Mary Oliver – Quebra

Eu desço até a beira-mar.
Como tudo cintila na luz matutina!
A cúspide da concha,
o búzio quebrado do caracol,
os mexilhões azuis abertos,
lesmas-do-mar rosa-pálidas marcadas por cracas —
e nada totalmente inteiro ou fechado, mas esfarrapado, partido,
abandonado pelas gaivotas sobre as rochas cinzentas com toda umidade exaurida.
É como uma escola
de palavras miúdas,
milhares de palavras.
Primeiro, compreendemos o significado de cada uma por si só,
o bivalve, a pervinca, a vieira
repleta de luz lunar.

Então, aos poucos, começamos a ler toda a história.

Trad.: Nelson Santander

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Breakage

I go down to the edge of the sea.
How everything shines in the morning light!
The cusp of the whelk,
the broken cupboard of the clam,
the opened, blue mussels,
moon snails, pale pink and barnacle scarred—
and nothing at all whole or shut, but tattered, split,
dropped by the gulls onto the gray rocks and all the moisture gone.
It's like a schoolhouse
of little words,
thousands of words.
First you figure out what each one means by itself,
the jingle, the periwinkle, the scallop
       full of moonlight.

Then you begin, slowly, to read the whole story.

Raymond Carver – Um passeio

Saí para caminhar pelos trilhos do trem.
Caminhei algum tempo por eles
e cheguei ao cemitério do povoado,
onde um homem descansa entre
duas esposas. Emily van der Zee,
Mãe e Esposa Amada,
está à direita de John van der Zee.
Mary, a segunda senhora Van der Zee,
também uma Esposa Amada, à sua esquerda.
Primeiro Emily se foi, depois Mary.
Anos mais tarde, foi a vez do velho camarada.
Onze filhos nasceram dessas uniões.
E eles, também, já devem estar todos mortos agora.
Este é um lugar tranquilo. Tão bom quanto qualquer outro
para interromper meu passeio, sentar e me preparar
para minha própria morte, que se aproxima.
Mas eu não entendo, não entendo.
Tudo o que sei sobre esta vida bela e fatigante,
a minha ou a de qualquer um,
é que daqui a pouco vou me levantar
e ir embora desse lugar espantoso
que dá abrigo aos mortos. Este cemitério.
E seguir. Caminhando primeiro sobre um trilho,
depois sobre o outro.

Trad.: Cide Piquet

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 17/02/2019

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Raymond Carver – A Walk

I took a walk on the railroad track.
Followed that for a while
and got off at the country graveyard
where a man sleeps between
two wives. Emily van der Zee,
Loving Wife and Mother,
is at John van der Zee’s right.
Mary, the second Mrs. van der Zee
also a loving wife, to his left.
First Emily went, then Mary.
After a few years, the old fellow himself.
Eleven children came from these unions.
And they, too, would all have to be dead now.
This is a quiet place. As good a place as any
to break my walk, sit, and provide against
my own death, which comes on.
But I don’t understand, and I don’t understand.
All I know about this fine, sweaty life,
my own or anyone else’s,
is that in a little while I’ll rise up
and leave this astonishing place
that gives shelter to dead people. This graveyard.
And go. Walking first on one rail
and then the other.

Sharon Olds — Cemitério de Leningrado, Inverno de 1941

Naquele inverno, os mortos não puderam ser enterrados.
O solo estava congelado, os coveiros fracos de fome,
a madeira dos caixões era usada como combustível. Por isso, eles foram cobertos com algo
e levados em um trenó de criança para o cemitério,
no ar abaixo de zero. Eles jaziam no solo,
alguns envoltos em um pano escuro
amarrado com corda como a bola de raízes da árvore
que espera para ser plantada; outros estavam enrolados em lençóis,
suas formas pálidas, cobertas de gaze, cônicas,
rígidas como casulos que se abrirão ao meio
quando a nova vida dentro deles estiver pronta;
mas a maioria jazia como cadáveres, suas coberturas
se desfazendo, as panturrilhas nuas
duras como feixes de madeira espalhados
por debaixo de um manto, uma mão estendida
sem sinal de paz, ansiando voltar
até mesmo para o pão feito de cola e serragem,
até mesmo para o inverno glacial, e o cerco.

Trad.: Nelson Santander

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Leningrad Cemetery, Winter of 1941

That winter, the dead could not be buried.
The ground was frozen, the gravediggers weak from hunger,
the coffin wood used for fuel. So they were covered with something
and taken on a child’s sled to the cemetery
in the sub-zero air. They lay on the soil,
some of them wrapped in dark cloth
bound with rope like the tree’s ball of roots
when it waits to be planted; others wound in sheets,
their pale, gauze, tapered shapes
stiff as cocoons that will split down the center
when the new life inside is prepared;
but most lay like corpses, their coverings
coming undone, naked calves
hard as corded wood spilling
from under a cloak, a hand reaching out
with no sign of peace, wanting to come back
even to the bread made of glue and sawdust,
even to the icy winter, and the siege.

Anna Akhmátova – Cleópatra

Os palácios de Alexandria
Cobriram-se de sombras suaves.
Púschkin

Ela já beijara os lábios de Antônio, sem vida,
E chorava, de joelhos, ante Augusto, vencida…
E os servos a traíram. Sob a águia de Roma
As trombetas ressoam. E o crepúsculo assoma.

E chega o último escravo de sua beleza.
Alto e solene, num sussurro, ele pondera:
“Vão te levar para ele… em triunfo… como presa…”
Mas a curva do colo de cisne não se altera.

Amanhã acorrentarão seus filhos. Pouco lhe resta:
Brincar com este rapaz até perder a mente
E, de piedade, a víbora negra — último gesto —
Depor no peito moreno com a mão indiferente.

Trad.: Augusto de Campos

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Aleksandr Blok – Cleópatra

Cleópatra

O museu triste da rainha
Há um, dois, três anos já se abriu.
Bêbada e louca a turba ainda se apinha…
Ela espera no túmulo sombrio.

Jaz na sinistra caixa
De vidro, nem morta nem viva.
Sobre ela a multidão saliva
Palavras torpes em voz baixa.

Ela se estende preguiçosamente
No sono eterno a que se recolhera…
Lenta e suave, uma serpente
Morde o peito de cera.

Eu mesmo, fútil e perverso,
Com olheiras de anil,
Vim ver o lúgubre perfil
Na cera fria imerso.

Todos te contemplamos neste instante.
Se essa tumba não fosse uma mentira
Eu ouviria, outra vez, arrogante,
Teu lábio putrefato que suspira:

“Dai-me incenso. Esparzi-me flores.
Em eras anteriores
Fui rainha do Egito. Hoje sou só
Cera. Apodrecimento. Pó.”

“Rainha! O que há em ti que me fascina?
No Egito, como escravo, eu te adorei.
Agora a sorte me destina
A ser poeta e rei.

Da tua tumba não vês que já imperas
Na Rússia como em Roma? Não vês, mais,
Que eu e César, em séculos e eras,
Ante o destino seremos iguais?”

Emudeço. Contemplo. Ela não muda.
Só o peito pulsa, quase
Respirando entre a gaze,
E ouço uma fala muda:

“Outrora eu suscitei paixões e lutas.
O que suscito agora?
Um poeta bêbado que chora
E o riso bêbado das prostitutas.”

Trad.: Augusto de Campos

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Ian Hamilton – A Tempestade

Longe, uma tempestade irrompe. Ela avança em ondas até o nosso quarto.
Olhas para a luz, de modo que ela ilumina um lado
Do teu rosto, tua boca contraída, teu assustado olhar.
Voltas-te para mim e quando chamo, tu vens
E ajoelhas-te ao meu lado, desejando que eu tome
Tua cabeça entre minhas mãos, como se fosse
Uma delicada tigela que a tempestade pudesse quebrar.
Queres que eu me coloque entre ti e o brutal trovão.
Pousando em tuas carnes, minhas grandes mãos se agitam,
Pulsam em ti e então, perguntando-se como, apertam.
A tempestade me atravessa enquanto tua boca se abre.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 16/02/2019

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The Storm

Miles off, a storm breaks. It ripples to our room.
You look up into the light so it catches one side
Of your face, your tight mouth, your startled eye.
You turn to me and when I call you come
Over and kneel beside me, wanting me to take
Your head between my hands as if it were
A delicate bowl that the storm might break.
You want me to get between you and the brute thunder.
Settling on your flesh my great hands stir,
Pulse on you and then, wondering how to do it, grip.
The storm rolls through me as your mouth opens.

Faith Shearin – Lição de Piano

Meus olhos se abrem antes que o sol derrame sua gema no céu;
uma garota no andar de cima pratica escalas. Imagino o arco
de sua mão, a sua saia que paira acima do joelho.

Na rua, ouço um indigente, um copo de papel, um homem que discute
física com um pombo; um par de meninas sopra bolas de chiclete
para o céu. Talvez uma velha senhora sonhe com sua infância

num banco do parque, enquanto o homem ao seu lado decide deixar
sua esposa. O mundo é complicado: uma janela aberta,
minha cabeça afundada no travesseiro, onde descubro uma ação de maré:

tantos corpos rolando em direção ao planeta, tantos outros
refluindo. Num café, talvez um dia eu acenda um cigarro,
lembrando da última pessoa que não me amou, abrindo a

boca para ver se dela sai fumaça ou palavras. Mas hoje
acordo me perguntando: como vou fazer caber toda essa vida em uma só?
Preciso de um mapa, de uma lista de vocabulários; não consigo aprender o mundo

rápido o suficiente. Quero ser como a garota do andar de cima que se preparou
diante de um piano de cauda e ensinou seus próprios dedos cegos a cantar.

Trad.: Nelson Santander

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Piano Lesson

My eyes open before the sun drops its yolk into the sky
and a girl upstairs is practicing scales. I imagine the arch
of her hand, the way her skirt might pause above the knee.

In the street I hear a victim, a paper cup, a man who talks
physics with a pigeon; a pair of girls blow bubblegum bubbles
at the sky. Perhaps an old woman dreams her childhood

on a park bench while the man beside her decides to leave
his wife. The world is complicated: an open window,
my head pressed to a pillow where I find a tidal action:

so many bodies rolling onto the planet, so many others
turning back. In a café I may someday light a cigarette,
remember the last person who did not love me, open my

mouth to see if it speaks smoke or words. But these days
I wake up wondering: how will I fit all this life in one life?
I need a map, a vocabulary list; I can’t learn the world

fast enough. I want to be like the girl upstairs who has braced
herself before a grand piano and taught her own blind fingers to sing.

Francisco Brines – Aquele verão de minha juventude

E o que restou daquele distante verão
nas costas da Grécia?
O que resta em mim do único verão de minha vida?
Se pudesse escolher, de todos em que vivi,
algum lugar, e o tempo que o ata,
sua milagrosa companhia me arrasta até lá,
onde ser feliz era a razão natural de existir.

Perdura a experiência, como um quarto fechado da infância;
não resta mais a lembrança de dias sucessivos
nesta sucessão medíocre dos anos.
Hoje sinto essa carência,
e busco na ilusão algum resgate
que me permita ainda olhar para o mundo
com o amor necessário;
E assim saber-me digno do sonho da vida.

De tudo o que foi ventura, daquele lugar de alegria,
saqueio avaramente
sempre uma única imagem:
seus cabelos agitados pelo vento,
e o olhar fixo no mar.
Tão só esse momento indiferente.
Selada nele, a vida.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 15/02/2019.

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Aquel verano de mi juventud

Y qué es lo que quedó de aquel viejo verano
en las costas de Grecia?
¿Qué resta en mí del único verano de mi vida?
Si pudiera elegir de todo lo vivido
algún lugar, y el tiempo que lo ata,
su milagrosa compañía me arrastra allí,
en donde ser feliz era la natural razón de estar con vida.

Perdura la experiencia, como un cuarto cerrado de la infancia;
no queda ya el recuerdo de días sucesivos
en esta sucesión mediocre de los años.
Hoy vivo esta carencia,
y apuro del engaño algún rescate
que me permita aún mirar el mundo
con amor necesario;
y así saberme digno del sueño de la vida.

De cuanto fue ventura, de aquel sitio de dicha,
saqueo avaramente
siempre una misma imagen:
sus cabellos movidos por el aire,
y la mirada fija dentro del mar.
Tan sólo ese momento indiferente.
Sellada en él, la vida.

Kim Addonizio – Para a mulher que chora descontroladamente no banheiro ao lado

se você já acordou vestida às 4 da manhã
fechou as pernas para alguém que amava abriu-
as para alguém que não roçou-se contra
um travesseiro no escuro ficou miseravelmente em uma praia
algas agarradas em seus tornozelos pagou
uma boa grana por um corte de cabelo ruim se afastou
de um espelho que queria matá-la sangrou
no banco de trás por falta de um absorvente
se atravessou um rio a nado sob a chuva cantou
usando um vibrador como microfone ficou acordada
para ver a lua engolir o sol inteiro
arrancou os pontos do seu coração
porque por que não? se você acredita que nada &
ninguém pode / ouça eu te amo a alegria está a caminho

Trad.: Nelson Santander

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To the Woman Crying Uncontrollably in the Next Stall

If you ever woke in your dress at 4 A.M. ever
closed your legs to someone you loved opened
them for someone you didn’t moved against
a pillow in the dark stood miserably on a beach
seaweed clinging to your ankles paid
good money for a bad haircut backed away
from a mirror that wanted to kill you bled
into the back seat for lack of a tampon
if you swam across a river under rain sang
using a dildo for a microphone stayed up
to watch the moon eat the sun entire
ripped out the stitches in your heart
because why not if you think nothing &
no one can / listen I love you joy is coming

Paulo Henriques Britto – de “Duas autotraduções”

(CADERNO, XIV)
II

Isto, também, será lembrado um dia,
porém não tal qual é sentido agora.
Não que as lembranças sejam distorcidas
de propósito; é só porque a memória,
entre o vivido e o lembrado, interpõe
como que um filtro, com pequenas falhas
ou até mesmo substituições –
nem tanto por mentiras deslavadas,
mas por versões plausíveis do ocorrido.
São mudanças sutis, que se desculpam,
como perdas num texto traduzido,
e não trapaças. Pois a vida é tua,
e se nem sempre é possível amá-la,
tens o direito (ao menos) de editá-la.

Paulo Henriques Britto – de “Caderno”

XIV

This, too, will one day be remembered
not quite like what it feels like now.
It’s not that memories are tampered
with purposely, but that, somehow,
between life lived and life relalled
things go awry, details get lost
and are replaced – not by a bald-
faced fabrication, but at worst
a plausible version of what
could have happened, in circumstances
at just a slight remove from fact.
We’re talking subtlety, nuances,
not downright lies. Don’t you forget it:
Your life is yours (at least) to edit.

Republicação: poema publicado na página originalmente em 14/02/2019

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