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Patrizia Cavalli – Agora que

Agora que o tempo parece ser todo meue ninguém me chama para almoçar ou jantar,agora que posso ficar observandocomo uma nuvem desbota e se desfaz,como um gato atravessa o telhadono imenso luxo de uma aventura, agoraque todos os dias me esperaa duração ilimitada de uma noite,onde não há mais apelos e nem razãopara me despir…
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Emily Dickinson – “Morrer por ti era pouco…”

Morrer por ti era pouco.Qualquer grego o fizera.Viver é mais difícil —É esta a minha oferta — Morrer é nada, nemMais. Porém viver importaMorte múltipla — semO Alívio de estar morta. Trad.: Augusto de Campos REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 29/06/2018 Too scanty ’twas to die for you,The merest Greek could that.The living,…
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Tishani Doshi – Poema de Amor

No fim, perderemos um ao outropara alguma coisa. Espero que seja algograndioso – morte ou desastre.Mas pode não ser assim.Pode ser que você saiauma manhã para comprar cigarros,depois de fazermos amor,e nunca mais volte,ou eu me apaixone por outro homem.Pode ser um lento distanciamento em direção à indiferença.Seja como for, teremos que aprendera suportar a…
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Antonia Pozzi – Novembro

E depois – quando eu partirrestará alguma coisade mimno meu mundo –restará um fino rasto de silênciono meio das vozes –um ténue sopro de brancono coração do azul – E numa noite de Novembrouma menina frágilà esquina de uma ruavenderá braçadas de crisântemose lá estarão as estrelasgélidas verdes distantes –Alguém choraráem algum lugar – em…
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Leah Silvieus – Espécies invasoras

Algo terrível aconteceu hoje, eu digoe meu marido corre até mim procurando por sinais de ferimentos. Não quero contar-lhe o resto:de como encontrei uma rã-arborícola na canaleta do vidro da portado nosso carro, olhando para cima com o que eu então imagineiser um olhar de esperança, como a persuadi a entrar em um saco de…
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Renata Correia Botelho – o vento a rondar os dragoeiros

O Vento a Rondar os Dragoeiros, um poema de Renata Correia Botelho
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Richard Howard – Princípios elementares aos setenta e dois

Quando consideramos as estrelas (o que mais podemos fazer com elas?) e inclusive reconhecemos entre elas figuras paternas siderais (foi nossa consideração que as organizou assim), elas sempre nos ofuscam, pois nós mudamos. Quando observamos a água (que não pode ser contida, pois não para de transformar-se em si mesma), é assim que aspiramos nos…
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Felipe Benítez Reyes – Uma Forma de Eternidade

Então o medo era isto?Não os ameaçadoresfantasmas do pensamento e da consciência.Não os longos corredores de hospitaiscom lâmpadas fluorescentes dia e noite.Nem sequer o tremor de irrealidadeque permanece na alma se te recordas. O medo, aparentemente, é calmo: Chega quando fechas a janelae compreendes que tudo quanto vêsé o mesmo que ontem, e seráigual amanhã…
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Cheryl Pearson – Contando estrelas

O cheiro de gelo nos pinheiros. Frio e verde,como uma lufada de hortelã. Suas omoplatas como asas de anjocortando a grama. Moisés dividiu as águas assim mesmo.Não foi tão milagroso quanto isto. Nós. Sua pele, a brancura dela brilhandoatravés do algodão. Você faz um círculo com o polegar e o indicador,uma lente telescópica. E diz:…
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Joan Margarit – Shostakovich. Sinfonia ‘Leningrado’

Lembras-te? Joana1 havia morrido.Íamos para o norte, tu e eu, de carro,para o apartamento junto ao mar,e ouvíamos esta sinfonia.Iniciamos a viagem em uma manhãluminosa e, dentro da música,o dia era de muros cobertos pelo gelo,sombras com sacos meio cheiose, no lago, trenós com cadáveres.Como uma pista de aeroporto ao sol,fugia a estrada, e por…