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Louise Glück – Um silêncio bem afiado

Deixa eu te contar uma coisa, disse a senhora.Estávamos sentadas, uma diante da outra,no parque de cidade conhecida por seus brinquedos de madeira. Na época, eu tinha fugido de um triste caso amorosoe, por penitência ou autocastigo, fui trabalharnuma fábrica, onde esculpia à mão minúsculos pés e mãos. O parque era meu consolo, sobretudo nas…
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Halldís Moren Vesaas – Oração à Vida

A vida terrena, única, seja o meu quinhão!Vida minha, tudo o que tenho na tua mão!Toma-me e usa-me e exaure-me nos diase então me larga alhures, alijada de ti, friae impotente e condenada a não renascerna noite, na eterna noite sem amanhecer! Trad.: Luciano Dutra REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 28/11/2018 BØN TIL…
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José Mateos – Canção 1

Ainda quase um meninosentaste a esperar àmargem do grande silêncio. Pensavas que estando sócom tua voz talvez pudessesroubar ao mar seu segredo. Foi-se a tua juventude.Mudos passaram os anose agora estás vazio por dentro. Serias capaz, caso soasseo acorde do grande silêncio,de reproduzir o seu eco? Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO com alterações na tradução: poema…
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Jeffrey McDaniel – O mundo silencioso

Na tentativa de fazer as pessoas olharemmais nos olhos umas das outras,e também para apaziguar os mudos,o governo decidiu atribuira cada pessoa exatamente cento e sessenta e sete palavras por dia. Quando o telefone toca, coloco-o no ouvidosem dizer alô. No restaurante,aponto para a sopa de macarrão com frango.Estou me adaptando bem ao novo jeito.…
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Paulo Henriques Britto – Nenhuma Arte

Os deuses do acaso dão, a quem nadalhes pediu, o que um dia levam embora;e se não foi pedida a coisa dadanão cabe se queixar da perda agora.Mas não ter tido nunca nada nãoseria bem melhor — ou menos mau?Mesmo sabendo que uma solidãocompleta era o capítulo final,a anestesia valeria o preço?(Rememorar o que não…
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Alison Luterman – Eu admito

Eu a seguino mercado; sua coroade tranças de neve presa por um grande grampo de prata,seu porte ereto, irradiando ternura,a maneira como ela colocava iogurte e abacates em sua cesta,irradiando paz como a Estrela Polar.Eu desejei perguntar: “Em que prateleira você encontrousua serenidade? Você sabecomo manter um casamento de cinquenta anos, ou como viver sozinha,desculpe-me…
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Francisco Brines – O Triunfo do Amor

Eu te amei em Queroneia. Vivos éramos.Em meio à tristeza derruída,um sopro mortal: éramos vivos.Séculos se passaram, e outros olhoscontemplam as ruínas, ainda intactas.Quem percorreu este lugar? Apenas o vaziofoi o tecido do tempo nesta planície. Eu te amei em Queroneia. Impalpávelera o calor das cinzas humanas,e na manhã solitária jazemsombras de colunas tombadas, corposardentes…
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Charles Simic – O ausente

Alguém está chegando tarde em casa.A lâmpada deixada para ele na janelaArde à medida que o dia amanhece,E arderá ainda por muitos meses. Nossa pequena rua é escura à noite.As gaiolas são cobertas cedo.Os peixinhos dourados mal se mexem em seus aquários.Até mesmo as luzes da varanda estão apagadas, Deixando apenas a janela acesaPara as…
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Rupi Kaur – Depressão é uma sombra que mora em mim

ontemquando saí da camao sol caiu no chão e rolou pela gramaas flores decapitaram a si mesmasa única coisa viva que sobrou fui eue eu já não sei se isso é vida Trad.: Ana Guadalupe REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 20/11/2018
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James Stephens – Deirdre

Mulher alguma leia este poema,composto para homens; e depois para seus filhose os filhos dos seus filhos. Já veio o tempo de abater-se o coração:basta lembrarmos Deirdre* e sua história,oh! que seus lábios já são poeira! Outrora ela pisava a terra; os homensseguravam-lhe a mão; fitavam-na e diziamo que lhe tinham a dizer, e ela…