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Nuno Júdice – Fotografia

Naquilo a que o jornal chama um nu sulfuroso deatget (1925) a mulher está de gatas em cima da cama,e olha para trás, de esguelha, como se quisessemostrar-se ao fotógrafo, por um lado, e esconder-sede nós, por outro. Mas quando a olhamos, adivinha-seum sorriso que, não se sabe porquê, se esbate comessa espécie de névoa…
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Thom Gunn – O atiçador

Quarenta e oito anos atrás —Já se passaram mesmo quarenta e oito anosDesde então?— eles forçaram a portaQue ela havia barricadoCom o peso de uma escrivaninha inteiraPara que ninguém descobrisse, como eles descobriram,o que ela havia bloqueado. Ela havia bloqueado a portaPara manter as crianças do lado de fora.Em seu roupão vermelho,Ela fizera anotações, ocupada…
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Werner Aspenström – Domingo

Pela simples razão de que nunca mais voltaráhoje é um dia memorável.O sol nasceu no leste e se pôs no oeste,deixou o céu para as estrelase uma nave espacial nadando no espaço.O rádio falava e cantava através da janela abertaatrás dos pelargônios vermelhos imutáveis.Uma mulher colhia cachos de groselha com uma tesourae os levava para…
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James Tate – A promoção

Eu já fui um cachorro em minha vida passada, um cachorromuito bom, e, por isso, fui promovido a ser humano.Eu gostava de ser um cachorro. Trabalhava para um fazendeiro pobre,protegendo e pastoreando suas ovelhas. Lobos e coiotestentavam passar por mim todas as noites, mas eununca perdia uma ovelha. O fazendeiro me recompensavacom uma boa comida,…
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Andreia C. Faria – Descarnação

Até aos trinta anos tensa cara que Deus te deu. Depoistens a cara que mereces. É uma promessade ironia, uma sentença sem recurso. É-te assim dito:estás entregue ao labor íntimodo que comes, ao número de horas que dormes,àquilo que fazes e sobretudoàquilo em que pensas. Deus(perdoa-lhe a fraqueza)tolera-nos enquanto somos jovens,ampara-nos, alisa-nosa fronte após um…
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Filodemo de Gádara – Estação da Rosa Silvestre

É a estação da rosa silvestre e da hortelã, Sosylos,a estação do grão-de-bico e dos primeiros cortes dos brotos,dos lambaris e dos queijos salgados, da alface-crespaem cujas novas folhas a luz transfunde um brilho quase esquecido. Ainda assim,reparaste como neste ano algo mudou?Como não fazemos mais nossas caminhadas matinaisao longo da costa recém-povoada, nossos piqueniquessob…
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Ellen Bass – Removendo a frente da casa

Estou à mesa da cozinha, tomando chá forte e comendo ovoscom gemas douradas como papoulas de nossas galinhas, Marilyn e Estelle.Há um carro vermelho estacionado do outro lado da rua e as íris deslumbrantes do meu vizinho,suas línguas franjadas saboreando o ar.“A Monsanto está processando Vermont”, digo, folheando o Times.Digo em voz alta porque Janet…
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Jorge Luis Borges – James Joyce (em três traduções)

Primeira tradução: Carlos Nejar e Alfredo Jacques.Revisão de trad.: Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz Em um dia do homem estão os diasdo tempo, desde o inconcebíveldia inicial do tempo, em que um terrívelDeus prefixou os dias e agonias,até aquele outro em que o ubíquo riodo tempo terrenal torne a sua fonte,que é o…
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Hanif Willis-Abdurraqib – E qual será a utilidade de sua vaidade quando o arrebatamento chegar?

E qual será a utilidade de sua vaidade quando o arrebatamento chegar?, questiona o homem com um carrinho de garrafas vazias na esquina da igreja com alincoln enquanto fixo meu olhar no meu telefone e digoEu sei sim eu sei enquanto tento encontrar o filtroadequado que fará o pôr-quase-perfeito-do-sol parecer com a descrição que eu faria…
