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J.C. Todd – Velhos Amigos, Aqui e Adeus

Ei, pervertida, ele diz, olhando-me, no funeralde nossa amiga, causa da morte: um câncer nasentranhas do cérebro no interior da estrutura ósseaque dava ao seu rosto tanta beleza. Durante a químio,seu encanto se igualou aos reveses – seu couro cabeludoà mostra e os músculos de sua mão esquerda muito fracospara segurar um pincel. Ele a…
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Ivan Junqueira – Antes que o Sol se Ponha

Antes que o sol se ponha e seja tarde,e o azul crepuscular me deite a garra,e eu, nu, retorne à terra sem fanfarraou mortalha que o corpo me resguarde;antes que murche a pétala na jarra,e eu cale, para sempre, sem alarde,e tudo o que me coube, por covarde,não mais recorde a relva que se agarraàs…
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Matthew Olzmann – Comercial de Mountain Dew disfarçado de poema de amor

Então, eis o que eu tenho, as razões pelas quais nosso casamentopode funcionar: porque você usa rosa, mas escreve poemassobre lápides e balas. Porque você gritacom suas chaves quando as perde, e ri, ruidosamente, de suas próprias piadas. Porque você sabe empunhar uma pistola,estripar um porco. Porque você memoriza canções, mesmo jinglesde trinta anos atrás,…
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Ivan Junqueira – Lição

À beira do claustroo monge se inclinae na pedra aprendeo que a pedra ensina:que a vida é nadacom a morte por cima,que o tempo apenaseste fim lhe adiae que o ser carecede não ser ainda,pois à luz se esquivado que o purifica:a doce pedra,sem musgo ou limo,o pátio só,conquanto o sino,o ermo das coisassimples e…
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Werner Aspenström – Depois de ouvir Mozart o dia todo

As árvores se despem e se vestemrepetidamente,como em um casamento.Os gansos selvagens vão para o sul, e depois para o norte.Você conhece a natureza, conhece as artes.Como Mozart o socorre?O rebanho cinzento de pequenos estudantes se afastoupor sob as tíliase o rebanho cinzento de pequenos estudantes retornou.Música é tempo cultivado.O tempo não fecha as cicatrizes…
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Ferreira Gullar – Traduzir-se

Uma parte de mimé todo mundo;outra parte é ninguém:fundo sem fundo. Uma parte de mimé multidão:outra parte estranhezae solidão. Uma parte de mimpesa, pondera;outra partedelira. Uma parte de mimalmoça e janta;outra partese espanta. Uma parte de mimé permanente;outra partese sabe de repente. Uma parte de mimé só vertigem;outra parte,linguagem. Traduzir-se uma partena outra parte– que…
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Joaquin Zihuatanejo – Exame final para o meu pai

1. Verdadeiro ou falso. Na noite em que abandonou a mim e minha mãe você hesitou antes de segurar a maçaneta. 2. Se um ônibus deixa a cidade a 100 km por hora para lugar nenhum em particular, e um homem naquele ônibus deixou seu único filho para trás na escuridão dessa cidade, quantos quilômetros…
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Emily Dickinson – Morri pela Beleza

Morri pela Beleza – e assim que no JazigoMeu Corpo foi fechado,Um outro Morto foi depositadoNum Túmulo contíguo – “Por que morreu?” murmurou sua voz.“Pela Beleza” – retruquei –“Pois eu – pela Verdade – É o Mesmo. NósSomos Irmãos. É uma só lei” – E assim Parentes pela Noite, sábios –Conversamos a Sós –Até que…
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Linda Pastan – O adeus de Dido

O adeus de Dido Incessante é a chuvaem minhas vidraças, e as velas se afogamem sua própria cera.Abandonados pela luz,até os filamentos de estrelasescurecem. Esta tardeescorei com estacassuas rosas encharcadas,elas agora lembram jovens meninasapoiadas em muletas. Você deixouum mapa parcialde sua mão direitaem cada maçaneta,e eu sigo de salaem sala, nômadeem minha própria casa,o coração…
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Ana Martins Marques – Penélope (I)

O que o dia tece,a noite esquece. O que o dia traça,a noite esgarça. De dia, tramas,de noite, traças. De dia, sedas,de noite, perdas. De dia, malhas,de noite, falhas. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 24/10/2017