Ferreira Gullar – Despedida

Eu deixarei o mundo com fúria.
Não importa o que aparentemente aconteça,
se docemente me retiro.

De fato,
nesse momento
estarão de mim se arrebentando
raízes tão fundas
quanto estes céus brasileiros.
Num alarido de gente e ventania
olhos que amei
rostos amigos tardes e verões vividos
estarão gritando a meus ouvidos
para que eu fique
para que eu fique

Não chorarei.
Não há soluço maior que despedir-se da vida.

REPUBLICAÇÃO. Poema publicado originalmente no blog em 28/03/2016.

Dylan Thomas – Não vás tão docilmente

Não vás tão docilmente nessa noite linda;
Que a velhice arda e brade ao término do dia;
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

Embora o sábio entenda que a treva é bem-vinda
Quando a palavra já perdeu toda a magia,
Não vai tão docilmente nessa noite linda.

O justo, à última onda, ao entrever, ainda,
Seus débeis dons dançando ao verde da baía,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

O louco que, a sorrir, sofreia o sol e brinda,
Sem saber que o feriu com a sua ousadia,
Não vai tão docilmente nessa noite linda.

O grave, quase cego, ao vislumbrar o fim da
Aurora astral que o seu olhar incendiaria,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

Assim, meu pai, do alto que nos deslinda
Me abençoa ou maldiz. Rogo-te todavia:
Não vás tão docilmente nessa noite linda.
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

1945

Trad.: Augusto de Campos


Do not go gentle into that good night

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

1945

Ferreira Gullar – Praia do Caju

Escuta:
o que passou passou
e não há força
capaz de mudar isto.

Nesta tarde de férias, disponível, podes,
se quiseres, relembrar.
Mas nada acenderá de novo
o lume
que na carne das horas se perdeu.

Ah, se perdeu!
Nas águas da piscina se perdeu
sob as folhas da tarde
nas vozes conversando na varanda
no riso de Marília no vermelho
guarda-sol esquecido na calçada.

O que passou passou e, muito embora,
voltas às velhas ruas à procura.
Aqui estão as casas, a amarela,
a branca, a de azulejo, e o sol
que nelas bate é o mesmo
sol
que o Universo não mudou nestes vinte anos.

Caminhas no passado e no presente.
Aquela porta, o batente de pedra,
o cimento da calçada, até a falha do cimento. Não sabes já
se lembras, se descobres.
E com surpresa vês o poste, o muro,
a esquina, o gato na janela,
  em soluços quase te perguntas
  onde está o menino
  igual àquele que cruza a rua agora,
  franzino assim, moreno assim.
      Se tudo continua, a porta
  a calçada a platibanda,
  onde está o menino que também
  aqui esteve? aqui nesta calçada
  se sentou?

  E chegas à amurada. O sol é quente
  como era, a esta hora. Lá embaixo
  a lama fede igual, a poça de água negra
  a mesma água o mesmo
  urubu pousado ao lado a mesma
  lata velha que enferruja.
  Entre dois braços d’água
  esplende a croa do Anil. E na intensa
  claridade, como sombra,
  surge o menino
  correndo sobre a areia. É ele, sim,
  gritas teu nome: “Zeca,
  Zeca!”
      Mas a distância é vasta
  tão vasta que nenhuma voz alcança.

  O que passou passou.
  Jamais acenderás de novo
  o lume
  do tempo que apagou.

REPUBLICAÇÃO. Poema publicado originalmente no blog em 28/03/2016.

Ada Limón – Estrelas extintas

Aqui fora, até as árvores se curvam.
A mão gelada do inverno nas costas de todos nós.
Casca escura, folhas amarelas escorregadias, uma espécie de quietude
tão silenciosa que parece pertencer a outra era.

Ultimamente, sou uma morada de aranhas: um ninho de tentativas.

Apontamos para as estrelas que compõem Órion enquanto levamos o lixo
pra fora, os contêineres coletores, uma canção de trovão suburbano.

É quase romântico enquanto ajustamos a lixeira azul
encerada, até que você diz, Cara, nós deveríamos mesmo aprender
algumas novas constelações.

E é verdade. Sempre esquecemos de Antlia, Centaurus,
Draco, Lacerta, Hydra, Lyra, Lynx.

Mas sobretudo estamos esquecendo que também somos estrelas extintas, minha boca está cheia
de poeira e eu desejo recuperar a ascensão —

inclinarmo-nos juntos sobre os refletores dos postes de iluminação, em direção
ao que temos de maior dentro de nós, em direção a como nós nascemos.

Veja, não somos coisas espetaculares.
Nós chegamos até aqui, e sobrevivemos. O que

aconteceria se decidíssemos sobreviver mais? Amar mais?

E se nos erguêssemos com nossas sinapses e corpos e disséssemos: Não.
Não, à onda crescente.

Pelas inúmeras bocas sem vozes do mar, da terra?

O que aconteceria se usássemos nossos corpos para barganhar

pela segurança dos outros, pela terra,
se proclamássemos uma noite limpa, se deixássemos o medo de lado,

se lançássemos nossas demandas para o céu, e nos tornássemos tão grandes
que as pessoas pudessem apontar para nós com as setas que elas criam em suas mentes,

rolando suas latas de lixo pra fora, depois que tudo isso passar?

Trad.: Nelson Santander

Dead Stars

Out here, there’s a bowing even the trees are doing.
Winter’s icy hand at the back of all of us.
Black bark, slick yellow leaves, a kind of stillness that feels
so mute it’s almost in another year.

I am a hearth of spiders these days: a nest of trying.

We point out the stars that make Orion as we take out
the trash, the rolling containers a song of suburban thunder.

It’s almost romantic as we adjust the waxy blue
recycling bin until you say, Man, we should really learn
some new constellations.

And it’s true. We keep forgetting about Antlia, Centaurus,
Draco, Lacerta, Hydra, Lyra, Lynx.

But mostly we’re forgetting we’re dead stars too, my mouth is full
of dust and I wish to reclaim the rising—

to lean in the spotlight of streetlight with you, toward
what’s larger within us, toward how we were born.

Look, we are not unspectacular things.
We’ve come this far, survived this much. What

would happen if we decided to survive more? To love harder?

What if we stood up with our synapses and flesh and said, No.
No, to the rising tides.

Stood for the many mute mouths of the sea, of the land?

What would happen if we used our bodies to bargain

for the safety of others, for earth,
if we declared a clean night, if we stopped being terrified,

if we launched our demands into the sky, made ourselves so big
people could point to us with the arrows they make in their minds,

rolling their trash bins out, after all of this is over?

Ferreira Gullar – O Que Se Foi

O que se foi se foi.
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.

Se o que foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.

Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.

Então por que me faz
o coração bater tão forte?

REPUBLICAÇÃO. Poema originalmente publicado no blog em 28/03/2016.

Robert Frost – Nada que é de ouro pode permanecer

No mundo, o ouro é o verde elementar,
Sua matiz mais difícil de conservar.
A flor é a sua inaugural semente;
Não obstante por um instante somente.

Depois, folha desaparece sob folha.
E assim, no pesar o Paraíso mergulha,
E a aurora se transforma em amanhecer.
Nada que é de ouro pode permanecer.

Trad.: Nelson Santander

Nothing gold can stay

Nature’s first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf’s a flower;
But only so an hour.

Then leaf subsides to leaf,
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay.

Alfred Lord Tennyson – Ulysses

De nada serve a um rei ficar inerte,
No lar quieto, em meio à rocha infértil,
Unido a esposa idosa, eu doo e imponho
Iníquas leis a um bando de selvagens
Que soma, e dorme, e engorda, e não me vê.

Estou inquieto: Sorverei da vida
A última gota: Sempre gozei muito,
Sofri muito, com todos que me amaram,
E só; em terra firme, ou arrastado
Por negras correntezas irritadas
Pelas Híades: Transformei-me em nome;
Errante sempre, com ardente impulso
Muito vi e conheci; cidades de homens
E costumes, conselhos, climas, regras,
E a mim mesmo, por todos sempre honrado.
Traguei da pugna o gozo junto aos meus,
Longe na Troia dos ventantes plainos.
Sou parte, enfim, de tudo que encontrei;
A experiência é um arco pelo qual
Vislumbro um mundo inexplorado, cuja
Margem se afasta sempre ao meu mover.
Que tolice o parar, o dar um fim,
Enferrujar assim, sem uso e brilho!
Como se respirar fosse viver.
Quão pouco, vidas sobre vidas! Desta,
Pouco resta: mas cada hora é salva
Do que é silêncio eterno, um algo além,
Arauto do que é novo; vil seria
Guardar-me, agrisalhando por três sóis,
A alma cinzenta ardendo por seguir
O saber como um astro que se afoga,
Além do limiar do pensamento.

Este é o meu filho, meu fiel Telêmaco,
Para quem eu relego o cetro e a ilha –
Meu bem-amado, hábil a cumprir
Esse labor, prudente domador
De um povo rude, e mansamente, aos poucos,
Vai sujeitá-los ao que é bom e útil.
Irreprochável, centra-se na esfera
Dos deveres comuns, decente para
Sutis ofícios, prestará tributos
De justa adoração aos nossos deuses
Quando eu me for. Ele obra o dele, eu o meu.

Lá jaz o porto; O barco estufa as velas:
Ensombram grandes mares. Meus marujos,
Almas que lutam, sofrem junto a mim –
Que, jubilosas, acolheram sempre
Trovão e sol ardente, opondo frente
E fronte livres – nós estamos velhos;
Na velhice, persiste a honra e a luta;
A morte é o fim: mas antes, algum feito
Notório e nobre está por se fazer,
Sem impróprios conflitos com os Deuses.
Luzes estão a cintilar nas rochas:
O dia míngua: a lua ascende: o abismo
Gemendo em muitas vozes. Venham, homens,
Não tarda a busca por um novo mundo.
Partam, em ordem todos, e fulminem
As sonoras esteiras; Meu intento
É navegar além-poente, e sob
Estrelas do ocidente, até morrer.
Talvez vorazes golfos nos devorem,
Ou então, nas Afortunadas Ilhas,
Vejamos grande Aquiles, caro a nós;
Mesmo perdendo muito, há muito à frente,
Ainda que como antes não movamos
A Terra e o Céu; O que nós somos, somos;
O mesmo heroico peito temperado,
Fraco por tempo e fado, mas forte a
Lutar, buscar, achar, e não ceder.

Trad.: Rubens Canarim
https://escamandro.wordpress.com/2014/02/13/ulisses-lorde-alfred-tennyson/

REPUBLICAÇÃO. Poema originalmente publicado no blog em 27/03/2016.

Ulysses

It little profits that an idle king,
By this still hearth, among these barren crags,
Match’d with an aged wife, I mete and dole
Unequal laws unto a savage race,
That hoard, and sleep, and feed, and know not me.
I cannot rest from travel: I will drink
Life to the lees: All times I have enjoy’d
Greatly, have suffer’d greatly, both with those
That loved me, and alone, on shore, and when
Thro’ scudding drifts the rainy Hyades
Vext the dim sea: I am become a name;
For always roaming with a hungry heart
Much have I seen and known; cities of men
And manners, climates, councils, governments,
Myself not least, but honour’d of them all;
And drunk delight of battle with my peers,
Far on the ringing plains of windy Troy.
I am a part of all that I have met;
Yet all experience is an arch wherethro’
Gleams that untravell’d world whose margin fades
For ever and forever when I move.
How dull it is to pause, to make an end,
To rust unburnish’d, not to shine in use!
As tho’ to breathe were life! Life piled on life
Were all too little, and of one to me
Little remains: but every hour is saved
From that eternal silence, something more,
A bringer of new things; and vile it were
For some three suns to store and hoard myself,
And this gray spirit yearning in desire
To follow knowledge like a sinking star,
Beyond the utmost bound of human thought.

         This is my son, mine own Telemachus,
To whom I leave the sceptre and the isle,—
Well-loved of me, discerning to fulfil
This labour, by slow prudence to make mild
A rugged people, and thro’ soft degrees
Subdue them to the useful and the good.
Most blameless is he, centred in the sphere
Of common duties, decent not to fail
In offices of tenderness, and pay
Meet adoration to my household gods,
When I am gone. He works his work, I mine.

         There lies the port; the vessel puffs her sail:
There gloom the dark, broad seas. My mariners,
Souls that have toil’d, and wrought, and thought with me—
That ever with a frolic welcome took
The thunder and the sunshine, and opposed
Free hearts, free foreheads—you and I are old;
Old age hath yet his honour and his toil;
Death closes all: but something ere the end,
Some work of noble note, may yet be done,
Not unbecoming men that strove with Gods.
The lights begin to twinkle from the rocks:
The long day wanes: the slow moon climbs: the deep
Moans round with many voices. Come, my friends,
‘T is not too late to seek a newer world.
Push off, and sitting well in order smite
The sounding furrows; for my purpose holds
To sail beyond the sunset, and the baths
Of all the western stars, until I die.
It may be that the gulfs will wash us down:
It may be we shall touch the Happy Isles,
And see the great Achilles, whom we knew.
Tho’ much is taken, much abides; and tho’
We are not now that strength which in old days
Moved earth and heaven, that which we are, we are;
One equal temper of heroic hearts,
Made weak by time and fate, but strong in will
To strive, to seek, to find, and not to yield.

Bei Dao – Resposta

A degradação é o passaporte do vilão,
A nobreza é epitáfio do nobre.
Olhe: como o céu dourado é inundado
do reflexo das sombras torcidas dos mortos.

Passada a época do gelo,
Por que ainda há gelo em toda a parte?
Já foi descoberto O Cabo da Boa Esperança,
por que mil velas ainda competem no Mar Morto?

Eu vim para este mundo
trazendo apenas papel, corda e sombra,
para anunciar antes do julgamento
a voz que tenha sido julgada:

Tenho de lhe dizer, mundo,
Eu-não-acredito!
Mesmo que haja mil desafiantes a seus pés,
conte comigo como o milésimo primeiro.

Não acredito que o céu seja azul;
Não acredito em ecos do trovão;
Não acredito que os sonhos sejam irreais;
Não acredito que a morte não seja retaliada.

Se o mar é destinado a quebrar os diques
deixe todas as águas amargas me encherem o coração;
Se o continente é destinado a crescer
deixe a humanidade optar por outro pico da existência.

Novas mudanças e estrelas a brilhar
estão a adornar o céu sem obstáculos;
São pictogramas de cinco mil anos.
São os olhos atentos das gerações futuras.

Trad.: Yao Feng

The answer

Debasement is the password of the base,
Nobility the epitaph of the noble.
See how the gilded sky is covered
With the drifting twisted shadows of the dead.

The Ice Age is over now,
Why is there ice everywhere?
The Cape of Good Hope has been discovered,
Why do a thousand sails contest the Dead Sea?

I came into this world
Bringing only paper, rope, a shadow,
To proclaim before the judgment
The voice that has been judged:

Let me tell you, world,
I—do—not—believe!
If a thousand challengers lie beneath your feet,
Count me as number thousand and one.

I don’t believe the sky is blue;
I don’t believe in thunder’s echoes;
I don’t believe that dreams are false;
I don’t believe that death has no revenge.

If the sea is destined to breach the dikes
Let all the brackish water pour into my heart;
If the land is destined to rise
Let humanity choose a peak for existence again.

A new conjunction and glimmering stars
Adorn the unobstructed sky now;
They are the pictographs from five thousand years.
They are the watchful eyes of future generations.

Mary Oliver – A serpente negra

Foi quando a serpente negra
apareceu na estrada de manhã,
e o caminhão não conseguiu desviar –
morte, é assim que acontece.

Agora ela jaz enrolada e inútil
como um velho pneu de bicicleta.
Eu paro o carro
e a levo para o mato.

Ela é fria e reluzente
como um chicote trançado, bela e tranquila
como um irmão que morreu.
Eu a deixo sob as folhas

e sigo em frente, refletindo
sobre a morte: sua subitaneidade,
seu peso terrível,
a certeza de sua vinda. Contudo, sob

a razão, arde um fogo mais brilhante, que os ossos
sempre preferiram.
É a narrativa da sorte sem fim.
Ela diz para o oblívio: não comigo!

Ela é a luz no núcleo de cada célula.
Foi o que fez a cobra enrolar-se e fluir para frente
feliz durante toda a primavera através das folhas verdes antes
de chegar à estrada.

Trad.: Nelson Santander

The Black Snake

When the black snake
flashed onto the morning road,
and the truck could not swerve–
death, that is how it happens.

Now he lies looped and useless
as an old bicycle tire.
I stop the car
and carry him into the bushes.

He is as cool and gleaming
as a braided whip, he is as beautiful and quiet
as a dead brother.
I leave him under the leaves

and drive on, thinking
about death: its suddenness,
its terrible weight,
its certain coming. Yet under

reason burns a brighter fire, which the bones
have always preferred.
It is the story of endless good fortune.
It says to oblivion: not me!

It is the light at the center of every cell.
It is what sent the snake coiling and flowing forward
happily all spring through the green leaves before
he came to the road.

Wendell Berry – A cobra

No final de outubro
encontrei no chão da floresta
uma pequena cobra cujas costas
tinham o padrão da escuridão
das folhas mortas em que ela estava deitada.
Seu corpo fora engrossado por um rato
ou um pequeno pássaro. Ela estava fria,
tão entorpecida com a barriga cheia
e o ar do outono que mal se dava ao
trabalho de mexer a língua.
Eu a segurei por muito tempo, refletindo
sobre a perfeição da escura
marca em suas costas, a morte
que a inchou, seu frio vívido.
Agora o frio do seu corpo permanece
em minha mão, e penso nela,
grande, deitada sob a geada
com uma morte para nutri-la
durante um longo sono.

Trad.: Nelson Santander

The Snake

At the end of October
I found on the floor of the woods
a small snake whose back
was patterned with the dark
of the dead leaves he lay on.
His body was thickened with a mouse
or small bird. He was cold,
so stuporous with his full belly
and the fall air that he hardly
troubled to flick his tongue.
I held him a long time, thinking
of the perfection of the dark
marking on his back, the death
that swelled him, his living cold.
Now the cold of him stays
in my hand, and I think of him
lying below the frost,
big with a death to nourish him
during a long sleep.