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Poemas Palestinos

Mosab Abu Toha Em uma noite sem estrelas Em uma noite sem estrelas,eu viro de um lado para outro.A terra treme, e eu caio da cama.Olho pela minha janela. A casavizinha não existe mais. Está deitada, como um velho tapete nochão da terra, pisoteada por mísseis, largos chinelosvoando de pés sem pernas.Eu não sabia que…
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Abel Silva – O Poço

A moeda do Acasocai tão fundono Poço dos Destinosque vivemos descoladosdo viver do outro,como num contrato de comportamento.O milagre do viver nos entorpece.Então a notícia da doença de um amigo,o convite para a missa de um outro,um susto, um alarme, uma suspeitanos vareja no rosto uma aragem de morte.Às vezes choramos,ficamos desorientadosmas abrimos os olhos,levantamos…
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C. Dale Young – O ponto

Os outros médicos afirmaram que ele morreria dentro de um mês. Ele continuou vivo por anos: a simples verdade é que ele mal tinha trinta anos, mas já estava morrendo há quase dois. O desejo de profecia está íntima e profundamente enraizada no retorcido e humano coração — nós o buscamos, sua borda metálica brilhante.…
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Carlos Drummond de Andrade – Procura

Procurar sem notícia, nos lugaresonde nunca passou;inquirir, gente não, porém textura,chamar à fala muros de nascença,os que não são nem sabem, elementosde uma composição estrangulada. Não renunciar, entre possíveis,feitos de cimento do impossível,e ao sol-menino opor a antiga busca,e de tal modo revolver a morteque ela caia em fragmentos, devolvendoseus intactos reféns — e aquele…
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Francisco X. Alarcón – Prece

Quero um deuscúmpliceque passe a noite todaem espeluncasde má reputaçãoe acorde tardeaos sábados um deusque assobiepelas ruase estremeçadiante dos lábiosdo seu amor um deusque espere na filada entradados cinemase tome café com leite um deusque cuspasangue detuberculosoe não tenha grananem para o ônibus um deusque desmaiecom um casseteteda políciaem uma manifestaçãode protesto um deusque se…
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Joan Margarit – Cemitério de Montjuïc

Algo resta das almas,como a brisa que surgedepois de alguém passar,e que faz estremeceruma fina cortina na janela.Pela trilha de pedras ásperas que não esquecemmas calam, severas, o que sabem,o vento deixa um silêncio de lágrimaspor vidas como a nossa, perdidas.“Jazigo perpétuo”, a terrasempre dura, fileiras de ciprestes:provinciano teatro da morte.Nosso amor é como o…
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Ada Limón – Em um poste de luz, há muito tempo

Não sei por onde começar na lista de todas as coisas que estão desaparecendo: peixes, pássaros, árvores, flores, abelhas, e também idiomas. Dizem que, se as taxas históricas forem calculadas, um idioma morrerá a cada quatro meses. No tempo que leva para dizer eu te amo, ou ir morar com alguém, ou admitir o filho…
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Aimee Nezhukumatathil – Ação de Graças

O único ano em que não me lembro do perufoi aquele em que jantei pela primeira vez com o homem com quem me casaria. Bendita seja a tigelade batata-doce, o marshmallow derretido em uma poça de creme espiralado. Benditos sejam os assentos não atribuídos para que eu pudesse sentar ao lado dele. À mesa: um…
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Bob Hicok – Alzheimer

As cadeiras se movem sozinhas, assim como os livros.Os netos vêm visitá-la, são jovens e sem nomes, peças ausentes nos quebra-cabeçasde seus rostos. Ela é como um peixe no oceano profundo, seu corpo é feito de luz.Ela flutua pelos cômodos, pelosmeus olhos, uma velha desprovidade memórias, da parábola de sua vida. E mesmo que seja…
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Nelson Santander – Cinema Paradiso e a visita cruel do tempo

Cinema Paradiso e a visita cruel do tempo, uma crônica de Nelson Santander