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Li-Young Lee – Das flores

Das flores vemeste saco de papel pardo com os pêssegosque compramos do meninona curva da estrada onde dobramos em direção às placas escritas Pêssegos. Dos galhos carregados, das mãos,da doce comunhão nas latas,vem o néctar da beira da estrada, suculentospêssegos que devoramos, com a pele empoeirada e tudo,vem o pó familiar do verão, pó que…
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Raymond Carver – O que o médico disse

Ele disse não parece bomele disse parece mau aliás muito mauele disse eu contei trinta e dois deles em um pulmão antesde parar de contareu disse fico feliz não ia querer saberque tem mais do que isso láele disse por acaso você é religioso você se ajoelhaem bosques na floresta e se permite pedir ajudaquando…
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Malena Mörling – Simplesmente iluminado

Muitas vezes no fim da tarde,depois de outro dia, depois demais um ano de dias,no meio da noite a caminho de casaeu paro na loja de conveniência e, aguardando na fila, me pegoperguntando sobre as pessoas. Eu me perguntose elas também se perguntam como é estranho que estejamosaqui na terra.E como, para poder viver, todos…
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Raymond Carver – Medo

Medo de ver a polícia estacionar à minha porta.Medo de dormir à noite.Medo de não dormir.Medo de que o passado desperte.Medo de que o presente alce voo.Medo do telefone que toca no silêncio da noite.Medo de tempestades elétricas.Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo!Medo de cães que supostamente não mordem.Medo da ansiedade!Medo de…
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Javier Salvago – Canção para esse dia

Agora simjá se vêo porvir.Agora simé o fim que está aqui. Que esta é– agora sim –a vetustez:a aridez,não esperarnenhum trem. Agora simo naviovai partir.Sem saberse é o fimou o além. Acabou,não há maisshow.Cai a cortina,Diz adeuso ator. Agora simé o fimque está aqui.Agora simjá se vêo porvir. Trad.: Nelson Santander Canción para ese día…
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Carlos Rennó – HINO ao Inominável
HINO ao Inominável “Sou a favor da ditadura”, disse ele,“Do pau de arara e da tortura”, concluiu.“Mas o regime, mais do que ter torturado,Tinha que ter matado trinta mil”.E em contradita ao que afirmou, na caraduraDisse: “Não houve ditadura no país”. E no real o incrível, o inacreditávelEntrou que nem um pesadelo, infeliz,Ao som raivoso…
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Margaret Atwood – Um barco

A noite chega e as colinas adensam-se;desvanecimento rubro e amarelo das folhas.Os gélidos pinheiros se alongam em suas sombras. Abaixo deles, a água silencia,um pôr do sol tremeluzindo nela.Mais um que desce para se juntar aos outros. Agora o lago se expandee se fecha, simultaneamente. A escuridão que se mantém sob a superfície durante o…
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Rainer Maria Rilke – A nós nos cabe andar

I.22 A nós, nos cabe andar.Mas o tempo, os seus passos,são mínimos pedaçosdo que há de ficar. É perda puratudo o que é pressa;só nos interessao que sempre dura. Jovem, não há virtudena velocidadee no voo aonde for. Tudo é quietude:escuro e claridade,livro e flor. Trad.: Augusto de Campos REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente…
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Matthew Sweeney – Crucificação

Eu cozinhava uma beterraba quando a campainha tocou.‘Quem será a essa hora?’, murmurei, marchandopara a porta. Quando a abri, o sol brilhavatanto que só vi silhuetas, mas discernique pairava sobre tudo uma grande cruz preta.Havia dois homens, um com cara de bode,o outro um sujeito enorme com um cigarrona boca e suor no rosto de…
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Derek Walcott – O Amor Depois do Amor

Um dia viráem que, eufórico,você cumprimentará a si próprio chegandoà sua porta, em seu espelhoe cada um dará ao outro um sorriso de boas-vindas, e você dirá, sente-se aqui. Coma.Você amará outra vez o estranho que foi.Sirva vinho. Reparta o pão. Restituao seu coraçãopara si, para o estranho que um dia você amou por toda…