Jane Hirshfield – Um dia é vasto

Um dia é vasto.
Até o meio-dia.
Depois acaba.

A água da lagoa de ontem, entrelaçada,
ainda está molhada em meus cabelos.

Eu não sei o que é o tempo.

Você nunca pode encontra-lo.
Mas você pode perde-lo.
Trad.: Nelson Santander
A Day Is Vast

A day is vast.
Until noon.
Then it’s over.

Yesterday’s pondwater
braided still wet in my hair.

I don’t know what time is.

You can’t ever find it.
But you can lose it.

Diane di Prima – Poema de aniversário pro meu avô no dia da mentira

Hoje é o seu
aniversário e eu tentei
escrever essas coisas antes,
mas agora
em meio à loucura crescente, eu quero
agradecê-lo
por me dizer o que esperar
por não poupar
as palavras, lá naquela sala encerada do Bronx
agradecê-lo
por chorar abertamente durante
as inúmeras óperas italianas
desoladoras obrigada
por puxar meu cabelo quando
eu puxava as folhas das árvores assim
eu saberia o que elas sentiam, nós estamos
envolvidos nisso agora, revolução, até os
joelhos e a maré está subindo, eu abraço
estranhos na rua, repletos de amor, o deles
e o meu, o amor que você nos disse que deveria chegar
ou morreríamos, disse a todos eles naquele parque no Bronx, eu escutando
no anoitecer primaveril do Bronx, respirando estrelas, tão glorioso
para mim o seu cabelo branco, sua altura seus ferozes
olhos azuis, raros entre os italianos, eu ficava
de longe olhando pra você, meu vô
as pessoas ouviam, eu fico
de longe ouvindo enquanto derramo a sopa
jovens com luz em seus rostos
na minha mesa, falando de amor, falando de revolução
que é amor dito ao contrário, como
você amaria todos nós, trovejaria a sua sabedoria anarquista
sobre nós, trovejaria Dante, e Giordano Bruno, homens disciplinados
inclinados aos seus fins, então quero que saiba
que fazemos isso por você e pela sua gangue, Carlo Tresca,
por Sacco e Vanzetti, sem saber
ou pensar sobre isso, assim como fazemos por Aubrey Beardsley
Oscar Wilde (todas as luzes da rua
devem ser roxas), fazemos
por Trotsky e Shelley e pelo grande/tolo
Kropotkin
pelos Grevistas de Eisenstein, pelo tédio de Jean Cocteau, fazemos isso
pelas estrelas que pairam sobre o Bronx
para que elas possam olhar para a terra
sem sentir vergonha.

Trad.: Fernanda Morse

April Fool Birthday Poem for Grandpa

Today is your
birthday and I have tried
writing these things before,
but now
in the gathering madness, I want to
thank you
for telling me what to expect
for pulling
no punches, back there in that scrubbed Bronx parlor
thank you
for honestly weeping in time to
innumerable heartbreaking
italian operas for
pulling my hair when I
pulled the leaves off the trees so I’d
know how it feels, we are
involved in it now, revolution, up to our
knees and the tide is rising, I embrace
strangers on the street, filled with their love and
mine, the love you told us had to come or we
die, told them all in that Bronx park, me listening in
spring Bronx dusk, breathing stars, so glorious
to me your white hair, your height your fierce
blue eyes, rare among italians, I stood
a ways off, looking up at you, my grandpa
people listened to, I stand
a ways off listening as I pour out soup
young men with light in their faces
at my table, talking love, talking revolution
which is love, spelled backwards, how
you would love us all, would thunder your anarchist wisdom
at us, would thunder Dante, and Giordano Bruno, orderly men
bent to your ends, well I want you to know
we do it for you, and your ilk, for Carlo Tresca,
for Sacco and Vanzetti, without knowing
it, or thinking about it, as we do it for Aubrey Beardsley
Oscar Wilde (all street lights shall be purple), do it
for Trotsky and Shelley and big/dumb
Kropotkin
Eisenstein’s Strike people, Jean Cocteau’s ennui, we do it for
the stars over the Bronx
that they may look on earth
and not be ashamed.

from Pieces of a Song (City Lights, 1990)

Mary Oliver – Primavera

Em algum lugar,
uma ursa preta
acaba de despertar
e lança seu olhar

montanha abaixo.
A noite toda,
na inquietação viva e superficial
do início da primavera,

eu penso nela,
suas quatro patas pretas
agitando o cascalho,
sua língua

como uma chama rubra
tocando a grama,
a água fria.
Existe apenas uma questão:

como amar este mundo.
Eu penso nela
erguendo-se
como uma saliência negra e frondosa

para afiar suas garras contra
o silêncio
das árvores.
O que quer que seja

a minha vida
com seus poemas
e sua música
e suas cidades,

ela é também este ofuscante negror
descendo
a montanha,
respirando e fruindo;

o dia todo eu penso nela –
em suas presas brancas,
sua ausência de palavras,
seu amor perfeito.

Trad.: Nelson Santander

Spring

Somewhere
a black bear
has just risen from sleep
and is staring

down the mountain.
All night
in the brisk and shallow restlessness
of early spring

I think of her,
her four black fists
flicking the gravel,
her tongue

like a red fire
touching the grass,
the cold water.
There is only one question:

how to love this world.
I think of her
rising
like a black and leafy ledge

to sharpen her claws against
the silence
of the trees.
Whatever else

my life is
with its poems
and its music
and its cities,

it is also this dazzling darkness
coming
down the mountain,
breathing and tasting;

all day I think of her –
her white teeth,
her wordlessness,
her perfect love.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – As flores do mall

As jovens deusas, noturnas
aparições (roupas escuras,
prata queimando seus umbigos)
na cadência da pista,
começam a desbotar
com a premência dos anos,
os problemas, talvez os filhos
que ainda não têm. Olham
agora para os teus olhos com claro
desprezo (já tens quarenta)
e pensas em certas palavras
de Baudelaire que lhes darias
como se fossem teus frutos
(se ao menos se aproximassem), se
soubessem quem foi o poeta.
Mas elas dançam, te rodeiam
sem importar-lhes o que calas.
Envelhecendo sós, saltam
sobre teus textos (tão perpétuos
e frágeis), novas deidades,
elas, que dançam retiradas
de teu vaso de Lladró.

Trad.: Nelson Santander

* N. do T.: o título do poema faz, evidentemente, um trocadilho com o título da obra mais aclamada de Charles Baudelaire (mencionado no poema), Les Fleurs du mal, traduzido no Brasil literalmente como “As Flores do Mal”. Em países da língua espanhola, a palavra inglesa Mall foi devidamente assimilada, o que não ocorreu no Brasil, em que Mall virou Shopping Center – ou apenas Shopping -, Centro Comercial, etc.. Tratando-se de um trocadilho, s.m.j., irrecuperável em português, optei por manter o substantivo em inglês, justamente para não perder o efeito acridoce que a sua utilização empresta ao título.

Las flores del Mall

Las jóvenes diosas, nocturnas
apariciones (ropa oscura,
plata quemando sus ombligos)
en la cadencia de la pista,
comenzarán a despintarse
con la premura de los años,
los problemas, quizá los hijos
que no tienen aún. Ahora
miran tus ojos con un claro
desprecio (ya tienes cuarenta)
y piensas en ciertas palabras
de Baudelaire que les darías
como si fueran frutas tuyas
(si al menos se acercaran), si
supieran quién es el poeta.
Pero ellas danzan, te rodean
sin importarles lo que callas.
Envejeciendo solas, brincan
sobre tus textos (tan perpetuas
y frágiles), deidades nuevas,
ellas, que bailan retiradas
de tu florero de Lladró.

Charles Simic – Medo

O medo passa de homem para homem
Inconscientemente,
Como uma folha passa o seu estremecimento
Para outra.

De repente, a árvore toda está tremendo,
E não há nenhum sinal do vento.

Trad.: Nelson Santander

Fear

Fear passes from man to man
Unknowing,
As one leaf passes its shudder
To another.

All at once the whole tree is trembling,
And there is no sign of the wind.

Linda Pastan – As Íris de Monet

Estas flores
sonharam em voltar
à cor pura –
os verdes
de indivisas águas,
os verdes
informes dos prados
assim como Deus disse:
Façam-se as
Íris.

Trad.: Nelson Santander

Monet’s Irises

These flowers
have dreamed themselves
back into pure color—
the greens
of undivided water,
the formless
greens of meadow
just as God said:
Let there be
Irises.

Danusha Laméris – Vestindo-se para o enterro

Ninguém fala sobre a hilaridade após a morte —
a forma como na semana em que o meu irmão se matou
a esposa dele e eu caímos na cama gargalhando
porque ela não conseguia decidir sobre o que vestir para o grande dia,
e me perguntou, “Eu quero ser sexy ou Amish?” Eu respondi: sexy.
E nós rolamos sobre o colchão que eles haviam compartilhado
por dezoito anos, nossas barrigas até doendo.
Enquanto isso, ele repousava em uma estreita gaveta refrigerada,
cachos castanhos macios brotando de seu couro cabeludo,
emoldurando seu bonito rosto. Isso foi quando
ele ainda tinha um rosto, e íamos vê-lo.
“Mostre-me a saia preta de novo,” eu disse. E ela, “Qual delas?”
E então ela falou, “Você está tão Máfia Chic,” e eu disse, “Obrigada,”
e isso continuou até que nós duas nos cansamos e nossos costelas doeram e agora
eu nem me lembro o que acabamos vestindo. Lembro apenas que estávamos fabulosas
chorando por causa daquele buraco aberto no chão.

Trad.: Nelson Santander

Dressing for the Burial

No one wants to talk about the hilarity after death —
the way the week my brother shot himself,
his wife and I fell on the bed laughing
because she couldn’t decide what to wear for the big day,
and asked me, “Do I go for sexy or Amish?” I told her sexy.
And we rolled around on the mattress they’d shared
for eighteen years, clutching our sides.
Meanwhile, he lay in a narrow refrigerated drawer,
soft brown curls springing from his scalp,
framing his handsome face. This was back when
he still had a face, and we were going to see it.
“Hold up the black skirt again,” I said. She said, “Which one?”
And then she said, “You look so Mafia Chic,” and I said, “Thank you,”
and it went on until we both got tired and our ribs hurt and now
I don’t even remember what we wore. Only that we both looked fabulous
weeping over that open hole in the ground.

Kenneth Rexroth – Delia Rexroth

A Califórnia entra num
Verão modorrento, e o ar
Está repleto da agridoce
Fumaça de relva queimando
Nas colinas de São Francisco.
A carne arde assim, as pirâmides
Idem, assim como as estrelas em combustão.
Cansado esta noite, em uma cidade
De arrivistas, no desumano
Oeste, no mais sangrento dos anos,
Peguei um livro de poemas
De que você costumava gostar, com
Aquela música que você costumava cantar
E que eu nunca mais encontrei em nenhum outro lugar —
Um livro de Michael Fields, Long Ago.
De fato, já foi há muito tempo —
Seus cabelos castanhos e seu corpo esbelto.
Creio que você foi uma amante ardorosa,
Uma esposa selvagem, uma mãe
Sensual. E agora a vida já me custou
Mais anos, embora menos dor,
Do que você teve que pagar por ela.
E eu comprei de volta, para e de
Mim mesmo, esses poemas e pinturas,
Esculpidos de ossos queixosos,
As inestimáveis consequências
De sua vida louca e despedaçada.

Trad.: Nelson Santander

Delia Rexroth

California rolls into
Sleepy summer, and the air
Is full of the bitter sweet
Smoke of the grass fires burning
On the San Francisco hills.
Flesh burns so, and the pyramids
Likewise, and the burning stars.
Tired tonight, in a city
Of parvenus, in the inhuman
West, in the most blood drenched year,
I took down a book of poems
That you used to like, that you
Used to sing to music I
Never found anywhere again—
Michael Fields book, Long Ago.
Indeed its long ago now—
Your bronze hair and svelte body.
I guess you were a fierce lover,
A wild wife, an animal
Mother. And now life has cost
Me more years, though much less pain,
Than you had to pay for it.
And I have bought back, for and from
Myself, these poems and paintings,
Carved from the protesting bone,
The precious consequences
Of your torn and distraught life.

Charles Simic – Igreja de madeira

É só uma choupana fechada com uma torre
Sob o céu de um verão escaldante
Em uma estrada secundária percorrida raramente
Onde as sombras de árvores grandes
Roçam-se tranquilamente como forcas enfileiradas,
E corvos privados de carniça
Grasnam uns com os outros sobre dias melhores.

A congregação talvez ainda esteja em oração.
Das fotos salpicadas, famílias de fazendeiros
Enfileiradas com suas cabeças inclinadas
Como se ouvissem seus passos se aproximando.
Tão lentamente que você deve estar se perguntando
Como é que estamos aqui num minuto
E, no seguinte, desaparecemos para sempre?

Experimente a porta fechada e bata uma vez.
Os corvos ficarão fora de visão.
Acima de você, o campanário inclinado
Ainda sentindo o impacto da última tormenta.
E depois o silêncio da tarde…
Mesmo o descrente deve sentir a sua força.

Trad.: Nelson Santander

Wooden Church

It’s just a boarded-up shack with a tower
Under the blazing summer sky
On a back road seldom travelled
Where the shadows of tall trees
Graze peacefully like a row of gallows,
And crows with no carrion in sight
Caw to each other of better days.

The congregation may still be at prayer.
Farm folk from fly-specked photos
Standing in rows with their heads bowed
As if listening to your approaching steps.
So slow they are, you must be asking yourself
How come we are here one minute
And in the very next gone for ever?

Try the locked door, then knock once.
The crows will stay out of sight.
High above you, there is the leaning belfry
Still feeling the blow of the last storm.
And then the silence of the afternoon . . .
Even the unbeliever must feel its force.

Ada Limón – Mar aberto

Não adianta enganar e tramar e perder
os outros fantasmas, empurrar o sepultado mais fundo
no lodo arenoso, na lama ribeirinha, pois mesmo assim você vem,
minha fiel, o som de um corpo tão persistente
na água que eu não sei dizer se é uma onda ou você
movendo-se através das ondas. Um mês antes de morrer
você escreveu uma carta aos velhos amigos dizendo que nadou
com um grupo de golfinhos em mar aberto, despedindo-se,
mas o que você mais falou foi sobre o olho.
Aquele enorme olho inquisitivo de um peixe desconhecido
que passou por você durante o derradeiro mergulho desafiador.
Na costa, você descreveu o peixe como nada que
já tivesse visto antes, um colosso azul-acinzentado se movendo lenta
e pacientemente nas profundas e insondáveis
águas do Pacífico Norte. Naquela noite, eu ouvi mais
sobre aquele peixe e aquele olho do que qualquer outra coisa.
Não sei por que isso me ocorreu essa manhã.
Chuva morna e sem saída para o mar, eu não sou digna da imagem.
Mas não consigo deixar de pensar que algo a viu, algo
deu testemunho de você lá fora no oceano
onde você não era a mãe nem a esposa de ninguém,
mas você em sua pele original, pouco antes de morrer,
sendo observada, e hoje contigo em minha cozinha
agora que dez anos se passaram, eu fiquei tão feliz por você.

Trad.: Nelson Santander

Open water

It does no good to trick and weave and lose
the other ghosts, to shove the buried deeper
into the sandy loam, the riverine silt, still you come,
my faithful one, the sound of a body so persistent
in water I cannot tell if it is a wave or you
moving through waves. A month before you died
you wrote a letter to old friends saying you swam
with a pod of dolphins in open water, saying goodbye,
but what you told me most about was the eye.
That enormous reckoning eye of an unknown fish
that passed you during that last–ditch defiant swim.
On the shore, you described the fish as nothing
you’d seen before, a blue–gray behemoth moving slowly
and enduringly through its deep fathomless
North Pacific waters. That night, I heard more
about that fish and that eye than anything else.
I don’t know why it has come to me this morning.
Warm rain and landlocked, I don’t deserve the image.
But I keep thinking how something saw you, something
was bearing witness to you out there in the ocean
where you were no one’s mother, and no one’s wife,
but you in your original skin, right before you died,
you were beheld, and today in my kitchen with you
now ten years gone, I was so happy for you.