Faith Shearin – Cinzas, cinzas

O inverno é a morte pela qual todos temos esperado.
Mesmo nas Festas, em que o ano novo é louvado,
os galhos se quebram sob o peso da neve.
Conhecemos esta estação como reconheceremos o fim
de nossas vidas quando a vida estiver na metade.
Os anos seguem o caminho dos dentes da infância: premidos tão
esperançosamente sob travesseiros limpos. Pele morta.
As unhas que crescem sem pulsação.
Uma terra que engole bebês
devolve um erupção de margaridas de olhos brancos.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: pelo contexto do poema, o seu título pode ser a) a derivação de um dos grandes temas bíblicos (“Ashes to ashes, dust to dust” – em tradução livre, “Do pó viemos, ao pó retornaremos”), b) uma alusão ao título de uma canção de David Bowie (“Ashes to Ashes”) ou talvez c) remeta à uma interpretação corrente da antiga cantiga de roda – muito famosa no Reino Unido – chamada “Ring Around the Rosie” e seus famosos versos: Ring around the rosie / pocket full of posies / ashes, ashes / we all fall down! Segundo essa interpretação, a cantiga referir-se-ia na verdade, à peste bubônica que atingiu Londres no Século XVII. Assim, o título “Ring Around the Rosie” seria uma menção à erupção cutânea em torno da ferida de uma pessoa contaminada pela peste; “pocket full of posies“, as pétalas de flores que os médicos derramavam sobre seus pacientes mortos para afastar o cheiro da doença e da decomposição; ashes, ashes, o que sobrou dos defuntos após a cremação necessária para diminuir a transmissão da doença; e we all fall down! a constatação de que todos mais cedo ou mais tarde cairemos. Em um sentido mais amplo, “Ashes to ashes” é frequentemente utilizado para se referir à transitoriedade da vida e de tudo que nos cerca e à futilidade das realizações humanas.

Ashes, Ashes

Winter is the death we have all been waiting for.
Even at parties where the new year is praised
branches are breaking beneath the weight of snow.
We know this season like we will know the end
of our lives when the living is halfway through.
Years go the way of childhood teeth: pressed so
hopefully beneath clean pillows. Dead skin.
The fingernails that grow without a pulse.
An earth that swallows babies
gives back a rash of white-eyed daisies.

Abel Silva – Navegações

Minha casa está calma,
eu é que sou turbulento,
o país navega, dizem,
eu é que me arrebento
eu é que sempre invento
toda esta ventania
eu é que não me contento
com o rumo da romaria

não sei se a sorte é cega
ou eu que vivo a teimar:
sei que eu sou o barco
o marinheiro
e o mar.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 07/05/2017

Juan Vicente Piqueras – O barbeiro

Nos últimos meses, olhava-se no espelho
e via um intruso. Irritava-se com ele.

Já estás aqui outra vez? Será possível?
Sai daqui agora mesmo.
Para a rua, vagabundo,
dizia-lhe.

Era-lhe doloroso, era-nos doloroso,
toda vez que ele tinha que ir ao banheiro.
Tínhamos que conduzi-lo pelo braço, convence-lo
do porquê.

Ele se tornou o dono desse lugar, dizia,
quem lhe deu as chaves?

Pouco a pouco o do espelho tornou-se mais um em casa.
Chamava-lhe o barbeiro.

Em vão, diziam-lhe que aquele homem era ele.
Eu nunca tentei porque sabia
que aquele homem era outra pessoa,
que em seu delírio ele tinha razão.

Pouco a pouco fomo-nos resignando
à invasão do barbeiro.

Uma noite, ao sair do banheiro, deixou a luz acesa.
Quando minha mãe lhe disse: Deixaste a luz acesa, ele respondeu:
Deixa-o, ele está lá dentro, o que podemos fazer?

Meu pai compreendeu que o barbeiro, o intruso,
tinha vindo busca-lo.

Agora o está barbeando naquela barbearia
que há sempre do outro lado do espelho.

E de lá me olham, sorriem para mim,
me esperam.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: este poema pode ser lido em conjunto com Nomes apagados, o primeiro de Juan Vicente Piqueras que traduzi para o blog.

El Barbero

En los últimos meses se miraba al espejo
y veía a un intruso. Se enfadaba con él.

¿Ya estás aquí otra vez? ¿Será posible?
Largo de aquí ahora mismo.
A la calle, granuja,
 le decía.

Le costaba un disgusto, nos costaba,
cada vez que tenía que entrar en el cuarto de aseo.
Había que sacarlo del brazo, convencerlo,
de qué.

Se ha hecho el amo, decía,
¿quíen le habrá dao las llaves?

Poco a poco el del espejo fue uno más en la casa.
Le llamava el barbero.

En vano le decían que ese hombre era él.
Yo nunca lo intenté porque sabía
que ese hombre era otro,
que en su delirio tenía razón.

Poco a poco nos fuimos resignando
a la invasión del barbero.

Una noche al salir del aseo dejó la luz encendida.
Cuando mi madre le dijo: Que te dejas la luz, él replicó:
Déjalo, está él ahí dentro, qué le vamos a hacer.

Mi padre comprendió que el barbero, el intruso,
había venido a llevárselo.

Ahora lo está afeitando en esa barbería
que hay siempre al otro lado del espejo.

Y desde alli me miran, me sonríen,
me esperam.

Philip Larkin – A Igreja Indo-se…

Quando estou certo de que nada está ocorrendo,
Eu entro, e se ouve um baque quando eu solto a porta.
Mais uma igreja: bancos, panos, pedra, além dos
Livrinhos; as juncadas secas, que se cortam
Para o domingo; bronze e objetos a cobrir o
Altar; um órgão impecável e pequeno;
Silêncio tenso, de bolor, que salta à vista,
Há muito fermentado. Sem chapéu, retiro —
Genuflexão canhestra — os grampos de ciclista,

Ando e na pia de água benta esfrego a mão.
Vendo daqui, parece quase novo, o teto —
Foi limpo, restaurado? Um outro sabe: eu não.
Depois que subo até o atril, decifro certo
Versículo imperioso, numa letra grande,
E digo, sem querer, o “Aqui Termina” em tom
De voz mui to alto. O eco casquina um pouco. À entrada,
De novo, assino o livro, doo seis pence da Irlanda,
Concluo que não valia a pena essa parada.

Mas eu parei; e paro lá de vez em quando,
Depois, acabo por pegar-me assim, confuso,
Me perguntando o que buscar; me perguntando:
Quando igrejas caírem em total desuso,
Que vamos fazer delas? Pôr as catedrais
Perpetuamente abertas à visita, expondo
Pergaminho, pátena e píxide em vitrina,
Com o resto grátis para a chuva e os animais?
Vamos temê-las, como sítios de má sina?

À noite, umas mulheres de moral suspeita
Virão fazer os filhos pôr a mão em dada
Pedra, colher ervas prum câncer, ou, à espreita,
Já prevenidas, ver passar a alma penada?
Uma força qualquer continuará em vigor
Em jogos e em enigmas, como que fortuita;
Mas a superstição — e a crença — vão ter fim,
E o que restará quando a descrença se for?
Céu, sarça, erva, pilastras, lajes com capim,

Uma forma a cada semana menos clara,
Um fim mais obscuro. Fico me indagando
Quem será o último, o último, de fato, a andar a
Este local pelo que ele era; alguém do bando
Que fuce e tome nota e saiba o que era o jube?
O ébrio de ruínas, seco por antiqualha,
Ou o viciado em natais, um dependente
De baforadas de alva e estola, mirra e tubos
De órgão? Ou mesmo um tipo que me represente

Com tédio, inculto, vendo o lodo espiritual
Disperso, mas cruzando o arrabalde e o mato
Rumo a esta cruz de terra, que, de modo igual
E tanto tempo, soube conservar intato
O que, depois, só se separa — origem, morte
E matrimônio, idéias tais — em honra ao qual
Se ergueu tal concha? Pois, se ignoro por completo
Pra quê o celeiro ornado e com bolor, conforta e
Apraz deixar-me estar aqui, a sós e quieto;

É uma casa séria em terra séria, e ali, no
Seu ar mesclado, as nossas compulsões se cruzam,
Se reconhecem e disfarçam de destino.
E tudo isso não pode cair em desuso,
Visto que sempre vai haver alguém que um dia
Se pegue ansiando ser mais sério, e assim termine
Por gravitar para essa terra, que, conforme
Ensinam, contribui para a sabedoria,
Só pelo número de mortos que ali dormem.

Trad. Alípio Correia de Franca Neto

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 06/04/2017

Church Going

Once I am sure there’s nothing going on
I step inside, letting the door thud shut.
Another church: matting, seats, and stone,
And little books; sprawl ings of flowers, cut
For Sunday, brownish now; some brass and stuff
Up at the holy end; the small neat organ;
And a tense, musty, unignorable silence,
Brewed God knows how long. Hatless, I take off
My cycle-cl ips in awkward reverence,

Move forward, run my hand around the font.
From where I stand, the roof looks almost new —
Cleaned, or restored? Someone would know: I don’ t.
Mounting the lec ter, I peruse a few
Hec toring large-scale verses, and pronounce
‘Here endeth’ much more loudly than I’d meant.
The echoes snigger briefly. Back at the door
I sign the book, donate an Irish sixpence,
Reflect the place was not worth stopping for.

Yet stop I did: in fact I of ten do,
And always end much at a loss l ike this,
Wondering what to look for; wondering, too,
When churches fall completely out of use
What we shall turn them into, if we shall keep
A few cathedrals chronically on show,
Their parchment, plate and pyx in locked cases,
And let the rest rent-f ree to rain and sheep.
Shall we avoid them as unlucky places?

Or, after dark, will dubious women come
To make their children touch a particular stone;
Pick simples for a cancer; or on some
Advised night see walking a dead one?
Power of some sort or other will go on
In games, in riddles, seemingly at random;
But superstition, l ike bel ief , must die,
And what remains when disbel ief has gone?
Grass, weedy pavement, brambles, buttress, sky,

A shape less recognisable each week,
A purpose more obscure. I wonder who
Will be the last, the very last, to seek
This place for what it was; one of the crew
That tap and jot and know what rood-lof ts were?
Some ruin-bibber, randy for antique,
Or Christmas-addict, counting on a whiff
Of gown-and-bands and organ-pipes and myrrh?
Or will he be my representative,

Bored, uninformed, knowing the ghostly sil t
Dispersed, yet tending to this c ross of ground
Through suburb scrub because it held unspil t
So long and equaly what since is found
Only in separation — marriage, and birth,
And death, and thoughts of these – for which was buil t
This spec ial shell? For, though I’ve no idea
What this accoutred f rowsty barn is worth,
It pleases me to stand in silence here;

A serious house on serious earth it is,
In whose blent air all our compulsions meet,
Are recognised, and robed as destinies.
And that much never can be obsolete,
Since someone will forever be surprising
A hunger in himself to be more serious,
And gravitating with it to this ground,
Which, he once heard, was proper to grow wise in,
If only that so many dead lie round.

Suzanne Buffam – Basta

Estou usando óculos escuros dentro de casa
Para combinar com meu baixo astral.

Eu deixei todo o açúcar de fora da torta.
Minha raiva é uma espécie de raiva doméstica.

Aprendi com minha mãe
Que aprendeu com a mãe dela antes dela

E assim por diante.
Certamente os gregos tinham uma palavra para isso.

E hoje com certeza os alemães a têm.
Quanto mais palavras uma pessoa conhece

Para descrever suas dores privadas
Mais vagamente ela consegue compreende-las.

Repito os nomes de todas as cidades que conheci
E observo uma formiga arrastar sua sombra distorcida para casa.

O que significa amar a vida que nos foi dada?
Representar bem o papel para o qual fomos escalados?

Vento. Luz. Fogo. Tempo.
Um trem apita através das colinas distantes.

Um dia eu pretendo galgá-lo.

Trad.: Nelson Santander

Enough

I am wearing dark glasses inside the house
To match my dark mood.

I have left all the sugar out of the pie.
My rage is a kind of domestic rage.

I learned it from my mother
Who learned it from her mother before her

And so on.
Surely the Greeks had a word for this.

Now surely the Germans do.
The more words a person knows

To describe her private sufferings
The more distantly she can perceive them.

I repeat the names of all the cities I’ve known
And watch an ant drag its crooked shadow home.

What does it mean to love the life we’ve been given?
To act well the part that’s been cast for us?

Wind. Light. Fire. Time.
A train whistles through the far hills.

One day I plan to be riding it.

T. S. Eliot – Os Homens Ocos

     “A penny for the Old Guy”
     (Um pêni para o Velho Guy)

I
Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Forma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam – se o fazem – não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

– Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.

IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.

V

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a ideia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.

Trad.: Ivan Junqueira

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 04/04/2017

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The hollow men

Mistah Kurtz-he dead
            A penny for the Old Guy

                        I

    We are the hollow men
    We are the stuffed men
    Leaning together
    Headpiece filled with straw. Alas!
    Our dried voices, when
    We whisper together
    Are quiet and meaningless
    As wind in dry grass
    Or rats’ feet over broken glass
    In our dry cellar

    Shape without form, shade without colour,
    Paralysed force, gesture without motion;

    Those who have crossed
    With direct eyes, to death’s other Kingdom
    Remember us-if at all-not as lost
    Violent souls, but only
    As the hollow men
    The stuffed men.

                              II

    Eyes I dare not meet in dreams
    In death’s dream kingdom
    These do not appear:
    There, the eyes are
    Sunlight on a broken column
    There, is a tree swinging
    And voices are
    In the wind’s singing
    More distant and more solemn
    Than a fading star.

    Let me be no nearer
    In death’s dream kingdom
    Let me also wear
    Such deliberate disguises
    Rat’s coat, crowskin, crossed staves
    In a field
    Behaving as the wind behaves
    No nearer-

    Not that final meeting
    In the twilight kingdom

                    III

    This is the dead land
    This is cactus land
    Here the stone images
    Are raised, here they receive
    The supplication of a dead man’s hand
    Under the twinkle of a fading star.

    Is it like this
    In death’s other kingdom
    Waking alone
    At the hour when we are
    Trembling with tenderness
    Lips that would kiss
    Form prayers to broken stone.

                      IV

    The eyes are not here
    There are no eyes here
    In this valley of dying stars
    In this hollow valley
    This broken jaw of our lost kingdoms

    In this last of meeting places
    We grope together
    And avoid speech
    Gathered on this beach of the tumid river

    Sightless, unless
    The eyes reappear
    As the perpetual star
    Multifoliate rose
    Of death’s twilight kingdom
    The hope only
    Of empty men.

                            V

 Here we go round the prickly pear
    Prickly pear prickly pear
    Here we go round the prickly pear
    At five o’clock in the morning.


    Between the idea
    And the reality
    Between the motion
    And the act
    Falls the Shadow
 For Thine is the Kingdom

    Between the conception
    And the creation
    Between the emotion
    And the response
    Falls the Shadow
 Life is very long

    Between the desire
    And the spasm
    Between the potency
    And the existence
    Between the essence
    And the descent
    Falls the Shadow
 For Thine is the Kingdom

    For Thine is
    Life is
    For Thine is the

 This is the way the world ends
    This is the way the world ends
    This is the way the world ends
    Not with a bang but a whimper.

Gregory Fraser – Depois do fogo

Ouvi dizer que você está indo para a Itália, ele disse1. Você ouviu corretamente, ela respondeu.
Você finalmente conseguiu, disse ele, estou feliz por você. Estou feliz por mim mesma, ela falou.
Uma sonata de Scarlatti jorrou através das amplas portas francesas
e um brinde foi feito aos anfitriões, que disseram ter sido
inspirados pelos espíritos para dar aquele pequeno sarau.

Algumas vezes, ele disse, eu me sinto assim, não sei — abatido — quando penso em nós,
como uma luva, ele disse, em uma mão sem dedos. Engraçado, ela disse,
às vezes eu me sinto como a mão. O vento passou como uma lembrança
através de um bosque de pinheiros, e então, como se um grande guarda-chuva
tivesse sido aberto, fez-se noite. Ele olhou distraidamente para além da varanda

e pensou nos dias que se seguiram à partida dela, longos,
uniformes e vazios, como uma paisagem desértica. Você sente minha falta? perguntou.
Você sente a minha falta? ela respondeu. Sinto falta de quem eu era com você, ele disse.
O rosto dele era uma carta rasgada em pedaços e remendada com fita adesiva. Ela tremeu
como o filamento dentro de uma lâmpada. Você se lembra, ela falou,

quando me disse que a poesia é para aqueles que caminham durante o sono?
Você se lembra, ele disse, de quando chamou um autorretrato de uma tela
em que você se pinta de fora? Ela deixou escapar uma risada e
em seguida se calou. Estava ficando tarde. Logo os convidados encontrariam
seus casacos e partiriam. Esta vida é apenas o som de um sino, ele disse.

E a morte, o seu eterno eco, respondeu ela, concluindo o pensamento como se tivessem ensaiado.
Eles ficaram quietos então pelo que pareceu ser um longo tempo. Veneza?
ele perguntou, por fim. Florença? Roma? Nenhuma dessas, ela respondeu. Estou indo
para um pequeno burgo nas colinas da Úmbria chamado Postignano. Ele semicerrou os olhos
por um instante. Depois do fogo2, ele disse. Assim dizia o folder, ela falou.

Trad.: Nelson Santander

NOTAS

1. Um dos recursos poéticos mais evidentes desse poema é o uso intensivo da anáfora mediante a repetição das expressões “he said” (9 vezes) e “she said” (8 vezes). Vejo nisso ecos da canção She Said She Said, que faz parte do “Álbum Branco”, dos Beatles. Isso porque, além do uso reiterativo da expressão she said, o tema do poema se assemelha bastante ao da canção. Na língua original, o uso desse recurso não soa desarmonioso ou redundante, e parece uma boa opção o uso de uma técnica que, pela recorrência ad nauseam que revela o quão diferentemente pensam as personagens do poema, ajuda a expressar a ideia de irreconciliabilidade contida no texto. Julguei que, em língua portuguesa, o uso reiterado da expressão resultaria em algo maçante, parecido com má literatura. Assim, na busca de um efeito estético que resultasse em versos mais elegantes e menos cansativos, optei por diversificar as expressões, usando com parcimônia o “ele disse” e o “ela disse” e substituindo-os algures por outras expressões correlatas no curso do texto (“ela respondeu”, “ele falou”, “perguntou”, etc.). Espero que, apesar disso, o resultado da tradução não resulte na perda da ideia central da incompatibilidade encoberta do casal do poema.

2. Esta frase parece se referir à passagem bíblica do Livro dos Reis que narra as desventuras de Elias, o profeta, que, ameaçado de morte pela princesa Jezabel, esposa de Acabe, Rei de Israel, foge daquele reino para uma caverna em Horebe, onde recebe a visita de Deus, que fala com ele: “E eis que passava o Senhor, com também um grande e forte vento que fendia os montes e quebravas as penhas diante da face do Senhor; porém, o Senhor não estava no vento; e depois do vento, um terremoto; também o Senhor não estava no terremoto; E depois do terremoto, um fogo; porém também o Senhor não estava no fogo; e depois do fogo, uma voz mansa e delicada.” (Reis, 1:19:11 e 12). A passagem é mais uma daquelas mensagens que abundam na bíblia de que, mesmo diante das adversidades, é preciso prosseguir, pois depois da devastação sempre há algo de bom. No poema, a expressão ‘After the fire’ (‘Depois do fogo’) é proclamada pela personagem masculina do poema, de forma aparentemente surpresa, mas resignada, em resposta à informação de que sua ex-amada se mudaria de país. E não para um grande centro, mas para um pequeno lugarejo na Itália – como se estivesse fugindo, como Elias. Percebemos que a mulher já conhece a expressão porque a frase é grafada em itálico, o que indica que o homem está dizendo uma expressão familiar a ambos. Acima de tudo, “After the fire” parece ser uma metáfora para a fase pós-destruição de um relacionamento.

After the Fire

I heard you were going to Italy, he said. You heard correct, she said.
You finally did it, he said, I’m happy for you. I’m happy for myself, she said.
One of Scarlatti’s sonatas poured through the wide French doors
and a toast went up to the hosts, who announced they had been
summoned by the spirits to throw the “little soirée.”

Sometimes, he said, I feel so, I don’t know—droopy—when I think of us,
like a glove, he said, on a hand without fingers. Funny, she said,
I sometimes feel like the hand. Wind moved like memory
through a stand of pines, and then, as though a great umbrella
sprang open, it was night. He looked absently off the veranda

and thought of days that followed her exit, stretched on end,
uniform and blank, like pavement slabs. Do you miss me? he said.
Do you miss me? she said. I miss the self I was with you, he said.
His face was a letter torn to pieces and taped together. She trembled
like the wire inside a light bulb. Do you remember, she said,

when you told me poetry is for those who walk in their sleep?
Do you remember, he said, when you called a self-portrait a canvas
you paint yourself out of? She let slip a trickle of laughter
then shut the tap. It was getting late. Soon the guests would find
and vanish into their coats. This life is just the clang of a bell, he said.

And death its eternal echo, she said, finishing the thought as if they’d rehearsed.
They kept quiet then for what seemed like a very long while. Venice?
he asked, at last. Florence? Rome? None of these, she said. I’m off
to a tiny borgo in the Umbrian hills called Postignano. He squinted
for a moment. After the fire, he said. So the brochure said, she said.

Carlos Drummond de Andrade – A Luis Mauricio, Infante

Acorda, Luís Mauricio. Vou te mostrar o mundo,
se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo.

Despertando, Luís Mauricio, não chores mais que um tiquinho.
Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho?

Que seria de ti, Luís Mauricio, pranteando mais que o necessário?
Os olhos se inflamam depressa, e do mundo o espetáculo é vário

e pede ser visto e amado. É tão pouco, cinco sentidos.
Pois que sejam lépidos, Luís Mauricio, que sejam novos e comovidos.

E como há tempo para viver, Luís Mauricio, podes gastá-lo à janela
que dá para a Justicia del Trabajo, onde a imaginosa linha da hera

tenazmente compõe seu desenho, recobrindo o que é feio, formal e triste.
Sucede que chegou a primavera, menino, e o muro já não existe.

Admito que amo nos vegetais a carga de silêncio, Luís Mauricio.
Mas há que tentar o diálogo quando a solidão é vício.

E agora, começa a crescer. Em poucas semanas um homem
Se manifesta na boca, nos rins, na medalhinha do nome.

Já te vejo na proporção da cidade, dessa caminha em que dormes.
Dir-se-ia que só o anão de Harrods, hoje velho, entre garotos enormes,

conserva o disfarce da infância, como, na sua imobilidade,
à esquina de Córdoba e Florida, só aquele velho pendido e sentado,

de luvas e sobretudo, vê passar (é cego) o tempo que não enxergamos,
o tempo irreversível, o tempo estático, espaço vazio entre ramos.

O tempo – que fazer dele? Como adivinhar, Luís Mauricio,
o que cada hora traz em si de plenitude e sacrifício?

Hás de aprender o tempo, Luís Mauricio. E há de ser tua ciência
uma tão íntima conexão de ti mesmo e tua existência,

que ninguém suspeitará nada. E teu primeiro segredo
seja antes de alegria subterrânea que de soturno medo.

Aprenderás muitas leis, Luís Mauricio. Mas se as esqueceres depressa,
Outras mais altas descobrirás, e é então que a vida começa,

e recomeça, e a todo instante é outra: tudo é distinto de tudo,
e anda o silêncio, e fala o nevoento horizonte; e sabe guiar-nos o mundo.

Pois a linguagem planta suas árvores no homem e quer vê-las cobertas
de folhas, de signos, de obscuros sentimentos, e avenidas desertas

são apenas as que vemos sem ver, há pelo menos formigas
atarefadas, e pedras felizes ao sol, e projetos e cantigas

que alguém um dia cantará, Luís Mauricio. Procura deslindar o canto.
Ou antes, não procures. Ele se oferecerá sob forma de pranto

ou de riso. E te acompanhará, Luís Mauricio. E as palavras serão servas
de estranha majestade. É tudo estranho. Medita por, exemplo, as ervas,

enquanto és pequeno e teu instinto, solerte, festivamente se aventura
até o âmago das coisas. A que veio, que pode, quanto dura

essa discreta forma verde, entre formas? E imagina ser pensado,
pela erva que pensas. Imagina um elo, uma afeição surda, um passado

articulando os bichos e suas visões, o mundo e seus problemas;
imagina o rei com suas angústias, o pobre com seus diademas,

imagina uma ordem nova; ainda que uma nova desordem, não será bela?
Imagina tudo: o povo,com sua música; o passarinho, com sua donzela;

o namorado com seu espelho mágico; a namorada, com seu mistério;
a casa, com seu calor próprio; a despedida, com seu rosto sério;

o físico, o viajante, o afiador de facas, o italiano das sortes e seu realejo;
o poeta sempre meio complicado; o perfume nativo das coisas e seu arpejo;

o menino que é teu irmão, e sua estouvada ciência
de olhos líquidos e azuis, feita de maliciosa inocência,

que ora viaja enigmas extraordinários; por tua vez, a pesquisa
há de solicitar-te um dia, mensagem perturbadora na brisa.

É preciso criar de novo, Luís Mauricio. Reinventar nagôs e latinos,
E as mais severas inscrições, e quantos ensinamentos e os modelos mais finos,

de tal maneira a vida nos excede e temos de enfrentá-la com poderosos recursos.
Mas seja humilde tua valentia. Repara que há veludo nos ursos.

Inconformados e prisioneiros, em Palermo, eles procuram o outro lado,
E na sua faminta inquietação, algo se liberta da jaula e seu quadrado.

Detém-te. A grande flor do hipopótamo brota da água – nenúfar!
E dos dejetos do rinoceronte se alimentam os pássaros. E o açúcar

que dás na palma da mão à língua terna do cão adoça todos os animais.
Repara que autênticos, que fiéis a um estatuto sereno, e como são naturais.

É meio-dia, Luís Maurício, hora belíssima entre todas,
pois, unindo e separando os crepúsculos, à sua luz se consumam as bodas

do vivo com o que já viveu ou vai viver, e a seu puríssimo raio
entre repuxos, os chicos e as palomas confraternizam na Plaza de Mayo.

Aqui me despeço e tenho por plenamente ensinado o teu ofício,
que de ti mesmo e em púrpura o aprendeste ao nascer, meu netinho Luís Mauricio.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 28/03/2017

Ada Limón – O que eu não sabia antes

era como os cavalos simplesmente davam à luz outros
cavalos. Não um bebê de qualquer jeito, não
uma criatura de espaços limiares, mas um animal
de quatro patas decidido a andar, correndo atrás
da mãe. Um cavalo dá lugar a outro
cavalo e, de repente, há dois cavalos,
simples assim. Foi como eu te amei. Você,
descendo do longo trem na Red Bank carregando
um café do tamanho do seu braço, uma bolsa com dois
computadores balançando desajeitadamente ao seu
lado. Lembro-me de termos caído na risada
quando nos vimos. O que houve entre
nós não foi uma coisa frágil para ser mimada, murmurada.
Já veio totalmente formada, pronta para correr.

Trad.: Nelson Santander

What I Didn’t Know Before

was how horses simply give birth to other
horses. Not a baby by any means, not
a creature of liminal spaces, but a four-legged
beast hellbent on walking, scrambling after
the mother. A horse gives way to another
horse and then suddenly there are two horses,
just like that. That’s how I loved you. You,
off the long train from Red Bank carrying
a coffee as big as your arm, a bag with two
computers swinging in it unwieldily at your
side. I remember we broke into laughter
when we saw each other. What was between
us wasn’t a fragile thing to be coddled, cooed
over. It came out fully formed, ready to run.

Angela Melim – Meu pai nos abandonou

Meu pai nos abandonou.
Minha mãe casou e mudou.
Vovó morreu.
Os irmãos sumiram no mundo
ou submundo.
Sem explicação
Yvonne nunca mais falou comigo
e, para Ronaldo,
sou fantasma do passado.
Vejo meus filhos já voando.
Nem um pássaro na mão.

in http://asescolhasafectivas.blogspot.com.br/2007/12/angela-melim-mencionada-por-laura-erber.html

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 26/03/2017