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Juan Vicente Piqueras – A praga de Tebas

A praga de Tebas E o que quer que eu faça se torna para sempre o que eu fiz.Wisława Szymborska Quando a tragédia começouo crime já havia sido cometido.A tragédia era, agora, descobrir o delitoe o culpado. Eu teria preferido a ignorância.Tu optaste por indagar contra ti. O passado é mais forteque Deus. Ninguém, nem…
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Joseph Stroud – Nós

Tentando amarrar meus sapatos, desajeitado, incapaz de descobrira lógica disso, atrapalhado, enquanto meu pai fica ali,sua raiva crescendo por um filho que não consegue fazer nemessa coisa mais simples pela primeira vez, não consegue nem mesmo dar o nó para manter seus sapatos nos pés — Você acha que alguémvai amarrar seus sapatos para você…
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Jeannine Hall Gailey – Eu não paro

Eu não paro De ser alguém que busca o lado escuro.Que procura as estatísticas criminais da Disneylândia.Que procura por monstros sob a cama.Além disso, não paro de tirar fotos de floresembora tenhamos nove meses de chuva.Não paro de me perguntar se os colibris daquiestão condenados, se os gansos-das-neves serão envenenadosem um abandonado lago de mina…
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David Budhill – O lenhador muda de ideia

Quando eu era jovem, cortei as árvores maiores e mais velhas para lenha, aquelaspodres em seu cerne, de galhos mortos e partidos, as mutiladas e deformadas porque, raciocinei, elas tombariam logo de qualquer forma, epor isso, eu deveria dar às mais jovens mais luz e espaço para vicejarem. Agora que estou velho derrubo as árvores…
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Ricardo Silvestrin – Sacos

Estamos repletos de inutilidades,suas, minhas,inutilidades de família,de valor inestimável. Quinquilharias, ninharias,boiando no pó, atiradas em caixas,envelopes rasgados, gavetas. Ninguém se arrisca a botar foraesses tesouros de um reino perdidoentre os guardados. Em quantos sacos de lixo,sacos grandes de cem litros,vai caber todo o passado? Adquira outras obras de Ricardo Silvestrin clicando aqui
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Lisel Mueller – Desenhos de criança

1 O sol pode estar visível ou não(pode estar atrás de você,o expectador dessas imagens)mas o céu é sempre azulse é dia. Se não,as estrelas estão quase ao seu alcance;inclinadas, elas chegam até você,na iminência de cair.Nunca é nascer ou pôr do sol;não há nenhum olho ensanguentadoespiando você no horizonte.É claramente dia ou noite,é brilhante…
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Carlos Drummond de Andrade – Relógio do Rosário

Era tão claro o dia, mas a treva, do som baixando, em seu baixar me leva pelo âmago de tudo, e no mais fundo decifro o choro pânico do mundo, que se entrelaça no meu próprio choro, e compomos os dois um vasto coro. Oh dor individual, afrodisíaco sêlo gravado em plano dionisíaco, a desdobrar-se,…
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Joyce Carol Oates – Este não é um poema

Este não é um poema em que o poeta descobredelicados ossos branco-ressequidosde uma pequena criaturaem uma margem do Grande Lagoou os restos desidratadosdos mais grotescos atropelamentosao lado da apressada rodovia. Nem é um poema em queum espelho partido concebeuma face assustada,ou gramas secas sibi-lando como consoantesem uma língua estrangeira.Álbum de fotos de famíliarepleto de saudososestranhos…
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Miguel D’Ors – Variações sobre um tema de Stevens

Não é o canto do melro:é o silêncioque nos deixa, um silêncioque é algo diferente do silêncioporque nele ainda soaa memória do cantodo melro. Nem silêncio,nem canto: o que ocorrequando o cantoterminae ainda não começou o silêncio.Podes chamar-lhe de alma. Trad.: Nelson Santander Variaciones sobre un tema de Stevens No es el canto del mirlo:es…
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Seamus Heaney – [Como todo mundo]
![Seamus Heaney – [Como todo mundo]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2021/05/0011e5d6-1600.jpg)
Como todo mundo, inclinei minha cabeçadurante a consagração do pão e do vinho,elevei meus olhos para a hóstia e para o cálice levantados,acreditei (seja lá o que isso signifique) que uma mudança ocorrera. Fui ao genuflexório e recebi o mistérioem minha língua, voltei para o meu lugar, fechei meus olhos depressa,fiz um ato de ação…