Robert Frost – A estrada não trilhada

Num bosque, em pleno outono, a estrada bifurcou-se,
mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria.
Assim, por longo tempo eu ali me detive,
e um deles observei até um longe declive
no qual, dobrando, desaparecia…

Porém tomei o outro, igualmente viável,
e tendo mesmo um atrativo especial,
pois mais ramos possuía e talvez mais capim,
embora, quanto a isso, o caminhar, no fim,
os tivesse marcado por igual.

E ambos, nessa manhã, jaziam recobertos
de folhas que nenhum pisar enegrecera.
O primeiro deixei, oh, para um outro dia!
E, intuindo que um caminho outro caminho gera,
duvidei se algum dia eu voltaria.

Isto eu hei de contar mais tarde, num suspiro,
nalgum tempo ou lugar desta jornada extensa:
a estrada divergiu naquele bosque – e eu
segui pela que mais ínvia me pareceu,
e foi o que fez toda a diferença.

Trad.: Renato Suttana

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 23/03/2016

The Road Not Taken

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

Robert Wrigley – Ser um lago

Ele nunca sonhou em ser um lago
nas altas montanhas, e agora se indaga por quê.
Certamente, não poderia haver devaneio
mais sublime: ser límpido e frio,
e percorrido por trutas. Permitir que a luz do sol
chegue às suas profundezas, ter profundezas
jamais visitadas. Ser recoberto por gelo
e camadas espessas de neve no inverno, luzir em azul puro
no puro azul do céu, revelar às estrelas
as estrelas, ser sorvido por animais selvagens.
E acolher um humano ocasional,
que, pela lembrança de ali ter estado,
poderia sonhar em voltar. Estar lá.
Não um visitante, mas um sonhador que sonha
que este lago é aquilo que ele sempre quis ser.

Trad.: Nelson Santander

Being a Lake

He has never dreamed of being a lake
in the high mountains, and now he wonders why.
Surely there could be no better, in the way
of dreamy aspirations: to be clear and cold
and swum through by trout. To allow the sunlight
far into your depths, to have depths no one
will ever visit. To be ceilinged by ice
and many feet of snow in winter, to shine pure blue
into the pure blue of the sky, to show the stars
the stars, to be drunk by wild animals.
And to admit an occasional human,
who, because of the memory of having been there,
might dream of being there. Being there.
Not a visitor but a dreamer, dreaming
this very lake is what he’s always wanted to be.

Shari Wagner – A mulher do fazendeiro muda de canal

O Jesus da minha infância
prefere estar ao ar livre.
Se não está pescando, está colhendo figos
ou nos mostrando sua plantação de mostarda.

Ele gosta das estradas poeirentas, do pardal banal,
e dos lírios do campo.
Quando bate à sua porta
segurando uma lanterna, você sabe que é hora
de caçar as botas
e segui-lo para alimentar as ovelhas.

Mas esse pregador, que encara
a câmera e afirma conhecer
Jesus, diz que o que ele quer
é que eu creia nele
para que ele possa entrar.

Isso me cheira a trapaça.
Como um lobo que cobriu as patas de farinha1.

O Jesus que curava os cegos
disse que conheceremos uma árvore pelo fruto.

Trad.: Nelson Santander

  1. A imagem do lobo com as patas cobertas de farinha alude ao conto popular europeu, difundido pelos Irmãos Grimm (O lobo e os sete cabritinhos), no qual o lobo disfarça as patas para fingir ser a mãe dos cabritos e enganá-los. No poema, a metáfora sugere dissimulação e falsa piedade: alguém que se apresenta como inofensivo ou virtuoso para conquistar confiança e acesso. ↩︎

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

The Farm Wife Turns Off the TV Evangelist

The Jesus I grew up with
likes to be outside.
If he’s not fishing, he’s picking figs
or showing us his mustard crop.

He prefers dusty roads, the common sparrow,
and lilies of the field.
When he knocks on your door
holding a lantern, you know it’s time
to buckle on overshoes
and go with him to feed the sheep.

But this preacher, who looks straight
into the camera and claims he knows
Jesus, says what he wants
is for me to believe in him
so he can come inside.

That sounds shifty to me.
Like a wolf with his paws dipped in flour.

Jesus who heals the blind
said we will know a tree by its fruit.

Jo Balmer – Nada acontecerá

Nada acontecerá

Arredores de Atenas, 404 BCE

Enquanto os espartanos celebravam a vitória suada,
um de seus jovens entoou um canto de Eurípides –
versos para os derrotados, os mortos, os desaparecidos…
(Plutarco, Vida de Lisandro, 15)

Meio bêbado, meio atordoado, quase decidido
a ser zombado, recitei versos do inimigo.

Tínhamos votado para destruir Atenas. Converter
suas ruas fervilhantes em pasto, grama. O clamor da caterva
em crocitar de corvos. O contrário de uma cidade.
Escravizá-los, como haviam escravizado outros.

Mas quando minha canção se dissipou como uma dor mal cicatrizada,
nossa determinação esmoreceu; a vingança perdeu sua forma.

Vi embrutecidos hoplitas espartanos, soldados,
baixarem suas cabeças, como se envergonhados, os rostos riscados
por lágrimas afiadas. Agora todos nós concordávamos:
não poderíamos, em sã consciência, obliterar
uma cidade que nos dera tanta beleza;
poetas para registrar nossa perda acumulada.

Por fim, a carnificina poderia cessar. Nada de guerra,
selvageria, escravidão. A poesia
não faria nada acontecer. Não é pra isso que ela serve?

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Make Nothing Happen

Outside Athens, 404 BCE
As the Spartans celebrated hard-fought victory
one of their youths sung a song by Euripides –
lines for the defeated, the dead, the disappeared…
(Plutarch, Life of Lysander, 15)

Half-drunk, half-dazed, half-decided to be jeered,
at the feast I recited enemy verse.

We’d voted to destroy Athens. To scorch
its teeming streets to pasture, grass. Crowd cry
to crow call. The opposite of city.
To enslave them as they’d enslaved others.

But as my song faded like a half-healed ache,
our resolve bruised; revenge bent out of shape.

I watched hardened Spartan hoplites, soldiers,
bow their heads as if in shame, faces scraped
by razored tears. Now all of us concurred:
we could not, in conscience, obliterate
a city that had given us such beauty;
poets to score our accumulated loss.

At last the butchery could stop. No war.
No savagery. No slavery. Poetry
would make nothing happen. What it’s for.

Natalie Shapero – Primeiro de dezembro

Deus qual é? parai de me cortar
de vossas fotos Deus parai de arrastar
o mouse em torno do meu corpo
puído qual contorno de giz clicando depois em
PREENCHER COM FUNDO eu sei Deus

que são tempos difíceis sei que só
destinastes uma morte por pessoa lamento
ter agarrado mais do que minha parte
mas por certo já ouvistes falar de A CADA QUAL
CONFORME SUA NECESSIDADE e suponho que

obtive o que me cabia Deus lamento
por aqueles que com o tempo descobrem
que não lhes restam mortes para morrer
mas Deus sois vós quem fomentais a
demanda e depois estrangulais a oferta

Trad.: Nelson Santander

First of December

God come on stop cutting me
out of your photos God stop dragging
the mouse around my shopworn
body like a chalk outline then clicking FILL
WITH BACKGROUND God I know

that times are tight I know you only
made one death per person I’m sorry
to have snagged more than my
share but surely you’ve heard about TO EACH
ACCORDING TO HIS NEED and I guess

I got what I needed God I’m sorry
to those who find with time
that there aren’t deaths left for them to die
but God you’re the one who stokes
demand then chokes up the supply

Tess Gallagher – Vão

Entrei neste mundo sem querer
vir. Dele vou sair sem
querer partir. Todo esse tempo,
em que parecia haver duas portas,
apenas uma porta havia – esta
passagem.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Opening

I entered this world not wanting
to come. I’ll leave it not
wanting to go. All this while,
when it seemed there were two doors,
there was only one – this
passing through.

Tom Hirons – Enquanto isso

Enquanto isso, as flores ainda florescem.
A lua aparece, e o sol também.
Bebês sorriem e, em algum lugar,
Contra todas as probabilidades,
Duas pessoas se apaixonam.

Estranhos dividem cigarros e piadas.
A luz brinca na superfície da água.
A graça acontece em ruas improváveis,
E nos abraçamos com força
Contra a entropia, o fogo e as águas.

A vida se inclina para a vida
E, embora a morte, por fim, reclame tudo,
Houve tantos momentos preciosos no intervalo,
Em que tudo era radiante,
E amávamos outra vez este mundo.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

In the meantime

Meanwhile, flowers still bloom.
The moon rises, and the sun.
Babies smile and somewhere,
Against all the odds,
Two people are falling in love.

Strangers share cigarettes and jokes.
Light plays on the surface of water.
Grace occurs on unlikely streets
And we hold each other fast
Against entropy, the fires and the flood.

Life leans towards living
And, while death claims all things at the end,
There were such precious times between,
In which everything was radiant
And we loved, again, this world.

C. K. Williams – A Corsa

Perto do crepúsculo, de uma trilha, de um arroio,
paramos, eu, inquieto e angustiado
pelo sofrimento de alguém que eu amava;
a corsa, sempre sobressaltada.

Apenas sua orelha ligeira se movia,
transpassada pelo sol avermelhado,
tingida de uma cor que eu só vira
na foto de uma criança no ventre.

Nada mais se movia, nem uma folha,
nem o ar, mas ela se assustou e disparou
para dentro da mata crepitante.

A fração de minha dor que às vezes
me liberta partiu com ela; o resto,
no rastro da luz tardia, ficou.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

The Doe

Near dusk, near a path, near a brook,
we stopped, I in disquiet and dismay
for the suffering of someone I loved,
the doe in her always incipient alarm.

All that moved was her pivoting ear
the reddening sun shining through
transformed to a color I’d only seen
on a photo of a child in a womb.

Nothing else stirred, not a leaf,
not the air, but she startled and bolted
away from me into the crackling brush.

The part of my pain which sometimes
releases me from it fled with her, the rest,
in the rake of the late light, stayed.

Eavan Boland – Chegamos sempre tarde demais

A memória
tem duas partes.

Primeiro, a revisitação:

o modo como ainda posso ver
aqueles amantes à mesa do café. Ela chora.

Nova Inglaterra. Hora do café da manhã. Inverno. Atrás dela,
além da janela panorâmica,
um bosque de pinheiros brancos.

Neve nova cai, e a antiga,
perdendo o equilíbrio nos ramos,
se desprende em fragmentos,
acrescendo novas frações. Depois,

a reencenação. Sempre a mesma coisa.
Eu me levanto, afasto
o café. E sempre estou indo até ela.

O rubor e o ardor coram
sua fronte agora, e descem pelo pescoço.

Ergo uma das mãos. Aponto para
aquelas árvores, mostro a ela nossa necessidade dessas
belas superações do
que sofremos pelo
que sobrevive. E ela nunca sequer me vê.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

We are always too late

Memory
is in two parts.

First, the revisiting:

the way even now I can see
those lovers at the café table. She is weeping.

It is New England, breakfast time, winter. Behind her,
outside the picture window, is
a stand of white pines.

New snow falls and the old,
losing its balance in the branches,
showers down,
adding fractions to it. Then

the reenactment. Always that.
I am getting up, pushing away
coffee. Always, I am going towards her.

The flush and scald is
to her forehead now, and back down to her neck.

I raise one hand. I am pointing to
those trees, I am showing her our needs for these
beautiful upstagings of
what we suffer by
what what survives. And she never even sees me.

Eavan Boland – Âmbar

Nunca importou que houvesse outrora um vasto lamento:

árvores nas colinas, nos bosques, chorando —
um ouro fluido vertendo

até o chão através das estações e dos séculos —
até agora.

Nesta amena tarde de setembro, da qual você está ausente,
seguro, como se minha mão pudesse retê-lo,
um ornamento de âmbar

que um dia você me deu.

A razão diz:
Os mortos não podem ver os vivos.
Os vivos nunca verão os mortos novamente.

O ar límpido de que precisávamos para nos encontrar
se perdeu para sempre, e ainda assim

esta resina um dia
recolheu sementes, folhas, e até pequenas penas, enquanto caía
e caía.

Agora, sob a luz do sol, elas parecem tão vivas quanto
sempre foram,

como se o passado se tornasse o presente e a própria memória
um mel báltico —

um desgaste nas margens do visível, uma prova do quanto
pode ser preservado

dentro de uma imperfeita translucidez.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Amber

It never mattered that there was once a vast grieving:

trees on their hillsides, in their groves, weeping—
a plastic gold dropping

through seasons and centuries to the ground—
until now.

On this fine September afternoon from which you are absent
I am holding, as if my hand could store it,
an ornament of amber

you once gave me.

Reason says this:
The dead cannot see the living.
The living will never see the dead again.

The clear air we need to find each other in is
gone forever, yet

this resin once
collected seeds, leaves and even small feathers as it fell
and fell

which now in a sunny atmosphere seem as alive as
they ever were

as though the past could be present and memory itself
a Baltic honey—

a chafing at the edges of the seen, a showing off of just how much
can be kept safe

inside a flawed translucence.