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Jaime Sabines – Sobre a Morte do Major Sabines

Primeira Parte I Deixa-me repousar,relaxar os músculos do coraçãoe colocar a alma para dormirpara poder falar,para poder recordar estes dias,os mais longos dos tempos. Mal convalescemos da afliçãoe estamos fracos, assustados,despertando duas ou três vezes do nosso escasso sonhopara ver-te na noite e saber que respiras.Precisamos despertar para estar mais despertosdeste pesadelo repleto de gente…
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Diane Seuss – [Todas as coisas agora me lembram]
![Diane Seuss – [Todas as coisas agora me lembram]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2023/04/house.jpg)
Todas as coisas agora me lembram de como o amor costumava ser. Taboas dilatadas em lugaressolitários. Condicionador viscoso em meus cabelos. Sólidos livros. Suas variegadas lombadas.Turbilhão de palavras como um coquetel agitado, umbigo em torvelinho, pulsante asterisco.O passado é isto: ter sido jovem e desejosa e não ser mais.No futuro, as taboas explodirão sem mim.…
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Nuno Júdice – Outra Imagem

Conheço o mundo dos mortos. É frio, com terraPor cima, restos de tábuas, ossos desfeitos pelos invernos.Os mortos vêem-nos; de onde eles estão, eles chamam pelos nomesFamiliares, num murmúrio, e o vento dispensa-lhes os sopros– música de ciprestes. Por isso há quem ande entre as campasao fim da tarde, com os ouvidos tapados; quem reze,entre…
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Ada Limón – Notas sobre o Subterrâneo

Notas sobre o Subterrâneo — Para o Parque Nacional Mammoth Cave Colossal caverna, diga-me, úmido calcário, rocha de arenito, asa de morcego, cego e translúcido camarão-das-cavernas, esta queda livre para além do desconhecido, como se guardam segredos por tanto tempo? Por toda minha vida vivi sobre o solo, rodas de carro sobre pistas pavimentadas, raízes…
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Joan Margarit – A moça do semáforo

Tens a mesma idade que eu tinhaquando comecei a sonhar em encontrar-te.Ignorava então, assim como tu ignoras,que o amor se transforma na arma carregadade solidão e melancoliaque aponta agora para ti em meus olhos.Tu és a moça que busqueidurante tanto tempo, quando ainda não existias.E eu o homem a quem, um dia,desejarás que oriente teus…
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Matthew Rohrer – Não há absolutamente nada mais solitário

Não há absolutamente nada mais solitáriodo que o pequeno Mars Rover,sempre em funcionamento, escavandorochas, tão longe da Bond streetsob a chuva suave. Será queele emite pequenos bipes? Se sim,ele é ainda mais solitário. Ele dispara laserna poeira. Ele engasga. Algo brilhante na areia revela-se ser dele. Trad.: Nelson Santander There Is Absolutely Nothing Lonelier There…
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Alfonsina Storni – Leva-me

Quero esquecer que vivo: leva-me a algum lugar;Ata-me a tua alma; a alva a brilhar. Colhe-me entre tuas mãos como em um branco casuloE mostra-me aos deuses com glória e com orgulho. Leva-me! É uma noite muito escura e sombria!…A morte caça pelo mundo tal qual harpia. Faz-me esquecer o peso que carrego nos ombrosEssa…
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Stanley Kunitz – Cometa de Halley

A srta. Murphy, da primeira série,escreveu o nome dele no quadro negrocom giz e nos contou que eleviajava rugindo pelas trajetórias de tempestadesda Via Láctea a uma velocidade aterrorizante,e que se ele desviasse do seu curso e colidisse com a terranão haveria aula no dia seguinte.Um pregador das colinas, de barba ruivae com uma expressão…
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Angela Figuera Aymerich – Princípio e Fim (na morte de minha mãe)

Já tenho minhas raízes debaixo da terra.Já um pouco morta contigo, mãe,há algo da minha vida que se decompõecontigo, com teus ossos delicados,com tuas veias azuis, com teu ventreque côncavo sofreu, dando-me forma.Na ignorância, mãe, não no pecadomostraste-me como a vida brota.Como a carne floresce e se divideno centro sagrado da mulher.Pequena e frágil foste.…
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Izumi Shikibu – [Venha logo]
![Izumi Shikibu – [Venha logo]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2023/04/cerejeira.jpg)
Venha logo — assimque se abrirem essas pétalas,elas cairão.Este mundo existe comoa luz do orvalho nas flores. Trad.: Nelson Santander (a partir da versão do poema em inglês vertida por Jane Hirshfield e Mariko Aratani) N. do T.: Izumi Shikibu foi uma poetisa japonesa que viveu no final do período Heian, entre os séculos X…