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Emily Montgomery – Algo Bonito

Algo Bonito para Chris Eu quis reservar algo bonito para você.As últimas três joias de romãs reluzentesequilibradas na palma da minha mão antes que eu as comesse.O canto matinal dos pássaros no limoeiro depois de você ter ido trabalhar,a lembrança da chuva da noite passada ainda impressa no gramado.Ou antes, a enigmática esfericidade da luasobre…
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José Fernando Guedes – Coeso é o tempo

Coeso é o tempo em cada tênue segundoQue logo se desfaz e se reconstróiComo uma linguagem de gestos que o universoElabora sem que percebamos. E mesmo no interior de cada segundoHá suficiente espaço para se fazer o bem ou o malPorque é assim mesmo que acontece: o mal ou o bemInfinitesimais, germinam e brotam no…
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Caitlyn Siehl – Uma carta ao amor

O primeiro poema que escrevi que não era sobre vocêestava todo em maiúsculascomo se tentasse compensara sua ausência. Era sobre um mundo distante do nossoonde todas as plantas eram aterrorizantes,mas tinham poderes de cura se tivéssemos a coragemde tocá-las. O primeiro poema que escrevi que não era sobre vocêinchou sua garganta como um sapoe implorou…
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Raymond Carver – A carteira do meu pai

Muito antes de pensar em sua própria mortemeu pai dizia que gostaria de descansar pertodos seus pais. Sentia muita falta delesdesde que tinham partido.Falou isso o bastante para que minha mãe se lembrasse,e eu me lembrasse. Mas quando o ardeixou seus pulmões e todo sinal de vidase extinguiu, ele se encontrava numa cidadea 512 milhas…
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Raymond Antrobus – Duas armas no céu para Daniel Harris

Quando Daniel Harris saiu do carro1,o policial estava à espera. Arma erguida. Uso o pretérito, embora seja irrelevantena língua de Daniel, que é a dos sinais. Sinais não têm futuro nem pretérito; é língua do presente.Nunca se está mais presente do que quando uma arma é apontada para você. Que língua expressa issose não a…
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Francisco Brines – A Piedade do Tempo

Em que escuro recanto do tempo que morreuvivem ainda,a arder, aquelas coxas? Dão luz aindaa estes olhos tão velhos e enganados,que voltam agora a ser o milagre que foram:desejo de uma carne, e a alegriado que não se nega. A vida é o naufrágio de uma obstinada imagemque já nunca saberemos se existiu,pois só pertence…
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Arthur W. Frank – Um senso de encantamento

A única diferença realentre as pessoasnão é saúde ou doença,mas como cada uma mantémum senso de valorna vida. Quando sinto que não tenho tempopara sair e contemplara luz do solno rio, minha recuperação foi longe demais. Um pouco de medo está tudo bem. Está tudo bemsaberque em um mêseu poderia estar deitadoem uma cama de…
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Paulo Henriques Britto – Uma nova teoria de tudo

Todas as coisas que existem no mundofazem sentido. Senão não teriasentido elas serem. Ou estarem. Tudomais depende desse princípio. Os dias vêm antes das noites, não depois. Nuncafaz parte de sempre, assim como zeroé apenas um número entre outros números.Toda forma é perfeita: não só a esfera, que é só mais redonda que as outras…
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Charles Simic – Minha contenda com o Infinito

Eu preferia o fugaz,Como a lembrança de um gole de vinhoDe nobre safraNa língua, de olhos fechados… Quando me tocaste no ombro,Ó luz, inexprimível em teu esplendor,Em nada me ajudaste.Apenas prolongaste minha insônia. Estava absorto no espetáculo,Secretamente lamentando o fugidio:Todos os seus beijos e encantosProvisórios, de vida breve. Aqui, com o novo dia surgindo,E um…
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Joan Margarit – Esboço para um Epílogo

Diante de ti sentes um rumor de passosque vem do futuro, essa torredemolida antes de ser construída.Só existe a dúvida moral: ama,não penses na camada de póa que tanto aludes, ostensivamente,quando dizes: “minha vida”.E, do prestígio das negações,desconfia: a vida representanão só a vitória dos anossobre nós. Também nos ensinaquão gloriosa foinossa vitória inicial sobre…