Friedrich Hölderlin – Outrora e Agora

De manhã era feliz, quando jovem,
E à noite chorava; já hoje, mais velho,
Começo meu dia em dúvida, porém
Seu fim é para mim sagrado e sereno.

Trad.: Antonio Cicero

Ehmals und jetzt

In jüngern Tagen war ich des Morgens froh,
Des Abends weint’ich; jetzt, da ich älter bin,
Beginn ich zweifelnd meinen Tag, doch
Heilig und heiter ist mir sein Ende.

REPUBLICAÇÃO. Poema publicado originalmente no blog em 17/02/2016.

Ana Luísa Amaral – Silogismos

A minha filha perguntou-me
o que era para a vida inteira
e eu disse-lhe que era para sempre.
Naturalmente, menti,
mas também os conceitos de infinito
são diferentes: é que ela perguntou depois
o que era para sempre

e eu não podia falar-lhe em universos
paralelos, em conjunções e disjunções
de espaço e tempo,
nem sequer em morte.

A vida inteira é até morrer,
mas eu sabia ser inevitável a questão
seguinte: o que é morrer?

Por isso respondi que para sempre
era assim largo, abri muito os braços,
distraí-a com o jogo que ficara a meio.

(No fim do jogo todo,
disse-me que amanhã
queria estar comigo para a vida inteira)

Linda Pastan – Considere o espaço entre as estrelas

Considere o espaço branco
entre as palavras em uma página, não só
as margens ao redor delas.
Ou o espaço entre pensamentos:
instantes em que a mente está inventando
exatamente o que pensa
e a boca espera
para ser preenchida com linguagem.
Considere o espaço
entre os amantes após uma discussão,
o lençol branco uma fria metáfora
entre eles.
Agora imagine o breve espaço
antes que a morte entre, chapéu na mão:
estes anos evanescentes, repletos de luz.

Trad.: Nelson Santander

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Consider the Space Between Stars

Consider the white space
between words on a page, not just
the margins around them.
Or the space between thoughts:
instants when the mind is inventing
exactly what it thinks
and the mouth waits
to be filled with language.
Consider the space
between lovers after a quarrel,
the white sheet a cold metaphor
between them.
Now picture the brief space
before death enters, hat in hand:
these vanishing years, filled with light.

Jorge Luis Borges – Limites

Há uma linha de Verlaine que não voltarei a recordar,
Há uma rua próxima que está vedada a meus passos,
Há um espelho que me viu pela última vez,
Há uma porta que fechei até o fim do mundo.
Entre os livros de minha biblioteca (estou vendo-os)
Há algum que já nunca abrirei.
Este verão cumprirei cinqüenta anos:
A morte me desgasta, incessante.

Trad.: Antonio Cicero

REPUBLICAÇÃO. Poema publicado no blog originalmente em 17/02/2016.

Límites

Hay una línea de Verlaine que no volveré a recordar,
Hay una calle próxima que está vedada a mis pasos,
Hay un espejo que me ha visto por última vez,
Hay una puerta que he cerrado hasta el fin del mundo.
Entre los libros de mi biblioteca (estoy viéndolos)
Hay alguno que ya nunca abriré.
Este verano cumpliré cincuenta años:
La muerte me desgasta, incesante.

De Inscripciónes (Montevideo, 1923), de Julio Platero Haedo

Friedrich Hölderlin – A Brevidade

“Por que és tão breve? Não amas mais, como outrora,
O canto? Quando jovem, não chegavas,
Nos dias de esperança,
Nunca ao fim, quando cantavas!”

Tal qual minha sorte é meu canto. – Queres ao arrebol
Banhar-te alegremente? Foi-se! E a terra está fria
E o pássaro da noite esvoaça
incomodamente aos olhos teus.

Trad. Antonio Cícero

REPUBLICAÇÃO. Poema publicado originalmente no blog em 17/02/2016.

Nicholas Christopher – Terminus

Terminus

Eis uma leitura obrigatória
no final do nosso século
o final de um milênio que começou com as cruzadas

A transcrição de uma entrevista
entre um médico da Cruz Vermelha
e uma menina muçulmana de doze anos
na Bósnia
que descreveu os estupros que sofreu nas mãos de homens
que se autodenominavam soldados
diferentes homens todas as noites um após o outro
seis sete oito deles
por uma semana
enquanto ela estava acorrentada pelo pescoço
a uma cama em sua antiga escola
onde ela viu seus pais e seus irmãos
terem suas gargantas cortadas e línguas arrancadas
onde sua cunhada de
dezenove anos de idade e amamentando um bebê
também foi estuprada noite após noite
até que ela ousou implorar por água
porque seu leite havia secado
momento em que um dos homens
arrancou a criança de seus braços
e como se estivesse “debulhando uma espiga de milho”
(palavras da menina)
decepou a cabeça da criança
com uma faca de caça
jogou-a no colo da mãe
e estuprou a menina novamente
estapeando-a no rosto
manchando-a com o sangue do sobrinho
e depois alvejou a mãe
que havia começado a gritar
com a cabeça de olhos arregalados em seu colo
enfiando a arma em sua boca
e atirando duas vezes

Tudo isso relatado ao médico
num tom monótono
quase sussurrado em uma tenda
ao lado de um álgido rio
onde a menina apareceu enregelada
vestindo apenas uma combinação suja
seus cabelos arrancados
seus dentes quebrados

Toda história que você já leu
conta que é isso o que homens fazem
que isso é apenas uma réstia do reflexo
da besta
que é um elemento fixo da história humana
e os lugares de que você ouviu falar quando era garoto
que foram os últimos campos de perseguição
Auschwitz Dachau Treblinka
e os nomes de seus mortos
e seus inúmeros mortos cujos nomes desapareciam
todos os dias agora descobrem suas listas cheias
de almas gêmeas
novos nomes novos números
de cidades e aldeias
que foram queimadas do mapa

1993 pode muito bem ser 1943
e deve estar claro agora
que a besta em seus muitos disfarces
as bandeiras e paramentos
nos quais ela se enrola
e as rebuscadas denominações que ela assume
nunca pode ser superada
….

Como aquela garota com os dentes quebrados
carregada em uma ambulância
amarrada a uma maca
para não arranhar o próprio rosto
nunca conseguirá fugir dela
não importa para onde vá
solitária ou perdida na multidão
a linha que ela segue
por mais reta ou torta que seja
sempre a levará de volta para aquela sala
como a câmara nas profundezas
do inferno no Alcorão
onde cresce a árvore Zakum
regada por chuvas escaldantes
“que dá frutos que são como cabeças de demônios”

Ao não registrar o nome dela
alguém anotou no fim
da transcrição que a própria menina
não poderia ou não se lembraria dele
e então a descreve como uma sobrevivente

Que claro vem do latim
e significa continuar a viver
para além dos outros

Eu não teria usado essa palavra

(1993)

Trad.: Nelson Santander

Terminus

Here is a piece of required reading
at the end of our century
the end of a millennium that began with the crusades

The transcript of an interview
between a Red Cross doctor
and a Muslim girl in Bosnia
twelve years old
who described her rape by men
calling themselves soldiers
different men every night one after the other
six seven eight of them
for a week
while she was chained by the neck
to a bed in her former schoolhouse
where she saw her parents and her brothers
have their throats slit and tongues cut out
where her sister-in-law
nineteen years old and nursing her baby
was also raped night after night
until she dared to beg for water
because her milk had run dry
at which point one of the men
tore the child from her arms
and as if he were “cutting an ear of corn”
(the girl’s words)
lopped off the child’s head
with a hunting knife
tossed it into the mother’s lap
and raped the girl again
slapping her face
smearing it with her nephew’s blood
and then shot the mother
who had begun to shriek
with the head wide-eyed in her lap
shoving his gun into her mouth
and firing twice

All of this recounted to the doctor
in a monotone
a near whisper in a tent
beside an icy river
where the girl had turned up frostbitten
wearing only a soiled slip
her hair yanked out
her teeth broken

All the history you’ve ever read
tells you this is what men do
this is only a sliver of the reflection
of the beast
who is a fixture of human history
and the places you heard of as a boy
that were his latest stalking grounds
Auschwitz Dachau Treblinka
and the names of their dead
and their numberless dead whose names have vanished
each day now find their rolls swelled
with kindred souls
new names new numbers
from towns and villages
that have been scorched from the map

1993 may as well be 1943
and it should be clear now
that the beast in his many guises
the flags and vestments
in which he wraps himself
and the elaborate titles he assumed
can never be outrun
….

As that girl with the broken teeth
loaded into an ambulance
strapped down on a stretcher
so she wouldn’t claw her own face
will never outrun him
no matter where she goes
solitary or lost in a crowd
the line she follows
however straight or crooked
will always lead her back to that room
like the chamber at the bottom
of Hell in the Koran
where the Zaqqum tree grows
watered by scalding rains
“bearing fruit like devils’ heads”

In not giving her name
someone has noted at the end
of the transcript that the girl herself
could not or would not recall it
and then describes her as a survivor

Which of course is from the Latin
meaning to live on
to outlive others

I would not have used that word

Wislawa Szymborska – O primeiro amor

Dizem
que o primeiro amor é o mais importante.
Isso é muito romântico,
mas não é o meu caso.
Algo entre nós houve e não houve,
se deu e se perdeu.
Não me tremem as mãos
quando encontro as pequenas lembranças
e o maço de cartas atadas com barbante
se ao menos fosse uma fita.
Nosso único encontro depois de anos
foi um diálogo de duas cadeiras
junto a uma mesa fria.
Outros amores
ainda respiram profundamente em mim.
Este não tem alento para suspirar.
E no entanto tal como é
deslembrado,
nem sequer sonhado,
consegue o que os outros ainda não conseguem:
me acostuma com a morte.

Trad. Regina Przybycien

REPUBLICAÇÃO. Poema publicado originalmente no blog em 17/02/2016.

Stanley Kunitz – O retrato

Minha mãe nunca perdoou meu pai
por ter-se suicidado,
especialmente em um momento tão estranho
e em um parque público,
naquela primavera
quando eu estava esperando para nascer.
Ela encarcerou o nome dele
em seu armário mais profundo
e não o deixou mais sair,
embora eu pudesse ouvi-lo batendo.
Quando desci do sótão, trazendo
na mão o retrato em tons pastéis
de um estranho de lábios compridos,
bigode valente
e profundos olhos castanhos,
ela o rasgou em pedaços
sem uma única palavra
e estapeou-me com força.
Aos sessenta e quatro anos,
posso sentir minha face
ainda queimando.

Trad.: Nelson Santander

The Portrait

My mother never forgave my father
for killing himself,
especially at such an awkward time
and in a public park,
that spring
when I was waiting to be born.
She locked his name
in her deepest cabinet
and would not let him out,
though I could hear him thumping.
When I came down from the attic
with the pastel portrait in my hand
of a long-lipped stranger
with a brave moustache
and deep brown level eyes,
she ripped it into shreds
without a single word
and slapped me hard.
In my sixty-fourth year
I can feel my cheek
still burning.

Ian Hamilton – Epitáfio

O aroma de rosas velhas e tabaco
Faz-me regressar.
Há quase vinte anos
Que não nos vemos
E a nossa desapegada paixão continua.

Foi isto que me deixaste:
A mão, entreaberta, imóvel
Sobre uma colcha verde.
O bastante para erguer
Alguns poemas melancólicos.

Se então eu te houvesse tocado
Um de nós podia ter sobrevivido.

Trad. Nuno Vidal

REPUBLICAÇÃO. Poema originalmente publicado no blog em 17/02/2016.

Epitaph

The scent of old roses and tobacco
Takes me back.
It’s almost twenty years
Since I last saw you
And our half-hearted love affair goes on.

You left me this:
A hand, half-open, motionless
On a green counterpane.
Enough to build
A few melancholy poems on.

If I had touched you then
One of us might have survived.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Polaroide

Polaroide

para Eugenio Montejo

São sete contra a parede, em pé, e um sentado.
Mal conservam os traços desbotados
pelos anos. Os rostos resistem ao desgaste,
embora já não possuam as cores vivas
que ontem os distinguiram. Entre livros e taças,
os olhares sorridentes, as mãos dadas
celebrando a vida na prata e gelatina*
se apagam na sépia de sua jovem promessa.
No verso da foto estão escritos a data,
os nomes e o local desse encontro. Fomos
ao lançamento do livro de um dos amigos
que aparece na polaroide olhando para o vazio.
Depois houve a festa e mais tarde o acidente
nos levou ao cemitério. Dissemos em voz alta
os seus poemas. Os sete contra a parede, em pé,
um lia. Todos ainda nos lembramos dele
e quase que por hábito visito-o levando
girassóis. Todos envelhecemos,
menos ele, ali de olhos fixos. Ele nos olha
de seus 20 anos, que são os anos de sua ausência,
com olhos infinitos voltados para a câmera,
um verão após o outro, embora comece
a degradar seu tom alaranjado no duro
papel-cartão da fotografia.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: neste verso, o poema parece apresentar um interessante jogo de palavras. O poema descreve a torrente de sensações e lembranças que acomete o eu-lírico do poeta diante de uma velha fotografia. Ora, o filme fotográfico “utilizado em fotografia, é constituído por uma base plástica, (…) sobre a qual é depositada uma emulsão fotográfica. Esta é formada por uma fina camada de gelatina que contém cristais de sais de prata sensíveis à luz que chega a ela através da lente da câmera” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Filme_fotogr%C3%A1fico). Por outro lado, o substantivo “plata” significa também moedas de prata e, por extensão, dinheiro. Assim, o verso tanto pode estar-se referindo à fotografia em si quanto ao conteúdo dela: um grupo de jovens amigos bem sucedidos e bem alimentados celebrando a vida em um passado indeterminado.

Polaroid

para Eugenio Montejo

Son siete contra el muro, de pie, y uno sentado.
Apenas si conservan los rasgos desleídos
por los años. Las caras resisten su desgaste,
aunque ya no posean los nítidos colores
que ayer las distinguieron. Entre libros y copas,
las miradas sonrientes, las manos enlazadas
celebrando la vida de plata y gelatina
se borran en el sepia de su joven promesa.
Por detrás de la foto están escritos la fecha,
los nombres y el lugar de aquel encuentro. Fuimos
a presentar el libro de uno de los amigos
que aparece en la polaroid viendo hacia el vacío.
Después se hizo la fiesta y más tarde el accidente
nos llevó al cementerio. Dijimos en voz alta
sus poemas. Los siete contra el muro, de pie,
uno leía. Todos aún lo recordamos
y casi por costumbre le voy a visitar
con girasoles. Todos hemos envejecido
menos él, ahí en la vista fija. Nos mira
desde sus 20 años, que son los de su ausencia,
con ojos infinitos de frente hacia la cámara,
llevándose un verano tras otro, aunque comience
a degradar su tono naranja sobre el duro
cartón de la fotografía.