-
Jorge Valdés Díaz-Vélez – Canção de fevereiro

Canção de fevereiro no peito do céu, palpitando Jaime Gil de Biedma Leve e triste, a tarde se retira contigo até o crepúsculo e as horas começam a doer nas dobras distantes do lençol. Subitamente a noite regressou e é difícil não pensar em teus efêmeros lábios ou nas altas regiões do teu corpo glorificando…
-
Iracema Macedo – Dandara

Eu só acreditava em Drummond: ‘o amor chega tarde’ Não conhecia o amor que fulgura sem aviso esse que se sabe proibido o amor que já se sabe perdido desde o início Eu não acreditava no impossível vinha tão sóbria, tão cheia de medidas não conhecia o esplendor da queda nem a violência dos abismos
-
José Miguel Silva – Tudo coisas mortais para a poesia

A casa, o lume, o sono dobrado do corpo feliz, a cesta de figos, a curva do rio, a fotografia no cimo do monte, a veracidade das glicínias, o rosto da mãe, a fava no bolo, o trunfo de copas, o filme da tarde, a música nova, o rasto da chuva por entre os pinheiros,…
-
Juan Vicente Piqueras – Lençóis herdados

A ferida mais íntima é herdada. O onde, o como, o quando,a morte, o nascimento,língua, família, deus, tempo, amor:o decisivo do que nos acontece,e quem somos,não é algo desejado nem escolhido. E passamos a vida, a despeito disso, ou por isso,crendo que o desejo é nosso deus,e não uma rosa rara que em nós cultivao…
-
Czeslaw Milosz – Sobre anjos

Tudo foi tirado de vocês: túnica branca, asas, até mesmo a existência. Contudo, ainda acredito em vocês, mensageiros. Aqui, onde o mundo está virado do avesso, uma trama maciça bordada com astros e bestas, vocês passeiam, inspecionando as suturas confiáveis. Curta é sua estadia neste lugar: às vezes na hora matinal, se o céu está…
-
Joan Margarit – Ela me disse

Procuremos uma casa para morrer. Por exemplo, aquele apartamento onde começamos a nossa história: arquitetura vulgar dos anos sessenta, mas arejado e com flores. Um bom lugar – e alegre – para nele morrer: Talvez na sala, sempre com música e a luz que chegava do mar. Ou na cozinha, em que recebia as ordens…
-
W. S. Merwin – A estrada

Parece grande demais para que apenas um homemCaminhe sobre ela Como se ela e o dia vazioFossem tudo o que existisse. E um cachorrinhoTrotando no compasso das ondas de calor, pertoDo horizonte, parecendo nunca avançar.O sol e todas as coisasEstão empoçados nos mesmos lugares, e a valaÉ sempre a mesma, repleta de todo tipo deOsso,…
-
Mary Oliver – Quando a morte chegar

Quando a morte chegarcomo um urso faminto no outono;Quando a morte chegar e tirar todas as moedas brilhantes de sua bolsa para me comprar, e fechá-la com um estalo;quando a morte chegarcomo o sarampo-varíola quando a morte chegarcomo um iceberg entre as omoplatas, quero atravessar o portal cheia de curiosidade, perguntando:como será essa sombria cabana?…
-
Rainer Maria Rilker – A Morte da Amada

Da morte ele sabia quase nada: que nos toma e nos cala de repente. Como a amada não fora arrebatada, antes se desprendera docemente do seu olhar para a morada escura, e como percebeu que à outra vida como uma lua plena a formosura da visitante fora concedida, dos mortos se tornou tão familiar que…
-
Robert Graves – Através do pesadelo

Jamais se desencante daquele Lugar no qual algumas vezes você sonha estar, Deitada muito além de todo sonho, Ou daqueles que você lá encontra, embora raramente se sente na companhia deles. O indomável, o vivo, o gentil. Você não os conhece? Quem? Eles transportam O tempo circular como um sábio-rio ao redor de suas casas…