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Czesław Miłosz – Encontro

Ao amanhecer, cruzávamos os campos congelados em uma carroça.Uma asa vermelha se ergueu da escuridão. E subitamente uma lebre atravessou a estrada.Um de nós apontou para ela com a mão. Isso foi há muito tempo. Hoje, nenhum deles vive, Nem a lebre, nem o homem que fez o gesto. Oh, meu amor, onde estão, para…
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José Paulo Paes – Epitáfio para um banqueiro

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 01/12/2017
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Mary Oliver – Encontrando a raposa

Quando encontrei a raposa hoje – um ourotão vivo em seus olhos –nenhuma de nósse moveu, embora apenas uma de nós tenha sido imediatamente tomadade admiração. Suas patas estavamapoiadas em seu movimentode brusca parada, suas orelhas, para frente apontadas,a fim de ouvir como minha língua poderia ser,mas eu não dissenada, não havia palavra para a…
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Lucrécio – Da Natureza das Coisas (de rerum natura) (excerto)

Coisa nenhuma subsiste, mas tudo flui.Fragmento ajusta-se a fragmento e as coisas assim crescemAté que as conhecemos e nomeamos.Fundem-se, e já não são as coisas que conhecêramos. Formados dos átomos que caem velozes ou lentosVejo os sóis, vejo os sistemas se ordenarem;É sólido que a natureza está em nós até maisDo que nossa consciência sobre…
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Eiléan Ni Chuilleanéin – A serenata de Hofstetter

A serenata de Hofstetter(Máire Ní Chuilleanáin1 1944-1990) Senti a corrente de ar há pouco, enquanto digitava os números –a data de sua morte, ocorrida há vinte e cinco anos;estamos em maio, mas a noite clara está ficando mais fria,o denso fardo se abriu e a dor se disseminouao longo desses anos desconhecidos para ela2, e…
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Kerry Hardie – Navio da morte

para minha mãeObservando-a, pela primeira vez,virar-se para preparar o seu barco, minha mãe;quando ficou claro que você tinha outros assuntos agora —os assuntos do seu futuro —fui inundada pela raiva.Foi uma primeira sondagem,um olhar lançado sobre velas, remos, mastros,como aquele olhar experiente que muitas vezes viperscrutando a mesa farta.Como pode você planejar partir assimquando finalmente…
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Ivan Junqueira – No Leito Fundo

No leito fundo em que descansas,em meio às larvas e aos livores,longe do mundo e dos terroresque te infundia o aço das lanças; longe dos reis e dos senhoresque te esqueceram nas andanças,longe das taças e das danças,e dos feéricos rumores; longe das cálidas criançasque ateavam fogo aos corredorese se expandiam, quais vapores,entre as alfaias…
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Dan Gerber – No final de setembro

Certa estrela, da qual eu gostava,desapareceu. É possível queeu a tenha perdido. Esquecios nomes das nuvens e árvores e rostos, como canções das quaisremanesce apenas uma duradoura melodia.*Pequeno riacho,sob os salgueiros junto à minha cabana alugada —mais minha do que qualquer outra que eu possa possuir —,diga-me novamente o nome secretoque você murmura enquanto estou…
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Ivan Junqueira – de “Três Meditações na Corda Lírica”

Only through time time is conquered.T. S. Eliot, Four Quartets, Burnt Norton, 92 I Deixa tombar teu corpo sobre a terrae escuta a voz escura das raízes,do limo primitivo, da limalhafina do que é findo e ainda respira.…
