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Nuno Júdice – Como Aves, Cuja Passagem

Como sombras passaram entre nós, como sombras. Uma vez perante alguns amigos e desconhecidos, afirmei conhecê-los e citei os seus nomes. Mas o que não correspondia a um acto heroico, nada significava hoje, mesmo entre amigos e desconhecidos. Só se eu próprio me tornar uma sombra, e também eu passar a uma outra vida. Durante…
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Manuel António Pina – Café Orfeu

Nunca tinha caídode tamanha altura em mimantes de ter subidoàs alturas do teu sorriso. Regressava do teu sorrisocomo de uma súbita ausênciaou como se tivesse lá ficadoe outro é que tivesse regressado. Fora do teu sorrisoa minha vida pareciaa vida de outra pessoaque fora de mim a vivia. E a que eu regressava lentamentecomo se…
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Ada Limón – A máquina do silêncio

Estou aprendendo tantas maneiras diferentes de ficar quieta. Há o jeito como fico no gramado, esse é um deles. Há também o jeito como fico no campo do outro lado da rua, esse é outro, porque estou mais longe das pessoas e, portanto, é mais provável que eu fique sozinha. Há o jeito como não…
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Fernando Pinto do Amaral – Por causa de uma ave

“Por causa de uma ave”, um poema de Fernando Pinto do Amaral que transforma o esqueleto de um pássaro em revelação brutal da mortalidade, ligando a perda íntima à consciência inquieta da própria finitude.
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Faith Shearin – O que eu gosto

Não da festa em si — um turbilhão de momentos desconfortáveis e risosque, na verdade, querem dizer outra coisa. Não do momento logo após o fimda festa, quando nos jogamos no sofá, pratos espalhados por toda parte,bitucas de cigarro flutuando no refrigerante, um único pedaço intocado de torta sobre a mesa de centro. O que…
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Vicente Gaos – A vida

Os ardorosos signos da vidapulsam na atmosfera do verão.O mar respira tal como um varão,como uma criatura enfurecida. Oh gozo e amor, sangue furioso,cósmica vibração de um mundo arcano.Mundo que sinto ao tatear teu crâniofrágil quando nele minha mão pouso. Te amo, sim, te amo, sonho forte,Fecho os olhos e te sinto inteira– Oh luz…
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Thomas Lux – Irreconciliabilidade

Não importa o que você faça,não é possível retê-lo por muito tempo,nem trazê-lo de volta. O céu, o céu vazio,quase azul, as casas modestas do sono,cobertas de musgo, irão chamá-lo. Não importa o quanto você ame,este amor vai passar, vai passar,seus amigos imortalizados, partiram, se perderam. Incandescem os verãose os anos, e tudo o que…
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Rui Diniz – O desaguar dos crepúsculos no Ebro

Eu estava presente quando o corpo do hernandezdeu à costa. Era um corpo magro e extraordinariamenteroxo, evocava os últimos dias da sua vida,quando se demorava o menos possível nos cafés debarcelona, perseguido até por si próprio.De facto a loucura procurava-o lentamente.Durante a noite, em tempo de lua cheia, a suasombra por vezes corria pelo silêncio…
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Kwame Dawes – Solidão

Tenho voltado a conversar com árvores em pleno inverno; não com as das bordas,aquelas seguras, contemplando a rodovia; mergulho fundo, onde a neve é em pó, cristalina sob a luz. Dialogamos, os ramos roçam uns nos outroscomo insetos sibilantes o frio acalma até meu coração inquieto;aqui, o silêncio é absoluto. A cada passo, sou surpreendido…
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Carmen Conde – [Declaro que morreu e que seu túmulo]
![Carmen Conde – [Declaro que morreu e que seu túmulo]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2024/01/leonardo_diffusion_xl_create_an_artistic_representation_of_a_s_2.jpg)
Declaro que morreu e que seu túmuloestá dentro de mim; sou seu sudário.A ninguém se enterrou porque seu trânsitono tempo foi de loucas esperanças. Circundam o contorno desta cova– quente é a vinha que escala as paredes –os pâmpanos mais tenros e suculentosque arrancam do silêncio seu tumulto. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado na…