Nascidos nus. Enterrados nus.
Qual a azáfama? Toda a vida
conduz à primeira nudez.
Versão: José Alberto Oliveira
Nelson Santander
Nascidos nus. Enterrados nus.
Qual a azáfama? Toda a vida
conduz à primeira nudez.
Versão: José Alberto Oliveira
Eutychides, o poeta lírico, morreu.
Fugi, ó moradores do Hades! – ele transporta odes
e ordenou que consigo queimassem
vinte liras e vinte e cinco pautas de música,
que Caronte terá de transportar.
Onde se poderá encontrar refúgio,
agora que Eutychides canta pela eternidade?
Versão: José Alberto Oliveira
Não esbanjem comigo o odor da mirra,
nem ofereçam coroas de flores,
nem acendam a pira funerária,
tudo isso é desperdício; ofereçam-me
presentes, se quiserem, enquanto
estiver vivo – mas espalhar cinzas
no vinho torná-lo-á lama
e dele não beberão os mortos.
Versão: José Alberto Oliveira
Mandaste chamá-la, disseste para vir,
preparaste tudo. Mas, se vier, o que farás?
Repara no que se passa contigo, Automedon.
Esse canalha, que era alegre e firme, está
agora flácido, como cenoura cozida, morto
e encolhido entre as pernas. Como irão
rir se te puseres a navegar de mãos
vazias, um remador que perdeu o remo.
Versão: José Alberto Oliveira
Psyllas jaz aqui. A sua ocupação
proxeneta; mantinha um bando
de raparigas e alugava-as para festas.
Um negócio pouco simpático, ganhar
dinheiro com carne humana e fraca.
Mas poupem o seu túmulo, não atirem
pedras, agora que está morto e enterrado.
Lembrem-se disto: os serviços que prestou
convenceram os rapazes a deixarem
as nossas mulheres sossegadas.
Versão: José Alberto Oliveira
Eu, Lais, que escarneci dos gregos
e enxame de amantes retive à porta,
ofereço a Afrodite o meu espelho. Não olharei
para esta cara e não consigo ver a anterior.
Versão: José Alberto Oliveira
Quem esculpiu o Amor
e o colocou junto
desta fonte, pensaria
que poderia subjugar,
com água, tal fogo?
Versão: José Alberto Oliveira
Falamos através de continentes.
É pouco provável que nos voltemos a encontrar.
Não posso fumar, não posso viajar,
nenhuma felicidade claro.
Sentindo um vento frio nas costas
renunciamos à filosofia.
Acabaram os amantes errantes, maridos,
passarões não propriamente sensatos.
Ainda temos a idade com que nos conhecemos.
Trad.: Francisco José Craveiro de Carvalho
Um tempo houve em que,
de tão próximo, quase podias ouvir
o silêncio do mundo pulsando
onde tu também eras mundo, coisa pulsante.
Extinguiu-se esse canto
não na morte
mas na vida excluída
da clarividência da infância
e de tudo o que pulsa,
fins e começos,
e corrompida pela estridência
e pela heterogeneidade.
Agora respondes por nomes supostos,
habitante de países hábeis e reais,
e precisas de ajuda para as coisas mais simples,
o pensamento, o sofrimento, a solidão.
A música, só voltarás a escutá-la
numa noite lívida,
uma noite mais vulnerável do que todas
(o presente desvanecendo-se, o passado cada vez mais lento)
um pouco antes de adormeceres
sob escombros.