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Victoria Kennefick – Monte submarino

Da areia, você aponta onde ficava a loja,os correios, o bar;você me conta que caminhou até o vilarejo quando meninopara ficar nas esquinas, farejar o ar salgado. Tocos se erguem da argila na maré baixa,alinham-se como soldados derrotados, inclinam-se ao vento.Eles já foram árvores, agora lembram apenas ramos,esquecidos do verde vivo das folhas na primavera.…
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Paulo Henriques Britto – Soneto Inglês

A surpresa do amor — quando já não seespera do mundo nada em especial,e a evidência de que os anos vão seacumulando sem nenhum sinalde sentido já não dói nem comove —quando em matéria de felicidadenão se deseja mais que uns novemetros quadrados de privacidadepara abrigar os prazeres amenosdo sexo fácil e da literaturadifícil —…
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Daniel Filipe – Réquiem para um defunto vulgar

Antoninho morreu. Seu corpo resignadoé como um rio incolor, regressando à nascentenum silêncio de espanto e mistério revelado.Está ali – estando ausente. Jaz de corpo inteiro e fato preto.Ele, da cabeça aos pés,trivial e completo,estátua de proa e moço de convés. Jaz como se dormisse (pelo menosé o que dizem as velhas carpideiras).Jaz imóvel, sem…
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Paulo Henriques Britto – Crepuscular

1.Chegamos tarde. (Era sempre maio,sempre madrugada. Tudo era turvo.Éramos em bando. Por medo. Ou tédio. Havia um lobo à solta na cidadeaberta, e uma loucura provisóriaera a nossa premissa, nossa promessa. Era preciso estar o tempo todoatento, em transe, em trânsito, no assédioa um ou outro flanco do lobo, fugindo de junho, perseguindo o agora,correndo…
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Joan Margarit – Amar é onde

Sentado em um trem olho a paisageme de repente, fugaz, passa um vinhedocomo o relâmpago de uma verdade.Seria um erro descer do tremporque então a vinha já não haveria.Amar é onde, algo sempre o evoca:um telhado ao longe, o palco desprovido(no chão, uma rosa) de um maestro,os músicos que hoje tocam sozinhos.Teu quarto ao amanhecer.E,…
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Paulo Henriques Britto – Memento Mori II

Luz frágil que brota no breue num rápido relance dá formae cor e corpo às coisas todas, luz que se apega o pouco que podeàs aparências, acredita piamenteno sonho de substância que secretam, luta com todas as parcas forçascontra o conforto de apagar-se enfimpor trás de duas implacáveis pálpebras. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente…
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Laura Gilpin – O bezerro de duas cabeças

Amanhã, quando os rapazes da fazenda encontrarem estaaberração da natureza, eles envolverão seu corpo em jornal e o levarão para o museu. Mas esta noite ele está vivo e no campoao norte, com sua mãe. É uma noite perfeita de verão: a lua crescente sobreo pomar, o vento na grama. Equando ele olha para o…
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Paulo Henriques Britto – Memento Mori I

Nenhum sinal da solidão se vêlá onde o amor corrói a carne a fundo.Dentro da pele, no entanto, vocêé só você contra o mundo. Esta felicidade que abasteceseu organismo, feito um combustível,é volátil. Tudo que sobe desce.Tudo que dói é possível. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 26/12/2022
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Gabrielle Calvocoressi – Sinto a sua falta. Gostaria de dar um passeio com você.

Não importa se você acabou de chegar em seu esqueleto.Adoraria dar um passeio com você. Sinto a sua falta.Adoraria preparar um camarão saganaki para você.Como você costumava me fazer quando estava viva.Adoraria alimenta-la. Sentarmo-nos com uma fumegantetigela de pilaf. Pequenos tomates tostadoscobertos de pimenta e noz-moscada. Sinto a sua falta.Adoraria caminhar até os correios com…
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Paulo Henriques Britto – Acalanto

Noite após noite, exaustos, lado a lado,digerindo o dia, além das palavrase aquém do sono, nos simplificamos, despidos de projetos e passados,fartos de voz e verticalidade,contentes de ser só corpos na cama; e o mais das vezes, antes do mergulhona morte corriqueira e provisóriade uma dormida, nos satisfazemos em constatar, com uma ponta de orgulho,a…