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Billy Collins – O desfile

Que emocionante foi marcharao longo das grandes avenidasdebaixo do clarão das trombetase sob todas as bandeiras tremulantes —a bandeira da ambição, a bandeira do amor. Tantos de nós fluindo ao longo do caminho —toda a humanidade, na verdade —movendo-se em perfeita sintonia,mas cada qual perdido no quarto de um sonho particular. Como é estimulante a…
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Darcy Ribeiro – A Indesejada

Aí estão eles, os da terceira idade.Gregários, vivem aos bandos.Sentados, jogando cartas, andando devagar.Conversando pretéritos assuntos.Olhando tristes os outros viverem. Antigamente, todos seriam avós, vovozinhos.Hoje, são sogros, os chatos dos sogros.Uns são viúvos, outros largados, poucos.Muitos deles, os mais, ainda casados.As mulheres duram demais. Órfãos de seus filhos, ocupadíssimos.Não reclamam, resmungam disfarçados.Estão todos aflitos, na…
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Carolyn Creedon – Mulher, minada

Na seção de cosméticos da Lord & Tayloreles a levarão para um lugar bem exposto, claro como o dia, e a fotografarão com uma câmera ultravioleta,mostrando-lhe o que você fez com sua pele apenaspor viver, seu rosto subitamente exposto, como aquilo querealmente está acontecendo sob uma tora levantada, a verdadeira vocêque você é, capturada e…
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Darcy Ribeiro – Amor

“Amor”, um poema de Darcy Ribeiro Quero um amor alucinado, depravado, tarado. Amor inteiro, de corpo-a-corpo, enlaçados. Amor sem reserva, que a tudo se entrega, lancinante. (…)
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Donizete Galvão – Ruminações

Nunca saí dessa roceira Minasque nos dá aflição e dor como herança.Lamaçal de bosta de vacano curral bem em frente da casa.Cheiro de leite azedo nos latõese de óleo queimado para expulsar bernes.Jardins de dália e corações magoados,chás de consolda e escaldados de quirera.A avó socando o arroz no pilão,preparando decoada para o sabãoou com…
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Ferreira Gullar – de Sete Poemas Portugueses (4)

Nada vos ofertoalém destas mortesde que me alimento Caminhos não háMas os pés na gramaos inventarão Aqui se iniciauma viagem clarapara a encantação Fonte, flor em fogo,quem é que nos esperapor detrás da noite ? Nada vos sovino:com a minha incertezavos ilumino REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 23/04/2016
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Ellen Bass – Pinheiros de Ponary

Pinheiros de Ponary Cem mil pessoas foram assassinadas pelos nazistas em Ponary, dez quilômetros a sudoeste de Vilnius, onde minha avó nasceu. Hoje está cinzento, garoa,mas não o suficiente para que as gotas se acumulemnas pontas das agulhas de prataou para encharcar as cascas dos pinheiros de Ponary –alguns deles com mais de um século.Eles…
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Caetano Veloso – O Homem Velho

O homem velho deixa a vida e morte para trásCabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca maisO grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinaisO homem velho é o rei dos animais A solidão agora é sólida, uma pedra ao solAs linhas do destino nas mãos a mão apagouEle já tem…
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Anne Sexton – Para um amigo que alcançou o sucesso no trabalho

Considere Ícaro, colando aquelas asas viscosas,experimentando aquele estranho puxão em suas omoplatas,e pense naquele primeiro impecável momento sobre o gramadodo labirinto. Pense em como isso fez diferença!Lá embaixo encontram-se as árvores, tão desajeitadas quanto os camelos;e aqui, os estupefatos estorninhos que passame pensam que o inocente Ícaro está indo muito bem:maior do que uma vela…
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Cassiano Ricardo – O Relógio

Diante de coisa tão doídaconservemo-nos serenos. Cada minuto de vidanunca é mais, é sempre menos. Ser é apenas uma faceDo não ser, e não do ser. Desde o instante em que se nascejá se começa a morrer. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 17/04/2016