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Doug Dorph – Planeta esquecido

Peço à minha filha que diga os nomes dos planetas.“Vênus… Marte… e Plunis!”, ela responde.Quando eu tinha seis ou sete anos, meu paime acordou no meio da noite.Descemos até o playground e deitamosde costas no concreto, olhando para cimaà espera das estrelas cadentes que a TV prometera. Não me lembro de nenhuma estrela cadente. Lembrode…
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Juan Vicente Piqueras – Lázaro se recusa a ressuscitar

Um dia ouvi vozes que vinham de fora.Finalmente!, vozes de fora, pensei – vozes de outrosque levam a luz dentro de si e a revelam,que vem até mim do ar, e não de mim. Vozes que ao se aproximarem, viraram sussurros.Passos que pararam diante da minha porta.Alguém disse: Aqui jaz, como se lesse.Os demais ficaram…
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Joan Margarit – Último trem

Último tremCrematório de Collserola Se visses a chuva que envernizao verde escuro e espesso do jardim.Teu vagão solitário está chegandoà sala espaçosa, sem adornos,mobiliário, ou luminárias,da Estación de Francia da morte.Só se escuta o murmúrio do motorque arrasta o pesoda infância e da juventude– de teu anônimo tempo, já perdido,que nunca mais será reclamado –,rumo…
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Paulo Henriques Britto – de “Vers de circonstance”

I. Imunidade de Rebanho A estupidez é sua própria recompensa. Graças a ela, o mundo faz sentido, um só, que é fácil de identificar. E só o fácil satisfaz a quem não pensa. Pensar é coisa trabalhosa. A ignorância é o sumo bem dos cidadãos de bem, é a verdadeira marca dos eleitos. Ter sucesso…
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Wendell Berry – De “Sabbaths” (2001)

[…] III Peça ao mundo que revele sua quietude —não o silêncio das máquinas quando cessam,mas a verdadeira quietude onde os cantos das aves,as árvores, os sinos-das-sombras, os caracóis, as nuvens, as tempestadesse tornam o que são – e nada além disso. […] V O vento do outono chegou.Está por toda parte. Movecada folha de…
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Eamon Grennan – Uma manhã

Procurando pedras raras, dei com a lontra mortaapodrecendo na linha da maré, e carreguei pelo resto do dia o odor desta brutaldespedida. Aquele som lancinante e agudo do ostraceiroecoava pela enseada rochosaonde um cormorão se alimentava e submergia na baíae de onde uma garça-real alçou voo de um rochedo onde estivera invisível,pairou um tempo, e…
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David Mourão-Ferreira – Soneto do cativo

Se é sem dúvida Amor esta explosão De tantas sensações contraditórias; A sórdida mistura das memórias, Tão longe da verdade e da invenção; O espelho deformante; a profusão De frases insensatas, incensórias; A cúmplice partilha nas histórias Do que os outros dirão ou não dirão; Se é sem dúvida Amor a cobardia De buscar nos…
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William Butler Yeats – Leda e o cisne

Súbito, um baque: as grandes asas brancas Pousam sobre a jovem, e a agarram com jeito, As patas negras lhe afagam as ancas E a estreitam, impotente, contra o peito. Com dedos trêmulos, como afastar Das coxas fracas o esplendor plumado? E como não sentir a palpitar O estranho coração, desabalado? Um espasmo ― e…
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Ted Kooser – Depois de anos

Hoje, de longe, eu a vi se afastando, e, sem nenhum som, a fronte brilhante de um glaciar deslizou para o mar. Um antigo carvalho tombou na Cumberlands, mantendo apenas um punhado de folhas, e uma idosa espalhando milho para suas galinhas olhou para cima por um instante. No outro lado da galáxia, uma estrela…
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Dorianne Laux – Interstício

Nós montamos o quebra-cabeça peça por peça, apreciando como um entalhe curvo se insere tão suavemente no outro. Uma mancha amarela se transforma na palha de uma vassoura, e duas peças azuis completam o último pedaço do céu. Juntos, remendamos as cadeiras de balanço e as árvores do outono, combinando ouro com ouro. Temos nas…