não tens
quem te salve, envelheceste, trataste mal
de um jardim que não chegou a vingar.
Se nos cruzássemos nas ruas desta cidade

entre desconhecidos de toda a sorte, talvez
nos sentássemos a falar da nossa vida, isto é,
de como vamos ficando cada vez mais órfãos
de nós próprios. Ou, pensando bem, talvez não.

Gil T. Sousa – Maré

quando a maré se afasta
é possível escrever tudo

outra vez

Jorge Luis Borges – A Chuva

A tarde subitamente clareou
Porque já cai a chuva minuciosa.
Ou caiu. A chuva é coisa curiosa
Que acontece no tempo que passou.

Quem a ouve cair já recobrou
O tempo em que a fortuna venturosa
Revelou-lhe uma flor chamada rosa
E a encarnada cor com que se corou.

Que esta chuva que já cega a vidraça
Em afastados arrabaldes faça
Feliz a vide que há muito cresceu

Num pátio que já não há. A chuvosa
Tarde traz-me a voz, querida voz: a
Do meu pai que volta e que não morreu.

Trad.: Marcelo Tápia

Jorge Luis Borges – La Lluvia

Bruscamente la tarde se ha aclarado
Porque ya cae la lluvia minuciosa.
Cae o cayó. La lluvia es una cosa
Que sin duda sucede en el pasado.

Quien la oye caer ha recobrado
El tiempo en que la suerte venturosa
Le reveló uma flor llamada rosa
Y el curioso color del colorado.

Esta lluvia que ciega los cristales
Alegrará en perdidos arrabales
Las negras uvas de una parra en cierto

Patio que ya no existe. La mojada
Tarde me trae la voz, la voz deseada,
De mi padre que vuelve y que no ha muerto.

César Cantoni – Álbum de Família

Morreu meu pai, morreram meus avós,
morreram meus tios de sangue e por afinidade.
Uma família inteira de ferreiros,
marceneiros, curtidores, pedreiros,
jaz agora sem forças embaixo da terra.

E eu, o mais inútil de todos,
o que não sabe fazer nada com as mãos,
logrei sobreviver impunemente
para chorar diante de uma foto
o melhor do meu sangue.

Trad.: Nelson Santander

 

César Cantoni – Album de Familia

Murió mi padre, murieron mis abuelos,
murieron mis tíos carnales y políticos.
Una familia entera de herreros,
ebanistas, curtidores, albañiles,
yace ahora sin fuerzas bajo tierra.

Y yo, el más inútil de todos,
el que no sabe hacer nada con las manos,
he logrado sobrevivir impunemente
para llorar delante de una foto
lo mejor de mi sangre.

Octavio Paz – Antes do Começo

Ruídos confusos, claridade incerta.
Outro dia começa.
Um quarto em penumbra
e dois corpos estendidos.
Em minha fronte me perco
numa planície vazia.
E as horas afiam suas navalhas.
Mas a meu lado tu respiras;
íntima e longínqua
fluis e não te moves.
Inacessível se te penso,
com os olhos te apalpo,
te vejo com as mãos.
Os sonhos nos separam
e o sangue nos reúne:
Somos um rio que pulsa.
Sob tuas pálpebras amadurece
a semente do sol.
O mundo
No entanto, não é real,
o tempo duvida:
Só uma coisa é certa,
o calor da tua pele.
Em tua respiração escuto
as marés do ser,
a sílaba esquecida do Começo.

Trad.: Antônio Moura

 

Octavio Paz – Antes del Comienzo

Ruidos confusos, claridad incierta
Otro día comienza.
Es un cuarto en penumbra
y dos cuerpos tendidos.
En mi frente me pierdo
por un llano sin nadie.
Ya las horas afilan sus navajas.
Pero a mi lado tú respiras;
entrañable y remota
fluyes y no te mueves.
Inaccesible si te pienso,
con los ojos te palpo,
te miro con las manos.
Los sueños nos separan
y la sangre nos junta:
somos un río de latidos.
Bajo tus párpados madura
la semilla del sol.
El mundo
no es real todavía,
el tiempo duda:
sólo es cierto
el calor de tu piel.
En tu respiración escucho
la marea del ser,
la sílaba olvidada del Comienzo.

Hagar Peeters – Esta Noite Cruzei-me com meus Pais

Esta noite cruzei-me com os meus pais,
duas sombras pálidas reciprocamente atraídas,
à luz branca de um candeeiro.

Tendo em conta a felicidade demonstrada,
eu ainda não era nascida. Eram jovens e muito apaixonados.
Uma grande tristeza anuviou-me
porque eu sabia a continuação da história.

Ela soltava gargalhadas por causa de algo que ele lhe tinha sussurrado.
Ele ria alto como ainda costuma fazer.
Trocamos um cumprimento bem-educado e
depois cada um seguiu o seu caminho.

‘Vão ver’ gritei-lhes depois de passarem,
‘ainda havemos de nos encontrar’.
De braço dado, dobraram a esquina em silêncio.

Trad.: Maria Leonor Raven-Gomes

Peguei aqui: http://poesiailimitada.blogspot.com.br/2012/12/hagar-peeters.html

Fernando Sabino – Certeza

De tudo, ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando.
A certeza de que precisamos continuar.
A certeza de que seremos
interrompidos antes de terminar.
Portanto devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo.
Da queda um passo de dança.
Do medo, uma escada.
Do sonho, uma ponte.
Da procura, um encontro.