Fleur Adcock – Para uma criança de cinco anos

Um caracol escala o peitoril da janela
do seu quarto, depois de uma noite de
chuva. Você me chama para ver,
e eu explico que seria cruel deixa-lo lá:
ele pode rastejar até o chão; devemos cuidar
para que ninguém o esmague. Você entende
e o carrega para fora, com mão diligente,
para comer uma flor amarela.

Vejo, então, que prepondera uma espécie de certeza:
sua bondade ainda é moldada por palavras que vêm
de mim, que aprisionava ratos e alvejava pássaros também,
de mim, que afoguei os seus gatinhos, que traí
seus parentes mais próximos, e que abasteci
das verdades mais duras muitos outros.
Mas é assim que as coisas são: eu sou sua mãe,
e nós tratamos os caracóis com gentileza.

Trad.: Nelson Santander

For a Five-Year-Old

A snail is climbing up the window-sill
into your room, after a night of rain.
You call me in to see, and I explain
that it would be unkind to leave it there:
it might crawl to the floor; we must take care
that no one squashes it. You understand,
and carry it outside, with careful hand,
to eat a daffodil.

I see, then, that a kind of faith prevails:
your gentleness is moulded still by words
from me, who have trapped mice and shot wild birds,
from me, who drowned your kittens, who betrayed
your closest relatives, and who purveyed
the harshest kind of truth to many another.
But that is how things are: I am your mother,
and we are kind to snails.

Mark Wunderlich – Peônias

No pátio, as peônias rebentam em brancos corações,
rebordos arredondados que desabrocham apenas para elas.
Sua simplicidade, a lâmina disso, fende a manhã.

Neste Brooklyn de pátios aureolados por arames farpados
e roupas sujas balançando como bandeiras de rendição,
vapor de resina flutuando até essas janelas,

sombras viajando dos pulmões de um fumante,
eu observo o helicóptero da polícia ameaçar a vizinhança,
seu motor provocando o casamento de inúmeras fechaduras

e chaves. Mesmo agora, diante dessa doença,
há um movimento para frente, necessidades americanas
forçando minha mão, todo dia uma pérola opaca

pendurada num frágil fio. A última vez que a vi,
mantive minha mão sobre você enquanto você dormia, imaginando o calor
aumentando em verde e vermelho, como em uma imagem térmica,

seu corpo desistindo de seu único tesouro. Há
tanta selvageria nesta negligência – tensão muscular,
falha de fluido, a carne recuando

do osso até ficarmos com a marca
e a fratura indeléveis, nossas células estilhaçando
no cérebro de um sobrevivente como imagens granuladas,

a única maneira de perdurarmos. Eu lhe trouxe peônias
rosa, como uma concha, como um céu, uma boca,
uma criança, um infinito, uma crise, um ponto final.

Trad.: Nelson Santander

Peonies

In the yard, peonies burst their white hearts,
scalloped edges unfolding only for themselves.
Their simplicity, the blade of it, cuts the morning.

In this Brooklyn of yards haloed in razor wire
and laundry flapping like flags of surrender,
resin smoke drifting up to these windows,

traveled shadows from a smoker’s lungs,
I watch the police helicopter menace the neighborhood,
its engine hooking together manifold locks

and keys. Even now, in the face of this sickening,
there is forward movement, American needs
forcing my hand, each day a dull pearl

strung on a weakening line. The last time I saw you,
I held my hand over you while you slept, imagining heat
rising in green and red, as in a photograph of heat,

your body giving up its one treasure. There
is such savagery in this neglect – muscle strain,
fluid failure, the flesh receding

from bone until we are left with the indelible
print and fracture, our cells snapping
in a survivor’s brain like grainy pictures,

the only way we’ll last. I brought you peonies
pink, like a shell, like a heaven, a mouth,
an infant, an infinity, a crisis, an end.

Carlos Drummond de Andrade – Aniversário

Um verso, para te salvar
de esquecimento sobre a terra?
Se é em mim que estás esquecida,
o verso lembraria apenas
esta força de esquecimento,
enquanto a vida, sem memória,
vaga atmosfera, se condensa
na pequena caixa em que moras
como os mortos sabem morar.

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Lisel Mueller – Românticos

Românticos

Johannes Brahms e Clara Schumann

Os biógrafos modernos se preocupam
em “o quão longe” foi sua terna amizade.
Eles se perguntam o que exatamente significa
quando ele escreve que pensa nela constantemente,
seu anjo da guarda, amada amiga.
Os biógrafos modernos fazem a
rude e irrelevante indagação
de nossa era como se o evento
de dois corpos entrelaçados
estabelecesse a medida do amor,
esquecendo o quão suavemente Eros caminhava
no século dezenove, e como uma mão
estendida por muito tempo ou um olhar ancorado
nos olhos de alguém podia desalojar um coração,
e as nuances de expressões não conhecidas
por nossa linguagem igualitária
podiam fazer o redolente ar
tremer e brilhar com o calor
da possibilidade. Toda vez que eu ouço
os Interlúdios, tristes
e pródigos em sua ternura,
imagino os dois
sentados em um jardim
entre rosas tardias
e escuras cascatas de folhas,
deixando a paisagem falar por eles,
não nos deixando nada para ouvir.

Trad.: Nelson Santander

Romantics

Johannes Brahms and Clara Schumann

The modern biographers worry
“how far it went,” their tender friendship.
They wonder just what it means
when he writes he thinks of her constantly,
his guardian angel, beloved friend.
The modern biographers ask
the rude, irrelevant question
of our age, as if the event
of two bodies meshing together
establishes the degree of love,
forgetting how softly Eros walked
in the nineteenth-century, how a hand
held overlong or a gaze anchored
in someone’s eyes could unseat a heart,
and nuances of address not known
in our egalitarian language
could make the redolent air
tremble and shimmer with the heat
of possibility. Each time I hear
the Intermezzi, sad
and lavish in their tenderness,
I imagine the two of them
sitting in a garden
among late-blooming roses
and dark cascades of leaves,
letting the landscape speak for them,
leaving us nothing to overhear.

Patricia Hampl – É assim que a memória funciona

Você está desembarcando de um trem.
Uma noite úmida e vazia, o cheiro de cinzas.
Uma rajada de vapor vinda da locomotiva rodopia
ao redor da bainha do seu sobretudo, ao redor
da mão que segura a valise de couro marrom,
a mão que, há pouco, penteou para trás
o cabelo e em seguida ajeitou o fedora
defronte a um espelho com as bordas
bisotadas na cabine de cerejeira.

A garota parada na plataforma
em um vestido dos anos quarenta
tem os cabelos ondulados, ela usa
meias de náilon — não, meias de seda ainda.
Seus ombros são comoventemente militares,
moldados por aquelas ombreiras
e uma encantadora fé nos Aliados.
Ela está esperando por você.
Ela pode estar de chapéu, se você quiser.

Você a vê primeiro.
Isso é parte da beleza:
você flagra o semblante puro e ansioso,
o lírico vestido, a surpresa.
Você pode dispor do vapor,
da estação lotada, do casaco de pelo de camelo,
do couro verdadeiro e dos fechos de bronze na valise;
você pode fazer as luzes brilharem com
um estranho significado, e os pretos vagões
que passam por você são antigos, mas comuns.

A garota é sua,
o vestido florido, a caminhada
até o bonde, um sanduíche de ovo frito
e uma piada sobre Mussolini.
Você pode dispor disso tudo:
você está nesse mundo, da única maneira
de lá estar agora, contratado
por seu silencioso martelo, para pregar quadros
nas paredes desta mansão
feita do mais fino ar.

Trad.: Nelson Santander

This is how memory works

You are stepping off a train.
A wet blank night, the smell of cinders.
A gust of steam from the engine swirls
around the hem of your topcoat, around
the hand holding the brown leather valise,
the hand that, a moment ago, slicked back
the hair and then put on the fedora
in front of the mirror with the beveled
edges in the cherrywood compartment.

The girl standing on the platform
in the Forties dress
has curled her hair, she has
nylon stockings—no, silk stockings still.
Her shoulders are touchingly military,
squared by those shoulder pads
and a sweet faith in the Allies.
She is waiting for you.
She can be wearing a hat, if you like.

You see her first.
That’s part of the beauty:
you get the pure, eager face,
the lyrical dress, the surprise.
You can have the steam,
the crowded depot, the camel’s-hair coat,
real leather and brass clasps on the suitcase;
you can make the lights glow with
strange significance, and the black cars
that pass you are historical yet ordinary.

The girl is yours,
the flowery dress, the walk
to the streetcar, a fried egg sandwich
and a joke about Mussolini.
You can have it all:
you’re in that world, the only way
you’ll ever be there now, hired
for your silent hammer, to nail pictures
to the walls of this mansion
made of thinnest air.

Howard Nemerov – Figuras de pensamento

Colocar a espiral logarítmica na
Concha e no papel, e vê-las se encaixar,
Observar a mesma ideia funcionar
Na subida do piloto de caça, ajustando a mira
Em seu alvo, preparando a matança,
E no voo de certos insetos estrábicos
Que não conseguem ver que voam para a morte
Mas têm que lançar nela seu olhar de esguelha
E dirigir-se, mas girando, para a chama da vela —

Quão secreto isso é, e quão privilegiados
Nos sentimos ao encontrar a mesma necessidade
Cifrada em formas diversas e, além disso,
Sem parentesco — esta é a beleza
Na natureza como na arte, não óbvia,
Não inacessível, mas entre ambas.

Pode diminuir um pouco nosso estéril deleite
Imaginar se tudo o que somos e fazemos
Está sujeito a alguma pequena lei como esta;
Oculta na natureza, mas não tão profundamente.

Trad.: Nelson Santander

FIGURES OF THOUGHT

To lay the logarithmic spiral on
Sea-shell and leaf alike, and see it fit,
To watch the same idea work itself out
In the fighter pilot’s steepening, tightening turn
Onto his target, setting up the kill,
And in the flight of certain wall-eyed bugs
Who cannot see to fly straight into death
But have to cast their sidelong glance at it
And come but cranking to the candle’s flame —

How secret that is, and how privileged
One feels to find the same necessity
Ciphered in forms diverse and otherwise
Without kinship — that is the beautiful
In Nature as in art, not obvious,
Not inaccessible, but just between.

It may diminish some our dry delight
To wonder if everything we are and do
Lies subject to some little law like that;
Hidden in nature, but not deeply so.

Javier Salvago – Nada, nada importa

Se os anos ensinam alguma coisa
é a pouca importância
que tudo tem.
Tudo,
cedo ou tarde, passa.
O amor, que vai
como veio. A vaga
juventude, com seus sonhos,
suas grandes esperanças.
Dias de vinho e de rosas,
tempos de abundância
do coração. O brilho.
A beleza. A vontade
de levar a vida
adiante. As presunçosas
ilusões
— estrelas
que subitamente se apagam
e nos deixam em uma
noite escura da alma —.
A dor que julgavas
infinita. A ânsia
de obter aquilo
que, obtido, não é nada.
A vaidade, suas pompas:
glória, fortuna, fama,
ela mesma, suas obras,
sombras de um sonho, geada,
orvalho de uma noite
que o sol de outra manhã
derrete, vaidades,
miragens, fantasmas…

Se os anos ensinam alguma coisa
é que tudo acaba.
Que nada, neste jogo,
dura, nada importa.

Mayo, 1997

Trad.: Nelson Santander

 

Nada importa nada

Si algo enseñan los años
es la poca importancia
que tiene todo.
Todo,
tarde o temprano, pasa.
El amor, que se va
como viene. La vaga
juventud, con sus sueños,
sus grandes esperanzas.
Días de vino y rosas,
épocas de abundancia
del corazón. El brillo.
La belleza. Las ganas
de llevarse a la vida
por delante. Las fatuas
ilusiones
— estrellas
que de pronto se apagan
y nos dejan en una
noche oscura del alma—.
El dolor que creías
interminable. El ansia
por conseguir aquello
que, conseguido, es nada.
La vanidad, sus pompas:
gloria, fortuna, fama,
uno mismo, sus obras,
sombras de un sueño, escarcha,
rocío de una noche
que el sol de otra mañana
derrite, vanidades,
espejismos, fantasmas…

Si algo enseñan los años
es que todo se acaba.
Que nada, en este juego,
dura ni importa nada.

Mayo, 1997

Joan Margarit – Noturno em Solivella

Vens da visita que fizeste ao vinhedo, à noite.
Detiveste o trator entre as cercas de arame
onde se embalam, verdes e densas, as videiras,
e escutaste a terra à tua volta.
O restaurante te dá dinheiro,
mas de madrugada, com ele já fechado,
fazendo um café para ti no balcão,
pensas o quanto gostas de, à noite, visitar
sozinho os arames do vinhedo.
Este local sem ninguém te lembra
quando era um bar de aldeia, com os velhos
que perto do fogão jogavam cartas.
Na penumbra, ocultava-se um Deus
encurralado como as garrafas
de anis que ninguém mais pedia,
ou como os retratos dos mortos
do refeitório, o oleado, como uma bandeira
cobrindo um caixão, sobre a mesa.
Alguns deles transportavam vinho
– voltando com carvão – para os Pirineus.
Talvez seja a solidão que te atrai
ao vinhedo à noite. Houve um outro
apostador que acabou no curral
pendurado pelas rédeas em uma viga.
Talvez tenha apostado a vida dele na tua.
E aquela bisavó fuzilada
ao pé do cemitério: legou-te
a fúria de existir. São negros melros
que a mão da morte deteve em pleno voo.
Haver vivido um dia é uma centelha
brilhante em uma escura eternidade
sem qualquer retorno ou ressurreição.
Era isto o que telegrafavam as fileiras
de arames através do vinhedo, à noite.

Trad.: Nelson Santander

Nocturno en Solivella

Vienes de recorrer las viñas en la noche.
Detuviste el tractor entre las alambradas
donde se emparran verdes y tupidas las cepas,
y escuchaste la tierra a tu alrededor.
Te va dando dinero el restaurante,
pero de madrugada, ya cerrado,
haciéndote un café en el mostrador,
piensas cuánto te gusta a solas recorrer,
de noche, los alambres de las viñas.
Este local sin nadie te recuerda
cuando era un bar de pueblo, con los viejos
que cerca de la estufa jugaban a las cartas.
En la penumbra se ocultaba un Dios
arrinconado como las botellas
de anís que nadie ya solicitaba,
o como los retratos de los muertos
del comedor, el hule, igual que una bandera
cubriendo un ataúd, sobre la mesa.
Alguno de ellos transportaba vino
– volviendo con carbón – al Pirineo.
Quizá es su soledad la que te atrae
de noche hasta las viñas. Otro fue
un jugador y terminó en la cuadra
colgado con las riendas de una viga.
Quizá apostó su vida por la tuya.
Y aquella bisabuela fusilada
al pie del cementerio: te legó
la furia de existir. Son negros mirlos
que paró en pleno vuelo la mano de la muerte.
Haber vivido un día es una chispa
brillante en una oscura eternidad
sin vuelta alguna ni resurrección.
Esto telegrafían las hileras
de alambres por las viñas en la noche.

William Blake – A mosca

Pequena Mosca,
Teus jogos de estio
Minha irrefletida
Mão os destruiu.

Pois como tu,
Mosca não sou eu?
E não és tu
Homem como eu?

Eu canto e danço e
Bebo, até que vem
Mão cega arrancar-me
As asas também.

Se é o pensamento
Vida, sopro forte,
E a ausência do
Pensamento morte,

Então eu sou
Uma mosca travessa,
Mesmo que viva
Ou que pereça.

Trad.: José Paulo Paes

The Fly

Little fly,
Thy summer’s play
My thoughtless hand
Has brushed away.

Am not I
A fly like thee?
Or art not thou
A man like me?

For I dance
And drink and sing,
Till some blind hand
Shall brush my wing.

If thought is life
And strength and breath,
And the want
Of thought is death,

Then am I
A happy fly,
If I live,
Or if I die.

Antonio Carlos Secchin – [Não, não era ainda a era da passagem]

Não, não era ainda a era da passagem
 do nada ao nada, e do nada ao seu restante.
 Viver era tanger o instante, era linguagem
 de se inventar o visível, e era bastante.
 Falar é tatear o nome do que se afasta.
 Além da terra, há só o sonho de perdê-la.
 Além do céu, o mesmo céu, que se alastra
 num arquipélago de escuro e de estrela.