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Ada Limón – O real motivo

Eu não tenho nenhuma tatuagem, elas não fazem parte da minha história, e sim da históriade minha mãe. Certa vez, caminhando pela Bedford Avenue quando tinha vinte e poucos anos, liguei para ela como costumava fazer, como faço. E disse-lhe que queria umatatuagem na nuca. Algo discreto, mas permanente, e como ela é uma artista,…
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Carlos Drummond de Andrade – A um varão que acaba de nascer

Chegas, e um mundo vai-secomo animal ferido,arqueja. Nem apontaum forma sensível,pois já sabemos todosque custa a modelar-seuma raiz, um broto.E contudo vens tarde.Todos vêm tarde. A terraanda morrendo sempre,e a vida, se persiste,passa descompassada,e nosso andar é lento,curto nosso respiro,e logo repousamose renascemos logo.(Renascemos? talvez)Crepita uma fogueiraque não aquece. Longe.Todos vêm cedo, todoschegam fora do…
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Adrienne Rich – (Dedicatórias)

Eu sei que você está lendo este poematarde, antes de deixar o seu escritóriocom uma intensa luz amarelada e uma janela foscana lassidão de um prédio silencioso e desbotadomuito depois da hora do rush. Eu sei que você está lendo este poemaem pé em uma livraria distante do oceanoem um dia cinzento do início da…
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Nelson Santander – Dois capítulos perdidos de Memórias Póstumas de Brás Cubas

Dois capítulos perdidos de Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), por Nelson Santander
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Hayden Carruth – Ensaio

Tantos poemas sobre mortes de animais.O sapo de Wilbur, o ouriço de Kinnell, o esquilo de Eberhart,e aquele poema de alguém – Hecht? Merrill? –sobre cremar uma marmota. Mas sobretudoeu me lembro do número ultrajante deles,como se todo poeta, inclusive eu, tivesse escrito ao menosuma elegia animal; como resultado, hoje, quando cheguei a um poema…
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Jorge Luis Borges – Labirinto

Não haverá nunca uma porta. Já estás dentro.E o alcácer abarca o universoE não tem anverso nem reversoNão tem extremo muro nem secreto centro. Não esperes que o rigor do teu caminhoQue fatalmente se bifurca em outro,Que fatalmente se bifurca em outro,Terá fim. É de ferro teu destino Como o juiz. Não creias na investidaDo…
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W. S. Merwin – Para o aniversário da minha morte

Todo ano, sem perceber, passo pelo diaEm que as últimas chamas acenarão para mimE o silêncio colocar-se-á a caminhoInfatigável viajanteComo os feixes de uma estrela sem luz Então, não me encontrareiNa vida como em um estranho trajeSurpreso com a terraE o amor de uma mulherE a desfaçatez dos homensComo hoje escrevendo após três dias de…
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Gwen Harwood – No parque

Ela se senta no parque. São antiquados os seus trajes.Duas crianças choram e brigam, puxam-lhe o babado.Uma outra traça padrões ao acaso no gramadoAlguém que há muito tempo ela amou passa – tarde demais para fingir desdém ao aceno casual.“Que prazer” blá blá blá. “O tempo sempre nos surpreende.”Da cabeça perfeita dele claramente ascendeum pequeno…
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Nuno Júdice – Réquiem por Muitos Maios

Réquiem por Muitos Maios, um poema de Nuno Júdice Conheci tipos que viveram muito. Estão mortos, quase todos: de suicídio, de cansaço. de álcool, da obrigação de viver que os consumia […]
