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Mario Benedetti – Tempo sem Tempo

Preciso de tempo, necessito desse tempoque os outros deixam de ladoporque lhes sobra ou já não sabemo que fazer com eletempoem brancoem rubroem verdemesmo em castanho escuronão me importa a corcândido tempoque eu não posso abrire fecharcomo uma porta tempo para olhar uma árvore, um farolpara caminhar à beira do descansopara pensar que bom que…
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Paulo Henriques Britto – Sobre o real

Há motivos bem sérios para nãose acreditar em nada de específico,quanto mais em geral. Pois se a razãotem algum valor, é ponto pacífico que conclusões geradas pela mentesó podem validar ulterioresconclusões, porém rigorosamentenada nas regiões inferiores, menos nefelibatas, da supostarealidade, em que as coisas têm pesoe consistência. Aqui tudo é uma aposta mais ou menos…
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Manuel António Pina – Luz

Talvez que noutro mundo, noutro livro,tu não tenhas morridoe talvez nesse livro não escritonem tu nem eu tenhamos existido e tenham sido outros dois aquelesque a morte separou e um delesescreva agora isto como seacordasse de um sonho que um outro sonhasse (talvez eu),e talvez então tu, eu, esta impressãode estranhidão, de que tudo perdeude…
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Paulo Henriques Britto – de “Ao Leitor”

V Sofro dos nervos, como se diziaantigamente — ou, mais antigamenteainda, mergulho (mesmo de dia)numa “noche oscura del alma” (ou “mente”, para aliviar o peso asfixiantede dois milênios de neura cristã),estado em que a existência por um instante(que às vezes dura toda uma manhã) é um mal desnecessário, uma arrastada(talvez interrompível) epopeiasem herói — e…
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Roger Wolfe – A Última Noite da terra

O melro de todos os anos voltou a visitar minha casaE, no entanto, ainda estou aqui.Sua melodia não muda, já o disse antes.Mas meu trabalho é constatar o óbvio,e é isso que o melro me faz lembrar.O tempo passa, as pessoas envelhecem e morrempor sua própria mão ou com ajuda.As palavras escorrem pelo ralodo que…
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Rosanna Warren – Lago

Você estava com água até as coxas e a luz verde refletianas cavidades dos seus quadris e no estômago, que é onde a chama pilotoardia nas antigas estátuas de Dionísio,e por um momento, enquanto você caminhava mais em direção ao fundo, parecia queaquela água poderia lavar o pesode suas próprias estações e de doenças que…
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Marina Colasanti – Rota de Colisão

De quem é esta peleque cobre a minha mãocomo uma luva?Que vento é esteque sopra sem soprarencrespando a sensível superfície?Por fora a alheia cascadentro a polpae a distância entre as duasque me atropela.Pensei entrar na velhicepor inteirocomo um barcoou um cavalo.Mas me surpreendojovem velha e maduraao mesmo tempo.E ainda aprendo a viverenquanto avançona rota em…
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Abdellatif Laâbi – Duas horas em um trem

Em uma viagem de trem de duas horasEu revejo o filme da minha vidaCerca de dois minutos por anoMeia hora para a minha infânciaoutra para o meu tempo na prisãoEnquanto o amor, livros e viagenscompartilham o restoA mão de minha parceira gradualmentese funde à minha e sua cabeça,que repousa em meu ombro,parece leve como uma…
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Marina Colasanti – Sexta-feira à noite

Sexta-feira à noiteOs homens acariciam o clitóris das esposasCom dedos molhados de saliva.O mesmo gesto com que todos os diasContam dinheiro, papéis, documentosE folheiam nas revistasA vida dos seus ídolos. Sexta-feira à noiteOs homens penetram suas esposasCom tédio e pénis.O mesmo tédio com que todos os diasEnfiam o carro na garagemO dedo no narizE metem…
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Alex Dimitrov – Os anos

Todas as festas que você frequentouobservando o salãode uma sacadaonde alguém se juntou a vocêpara fumar e depois voltou.E acontece que ninguémteve a infância que desejou,e eles lhe diziam issoum pouco bêbados, ligeiramente inclinados,em menos tempo que levapara fumar um cigarro,porque coisas tristesnão podem ser explicadas.Atrás da vidraça e lá dentrotodos os seus amigos conversavam.Você…