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Aracelis Girmay – Sobre a bondade

Sobre a Bondade a partir de Nazim Hikmet para & a partir de Rassan No Aeroporto Metropolitano de Detroitcom horas-tartaruga de sobraentre agora & meu voo, existeuma coisa como a bondadeda esteira rolante que me emprestaseu lento, estranho pé de moluscoenquanto permaneço quieta, exausta, já há diassozinha em minha cama, dormindoem hotéis, já há meses,…
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Felipe Benítez Reyes – O desenho na água

Bem sabes que estes anos passarão,que tudo terminará em literatura:a imagem das noites, as lendasda triunfante juventude e as cidadesvividas como corpos. Que estes anospassarão tu já sabes, pois são teuscomo se possuísses a neve e a neblina,como é do mar a bruma, ou do ara cor da tarde fugidia:pertences de ninguém e do nadasurgidos,…
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Mark Strand – Meu nome

Certa noite, quando a relva estava verde-douradae as árvores marmorizadas pelo luar se erguiam como novos memoriaisno ar perfumado, e toda a paisagem pulsavacom o zumbido e o murmúrio dos insetos, eu estava deitado na grama,sentindo imensas distâncias se abrirem acima de mim, e me pergunteio que eu me tornaria — e onde encontraria a…
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Sérgio Jockyman – Os votos

Pois desejo primeiro que você ame e que amando, seja também amado.E que se não o for, seja breve em esquecer e esquecendo não guarde mágoa.Desejo depois que não seja só, mas que se for, saiba ser sem desesperar.Desejo também que tenha amigos e que mesmo maus e inconsequentes sejam corajosos e fiéis.E que em…
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John Updike – A morte da cachorra

Ela deve ter sido chutada ou atingida por um carro sem que ninguém visse.Muito nova para saber muito, ela começava a aprenderA usar os jornais espalhados pelo chão da cozinhaE a ganhar, quando os molhava, as palavras “Boa garota! Boa garota!” Pensamos que seu discreto mal-estar fosse uma reação à vacina.A autopsia revelou uma ruptura…
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Juan Luis Panero – Palavras e presságios

Voltar a alguns versos de Kaváfis, de Eliot,como quem regressa a uma casa que foi nossa anos atrás.Repetir as sílabas, iluminar os símboloscomo cerradas salas, janelas empoeiradasque ocultam um jardim perdido, árvores da morte.Melancolia do regresso e medo do vazio,rangidos de madeira, agitar de sombras,e, de repente, em um quarto, perdidacomo um velho copo ou…
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Mary Oliver – Quebra

Eu desço até a beira-mar.Como tudo cintila na luz matutina!A cúspide da concha,o búzio quebrado do caracol,os mexilhões azuis abertos,lesmas-do-mar rosa-pálidas marcadas por cracas —e nada totalmente inteiro ou fechado, mas esfarrapado, partido,abandonado pelas gaivotas sobre as rochas cinzentas com toda umidade exaurida.É como uma escolade palavras miúdas,milhares de palavras.Primeiro, compreendemos o significado de cada…
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Raymond Carver – Um passeio

Saí para caminhar pelos trilhos do trem.Caminhei algum tempo por elese cheguei ao cemitério do povoado,onde um homem descansa entreduas esposas. Emily van der Zee,Mãe e Esposa Amada,está à direita de John van der Zee.Mary, a segunda senhora Van der Zee,também uma Esposa Amada, à sua esquerda.Primeiro Emily se foi, depois Mary.Anos mais tarde, foi…
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Sharon Olds — Cemitério de Leningrado, Inverno de 1941

Naquele inverno, os mortos não puderam ser enterrados.O solo estava congelado, os coveiros fracos de fome, a madeira dos caixões era usada como combustível. Por isso, eles foram cobertos com algoe levados em um trenó de criança para o cemitério,no ar abaixo de zero. Eles jaziam no solo,alguns envoltos em um pano escuroamarrado com corda…
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Anna Akhmátova – Cleópatra

Os palácios de AlexandriaCobriram-se de sombras suaves.Púschkin Ela já beijara os lábios de Antônio, sem vida,E chorava, de joelhos, ante Augusto, vencida…E os servos a traíram. Sob a águia de RomaAs trombetas ressoam. E o crepúsculo assoma. E chega o último escravo de sua beleza.Alto e solene, num sussurro, ele pondera:“Vão te levar para ele……