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Stephen Dunn – Andrógino

Meu perdido amor, quando Zeus nos dividiu em dois —nossa inteligência e completudeuma ameaça aos deuses — foi o iníciodesta dor, desta perpétua peregrinação… Já a vi nas ruas fervilhantes e concupiscentes,casei-me com você, ao entardecer, a seguipelos bares; sempre que a encontrava,a reconhecia como alguém que já vira antes.Eu não conseguia escolher não responder…
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Laura Liuzzi – Fio Sem Fim

Chega-se, enfim, à última páginaembora deixe claro: não se chegaao fim. Um mesmo fio fino frágilmas firme, da mesma fibra de rioconduz memória e história: storage— está estendido para sempree para sempre soará, suaráa cada renovação do sol, mesmoquando atingirmos o final —mesmo assim não se chegaráao fim. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em…
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Dorianne Laux – Os amantes

Ela está quase lá. Desta vez, elesestão sentados, unidos abaixo dos ventres,os pés em concha como macias mãos orandona base da coluna vertebral um do outro.E quando algo se eleva dentro delaem direção a uma luz, ela está certa, uma vez mais,de que não pode suportar, ela abre os olhose vê o rosto dele voltado…
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Anne Sexton – Frágil Fio

Minha féé um grande pesosuspenso por um frágil fio,como a aranhasuspende seu bebê em uma fina teia,como a videira,galhos finos e madeira,sustenta as uvascomo globos oculares,como muitos anjosdançam na cabeça de um alfinete. Deus não precisade muito fio para manter-Se lá,apenas uma veia fina,com o sangue pulsando,e um pouco de amor.Como já se disse:O amor…
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Philip Larkin – A casa está tão triste

A casa está tão triste. Ficou como foi deixada,Moldada para o conforto dos últimos saintesQuerendo reconquista-los. Ao invés, despojadaDe alguém para agradar, ela definha assim, carenteDe um coração para esquecer que foi roubada E voltar novamente às origens – um retratoAlegre de como as coisas deveriam ser –Há muito perdidas. Veja como era de fato:Observe…
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José Saramago – É tão fundo o silêncio…

É tão fundo o silêncio entre as estrelas.Nem o som da palavra se propaga,Nem o canto das aves milagrosas.Mas lá, entre as estrelas, onde somosUm astro recriado, é que se ouveO íntimo rumor que abre as rosas. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 15/12/2017
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Jennifer Chang – O mito de ontem

Quando Ícaro caiu do céu, eu levava meus filhos para o rio. Mamãe, o que é aquilo? Um pássaro, eu disse, porque não podia dizer tragédia. Jovens demais para entender o terror de confiar nos pais, meus filhos notaram asas como pés chutando o solo das nuvens. Isso foi ontem. Aproximávamos-nos do Anacostia, correndo por…
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Carlos Drummond de Andrade – O Retrato Malsim

O inimigo maduro a cada manhã se vai formandono espelho de onde deserta a mocidade.Onde estava ele, talvez escondido em castelos escoceses,em cacheados cabelos de primeira comunhão?Onde, que lentamente grava sua presençapor cima de outra, hoje desintegrada? Ah, sim: estava na rigidez das horas de tenência orgulhosa,no morrer em pensamento quando a vida queria viver.Estava…
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Eavan Boland – Atlântida – Um soneto perdido

Como diabos aconteceu, eu costumava me perguntar,de uma cidade inteira – arcos, pilares, colunatas,isso sem falar nos veículos e animais – ter-se,um belo dia, afundado? Ou melhor, eu disse a mim mesma, o mundo era pequeno então.É sem dúvida que uma grande cidade possa ter-se perdido?Sinto falta de nossa velha cidade – pimenta branca, pudim…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Fundo do Mar

No fundo do mar há brancos pavores,Onde as plantas são animaisE os animais são flores. Mundo silencioso que não atingeA agitação das ondas.Abrem-se rindo conchas redondas,Baloiça o cavalo-marinho.Um polvo avançaNo desalinhoDos seus mil braços,Uma flor dança,Sem ruído vibram os espaços. Sobre a areia o tempo poisaLeve como um lenço. Mas por mais bela que seja…