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Juan Vicente Piqueras – Sai de ti

Sai de Ti(ou coleção de imperativos primavera-verão para o outono de teu desconcerto) Não fujas do que sentes. Não te escondasno que dizes. Não digas mentiras.Sê tua voz. Faz. Trabalha. Não te queixes.Não sofras por medo de sofrer mais.Não mendigues jamais o que mereces.Por exemplo, o amor. Fá-lo e o terás.Funda no fogo firme de…
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Friedrich Hölderlin – Outrora e Agora

De manhã era feliz, quando jovem,E à noite chorava; já hoje, mais velho,Começo meu dia em dúvida, porémSeu fim é para mim sagrado e sereno. Trad.: Antonio Cicero Ehmals und jetzt In jüngern Tagen war ich des Morgens froh,Des Abends weint’ich; jetzt, da ich älter bin,Beginn ich zweifelnd meinen Tag, dochHeilig und heiter ist mir…
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Ana Luísa Amaral – Silogismos

A minha filha perguntou-meo que era para a vida inteirae eu disse-lhe que era para sempre.Naturalmente, menti,mas também os conceitos de infinitosão diferentes: é que ela perguntou depoiso que era para sempre e eu não podia falar-lhe em universosparalelos, em conjunções e disjunçõesde espaço e tempo,nem sequer em morte. A vida inteira é até morrer,mas…
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Linda Pastan – Considere o espaço entre as estrelas

Considere o espaço brancoentre as palavras em uma página, não sóas margens ao redor delas.Ou o espaço entre pensamentos:instantes em que a mente está inventandoexatamente o que pensae a boca esperapara ser preenchida com linguagem.Considere o espaçoentre os amantes após uma discussão,o lençol branco uma fria metáforaentre eles.Agora imagine o breve espaçoantes que a morte…
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Jorge Luis Borges – Limites

Há uma linha de Verlaine que não voltarei a recordar,Há uma rua próxima que está vedada a meus passos,Há um espelho que me viu pela última vez,Há uma porta que fechei até o fim do mundo.Entre os livros de minha biblioteca (estou vendo-os)Há algum que já nunca abrirei.Este verão cumprirei cinqüenta anos:A morte me desgasta,…
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Friedrich Hölderlin – A Brevidade

“Por que és tão breve? Não amas mais, como outrora,O canto? Quando jovem, não chegavas,Nos dias de esperança,Nunca ao fim, quando cantavas!” Tal qual minha sorte é meu canto. – Queres ao arrebolBanhar-te alegremente? Foi-se! E a terra está friaE o pássaro da noite esvoaçaincomodamente aos olhos teus. Trad. Antonio Cícero REPUBLICAÇÃO. Poema publicado originalmente…
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Nicholas Christopher – Terminus

Terminus Eis uma leitura obrigatóriano final do nosso séculoo final de um milênio que começou com as cruzadas A transcrição de uma entrevistaentre um médico da Cruz Vermelhae uma menina muçulmana de doze anosna Bósniaque descreveu os estupros que sofreu nas mãos de homensque se autodenominavam soldadosdiferentes homens todas as noites um após o outroseis…
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Wislawa Szymborska – O primeiro amor

Dizemque o primeiro amor é o mais importante.Isso é muito romântico,mas não é o meu caso.Algo entre nós houve e não houve,se deu e se perdeu.Não me tremem as mãosquando encontro as pequenas lembrançase o maço de cartas atadas com barbantese ao menos fosse uma fita.Nosso único encontro depois de anosfoi um diálogo de duas…
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Stanley Kunitz – O retrato

Minha mãe nunca perdoou meu paipor ter-se suicidado,especialmente em um momento tão estranhoe em um parque público,naquela primaveraquando eu estava esperando para nascer.Ela encarcerou o nome deleem seu armário mais profundoe não o deixou mais sair,embora eu pudesse ouvi-lo batendo.Quando desci do sótão, trazendona mão o retrato em tons pastéisde um estranho de lábios compridos,bigode…
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Ian Hamilton – Epitáfio

O aroma de rosas velhas e tabacoFaz-me regressar.Há quase vinte anosQue não nos vemosE a nossa desapegada paixão continua. Foi isto que me deixaste:A mão, entreaberta, imóvelSobre uma colcha verde.O bastante para erguerAlguns poemas melancólicos. Se então eu te houvesse tocadoUm de nós podia ter sobrevivido. Trad. Nuno Vidal REPUBLICAÇÃO. Poema originalmente publicado no blog…