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Ellen Bass – Pinheiros de Ponary

Pinheiros de Ponary Cem mil pessoas foram assassinadas pelos nazistas em Ponary, dez quilômetros a sudoeste de Vilnius, onde minha avó nasceu. Hoje está cinzento, garoa,mas não o suficiente para que as gotas se acumulemnas pontas das agulhas de prataou para encharcar as cascas dos pinheiros de Ponary –alguns deles com mais de um século.Eles…
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Ada Limón – Instruções para não desistir

Mais do que os funis fúcsia rompendoda macieira, mais do que a exibição quaseobscena dos galhos da cerejeira do vizinho enfiandosuas flores cor de algodão doce no céu ardósiadas chuvas de primavera, é o verdejar das árvoresque realmente me comove. Quando todo o embate de brancoe caramelo e os berloques e bugigangas do mundo deixam,de…
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Carlos Drummond de Andrade – A Mesa

E não gostavas de festa. . .Ó velho, que festa grandehoje te faria a gente.E teus filhos que não bebeme o que gosta de beber,em torno da mesa larga,largavam as tristes dietas,esqueciam seus fricotes,e tudo era farra honestaacabando em confidência.Ai, velho, ouvirias coisasde arrepiar teus noventa.E daí, não te assustávamos,porque, com riso na boca,e a…
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Jo Shapcott – Observadora de estrelas

Se eu não estou olhando para você, me perdoe; se pareçoestar esqudrinhando o céu,cabeça jogada para trás, curiosa,extática, reservada, andandoaleatoriamente no chãoà sua frente, meu público,me perdoe, e esqueça o que estáacontecendo em minhas células.É em você que estou pensandoe, voz lançada para o alto,é com você que estou falando, você. Estou tentando manter tudo…
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Robinson Jeffers – Cremação

Isto quase anula meu medo de morrer, meu amor falou, Quando eu penso em cremação. Apodrecer na terra É um fim abominável, mas arder em chamas — além disso, estou habituada, Eu ardi com amor ou fúria tanto em minha vida, Não à toa meu corpo está cansado, não à toa está morrendo. Nós fomos felizes com…
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Geoffrey A. Landis – Ondulações no mar de Dirac

Trabalho vencedor do Prêmio Nebula de melhor conto de Ficção Científica de 1989.
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Cynthia Huntington – O arrebatamento

Lembro-me de estar na cozinha, misturando ossos para a sopa,e de que, naquele momento, me tornei outra pessoa. Era uma noite de início de primavera, o ar da Califórnia estava ameno.Lá fora, o eucalipto se curvava compulsivamente sobre o trailer do vizinho, estacionado na entrada da garagem.A rua estava tranquila, pra variar, e todas as…
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Jaime Gil de Biedma – Lembre-se

Bela vida que se foi e parece já não passar Desde então, afundo em sonhos na memória: estremece eterno o tempo lá no fundo. E de repente um redemoinho cresce e me arrasta sugado rumo a um profundo abismo, para onde vai, despenhado, para sempre submergindo o passado. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado no…
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Nelson Ascher – Visita ao asilo

Subsistem devagar nojardim da última infânciasorvendo desdentadosde vida (além de dentes) o caldo-de-galinhahospitalar dos dias.Opacas as retinase os tímpanos à prova de som, eles combinamremorsos de placentadensos de urina e restosmortais que, amortalhados folgadamente em peloacima do seu número,apegam-se obsessivosaos ossos descalci- ficados como, à ideiade podre, os urubus.Sinapse piedosaque, entre neurônios secos, censura todo…
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Jaime Gil de Biedma – Não Voltarei a ser Jovem

Que é certo a vida passasó se começa a compreender mais tarde— como todos os jovens, decidilevar a minha vida por diante. Deixar marca eu queriae partir entre aplausos— envelhecer, morrer, eram somenteas dimensões do teatro. Porém, passou o tempoe a verdade mais amarga assoma:envelhecer, morrer,é o argumento único da obra. Trad.: José Bento REPUBLICAÇÃO:…