Quando Daniel Harris saiu do carro1,
o policial estava à espera. Arma erguida.
Uso o passado, embora isso seja irrelevante
na língua de Daniel, que é a língua de sinais.
A língua de sinais não têm futuro nem passado; é uma língua presente.
Você nunca está mais presente do que quando uma arma
é apontada para você. Que língua expressa isso
se não a de sinais? Mas o policial viu mãos
se agitando no ar, disparou e Daniel deixou cair
as mãos, o peito vertendo sangue sobre o concreto
a metros de sua casa. Estou no Breukelen Coffee House,
em Nova Iorque, lendo essa notícia no celular,
quando uma policial negra entra, duas armas
nos quadris, meu amigo ao meu lado lendo
a seção de comentários: Black Lives Matter2.
Agora, o que poderíamos sinalizar ou dizer em voz alta
quando a última palavra que aprendi em ASL3 foi vivo?
Vivo — os dois polegares apontando para a parte inferior do seu abdômen,
os indicadores apontando para cima, como duas armas no céu.
Trad.: Nelson Santander
1. Daniel Harris, homem surdo de 29 anos, foi morto por um policial na Carolina do Norte, Estados Unidos, em agosto de 2016, perto de sua casa. Reportagem contemporânea sobre o caso, em inglês.;
2. Black Lives Matter: “Vidas Negras Importam”, lema e nome de um movimento de combate ao racismo e à violência contra pessoas negras, surgido nos Estados Unidos em 2013.
3. ASL: American Sign Language, língua de sinais americana, com gramática própria, distinta do inglês e da Libras. A afirmação do poema sobre a ausência de passado e futuro é uma formulação poética: a ASL expressa essas relações por sinais temporais e pelo contexto.

Two Guns in the Sky for Daniel Harris
When Daniel Harris stepped out of his car
the policeman was waiting. Gun raised.
I use the past tense though this is irrelevant
in Daniel’s language, which is sign.
Sign has no future or past; it is a present language.
You are never more present than when a gun
is pointed at you. What language says this
if not sign? But the police officer saw hands
waving in the air, fired and Daniel dropped
his hands, his chest bleeding out onto concrete
metres from his home. I am in Breukelen Coffee House
in New York, reading this news on my phone,
when a black policewoman walks in, two guns
on her hips, my friend next to me reading
the comments section: Black Lives Matter.
Now what could we sign or say out loud
when the last word I learned in ASL was alive?
Alive — both thumbs pointing at your lower abdominal,
index fingers pointing up like two guns in the sky.

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