Sarah Freligh – Maravilhoso

Estou voltando da escola quando o rádio
fala de E.B. White1, seu aniversário, e eu saio
do aqui e agora da rodovia na hora do rush,

e viajo de volta ao passado, onde minha mãe está lendo
para mim e minha irmã a parte em que Charlotte2 põe seus ovos
e morre, e embora esta seja a quinta vez que Charlotte

morre, minha mãe está chorando novamente, e estamos rindo
dela porque não sabemos nada sobre a perda e sua triste matemática,
como cada subtração é exponencial, como cada dor

multiplica a anterior, como o autor tentou
dezessete vezes gravar as palavras Ela morreu sozinha
sem chorar, dezessete tentativas e uma curta caminhada durante

a qual ele chamou a si mesmo de ridículo, um homem adulto chorando
por uma aranha que ele havia tecido a partir do fio de seda da invenção —
é maravilhoso como essas palavras voltariam para fazê-lo

chorar, e, sim, é maravilhoso ouvir a voz de minha mãe
dez anos depois que ela morreu — o engasgo, a aspereza,
o esforço antes que ela pudesse nos dizer: Estou bem.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: 1) E.B. White foi um escritor, ensaísta e estilista literário americano, autor de vários livros populares para crianças, incluindo Stuart Little, A Teia de Charlotte e O Cisne e seu Trompete. Ele também foi editor e colaborador da revista The New Yorker e coautor do guia de estilo The Elements of Style.

2) Charlotte é a aranha protagonista do livro A Teia de Charlotte, de E.B. White. Ela se torna amiga de Wilbur, um porquinho que está em perigo de ser abatido pelo fazendeiro. Para salvá-lo, ela tece palavras e frases elogiosas a Wilbur em sua teia, para convencer o fazendeiro a deixá-lo viver. Ela também ajuda Wilbur a se tornar famoso e respeitado pelos outros animais.

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Wondrous

I’m driving home from school when the radio talk
turns to E.B. White, his birthday, and I exit
the here and now of the freeway at rush hour,

travel back into the past, where my mother is reading
to my sister and me the part about Charlotte laying her eggs
and dying, and though this is the fifth time Charlotte

has died, my mother is crying again, and we’re laughing
at her because we know nothing of loss and its sad math,
how every subtraction is exponential, how each grief

multiplies the one preceding it, how the author tried
seventeen times to record the words She died alone
without crying, seventeen takes and a short walk during

which he called himself ridiculous, a grown man crying
for a spider he’d spun out of the silk thread of invention —
wondrous how those words would come back and make

him cry, and, yes, wondrous to hear my mother’s voice
ten years after the day she died — the catch, the rasp,
the gathering up before she could say to us, I’m OK.

Katie Ford – Terra

Se você honrasse os mortos,
lembrando onde eles morreram,
a esta hora, amanhã,
não haveria por onde andar.

Trad.: Nelson Santander

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Earth

If you respect the dead
and recall where they died
by this time tomorrow
there will be nowhere to walk.

Laura Kasischke – A Palma

Vejo que você terá uma vida comum, talvez
tenha filhos, talvez se case com
um homem amável, mas pouco
notável. Aguarda-lhe
uma viagem simples
(Cataratas do Niágara? Parque Yellowstone?). Embarque
nela. Faça
as escolhas que precise fazer: pintar
de azul o banheiro de cima, mudar-se
para o Wisconsin. Não importa.
Mas aqui, aqui nesta linha, esta linha
como uma cicatriz em sua mão — aqui
vejo algo mais.
As cortinas deste quarto serão vermelhas
e rasgadas. Feche-as. Deixe-o
conduzi-la lentamente até a cama. Não,
você dirá, é dia
e meu marido ingênuo confia em mim.
Confie em mim — este
é o seu momento — aquele
do qual você se lembrará (o sopro quente
da brisa de agosto, o sol
branco no céu, o fio de suor no pescoço
que se transformará em sal em sua língua).
Este você guardou
e guardará por toda sua vida,
ainda que machuque um pouco sua mão
como uma única lasca de vidro que cintila
em uma pedreira de ardósia. Você
morrerá algum dia, é claro, lentamente,
nem jovem, nem velha. E antes de ser esquecida,
os vizinhos se lembrarão de você com carinho.
Agora feche bem sua mão em torno
deste segredo. Morra
com este segredo, mas sem arrependimentos. Lembre-se
de que é assim que os ínfimos sobrevivem, é assim
que eles sempre sobreviveram.

Trad.: Nelson Santander

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Palm

I see you will live an ordinary life, perhaps
have children, perhaps marry
a kind but un-
remarkable man. There
is a simple journey that waits for you
(Niagara Falls? Yellowstone Park?) Go
on it. Make
the decisions you have to make: paint
the upstairs bathroom blue, move
to Wisconsin. It doesn’t matter.
But here, here in this crease, this crease
like a scar at your thumb—here
I see something more.
The drapes in this room will be red
and torn. Close them. Let him
show you slowly to the bed. No
you’ll say, it’s daylight
and my simple husband trusts me.
Trust me—this
is your moment—the one
you’ll remember (the hot breath
of the August breeze, the sun
white in the sky, the trickle of sweat
on his neck: it will turn to salt on your tongue).
This one you’ve held
and will hold all your life
though it cuts a bit at your thumb
like a single sliver of glass that glints
from a quarry of slate. You
will die someday, of course, slowly
not young not old. And before you’re forgotten
the neighbors will speak of you fondly.
Now close your hand tight
on this secret. Die
with this secret but no regrets. Remember
this is how the small survive, the way
the small have always survived.

Judith Viorst – Na minha idade

Na minha idade, pensei que finalmente seria capaz de
Terminar Moby Dick,
Esperar a refeição ser servida sem comer o pão,
E demonstrar uma tranquila compostura quando estou em um coquetel onde não conheço ninguém
E ninguém fala comigo,
Em vez de querer correr e me esconder no banheiro.

Na minha idade, pensei que finalmente seria capaz de
Ler uma declaração de imposto de renda,
Admitir que estou errada quando estou errada – e não me gabar quando estou certa,
E demonstrar uma serena aceitação quando vejo meu filho casado sair para a noite fria e nevada
Em um par de tênis rasgados
Em vez de gritar Pare! Você vai pegar uma pneumonia.

Na minha idade, pensei que finalmente seria capaz de
Falar um francês coerente,
Abster-me de dar conselhos, a menos que alguém o implore,
E demonstrar um maduro desapego quando esta senhora com MBA, pelo perfeita e pernas ainda melhores
Dá em cima de meu marido,
Em vez de planejar empurrar a cara dela na massa.

Na minha idade, pensei que finalmente seria capaz de
Lidar com a temperatura Celsius,
Dirigir até Nova Jersey sem me perder todas as vezes,
E demonstrar uma aceitação madura, serena, composta, desapegada e tranquila de tudo o que
Ainda não sou capaz de fazer
Na minha idade.

Trad.: Nelson Santander

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By My Age

By my age I thought I would finally be able to
Finish Moby Dick,
Wait for the meal to be served without eating the roll,
And display unruffled composure when I’m at a cocktail party where I don’t know a single soul
And nobody talks to me,
Instead of wanting to run and hide in the bathroom.

By my age I thought I would finally be able to
Read a tax return,
Admit that I’m wrong when I’m wrong – and not gloat when I’m right,
And display serene acceptance when I watch my married son walk out into the cold and snowy night
In a pair of torn sneakers
Instead of screaming, Stop! You’ll catch pneumonia.

By my age I thought I would finally be able to
Speak coherent French,
Refrain from providing advice unless someone begs,
And display mature detachment when this lady M.B.A. with perfect skin and even better legs
Makes a play for my husband,
Instead of plotting to push her face in the pasta.

By my age I thought I would finally be able to
Cope with Celsius,
Drive to New Jersey without getting lost every time,
And display a mature and serene and composed and detached and unruffled acceptance of all that I’m
Still not able to do
By my age.

Wayne Miller – Parábola da infância

Quando a cadela finalmente morreu, o pai cavou um buraco ao lado da cerca e a enterrou em uma caixa de sapatos.

Ela se foi, mas teve uma vida boa, disse a mãe. Não há problema em ficar triste.

________

No dia seguinte, o menino entrou na cozinha carregando a caixa. Ela não se foi. Ela ainda está aqui, ele disse. Olhem.

A mãe levantou a tampa. Querido, quando as coisas morrem, nós as devolvemos à terra.

E então as esquecemos lá?

Sim — e não, respondeu o pai, colocando a caixa de volta no buraco e cobrindo-a novamente. Juntos, eles voltaram para casa.

________

Na manhã seguinte, a caixa estava sobre a bancada da cozinha. Eu não conseguia dormir, disse o menino. Ela estava sozinha lá fora.

Talvez seja assim que ela queira que seja, o pai respondeu.

Não. Ela não quer nada, disse o menino. Ela está morta. Mas a caixa dela estava cheia de ar dentro da terra. Isso não estava certo.

Eles encheram a caixa com terra e a colocaram novamente no buraco.
________

O que significa morrer? perguntou o menino.

O pai pensou em seu próprio pai, que havia morrido um ano antes de o menino nascer. Um longo sofrimento — até que, finalmente, seu corpo se encheu de neve.

Ninguém sabe o que é a morte, disse o pai. Gostaria de ter uma resposta melhor para você.

________

Quatro dias se passaram antes que a caixa, agora pesada de terra e podridão, reaparecesse dentro de casa. Por que isso está aqui? perguntou o pai.

Ninguém sabe o que é a morte, disse o menino. Eu queria descobrir.

Jesus, disse o pai, saindo para a garagem.

A mãe disse gentilmente: Não. Quando as coisas morrem, elas se vão. Então, nós as devolvemos à terra.

________

A cadela havia partido — isso era evidente.

Mas a cadela também estava ali, logo abaixo da superfície, mergulhada na escuridão. O menino sabia que poderia trazê-la de volta para dentro de casa sempre que quisesse —

não importando o que seus pais dissessem.

Trad.: Nelson Santander

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Parable of Childhood

When the dog finally died, dad dug a hole beside the fence and buried her in a boot box.

She’s gone, but she had a good life, mom said. It’s OK to be sad.

________

Next day, the boy came into the kitchen holding the box in front of him. She’s not gone. She’s still in there, he said. Look.

Mom lifted the lid. Sweetie, when things die, we give them back to the earth.

And then we forget them there?

Yes—and no, dad replied. He put the box in the hole and covered it over. Together, they walked back to the house.

________

In the morning, the box was on the kitchen counter. I couldn’t sleep, the boy said. She was all alone out there.

Maybe that’s how she wants it to be, dad replied.

No. She doesn’t want anything, the boy said. She’s dead. But her box was full of air inside the earth. That wasn’t right.

They filled the box with dirt and placed it inside the hole.

________

What does it mean to die? the boy asked.

Dad thought of his own father, who’d died a year before the boy was born. A long suffering—until at last his body had filled with snow.

No one knows what death is, dad said. I wish I had a better answer for you.

________

Four days passed before the box, heavy with dirt and rot, arrived again inside the house. Why is this here? dad asked.

No one knows what death is, the boy said. I wanted to find out.

Jesus, dad said and went out to the garage.

Mom said gently, No. When things die, they’re gone. So we return them to the earth.

________

The dog was gone—that was clear.

But the dog was also right there, just below the surface, packed in darkness. The boy could bring her back inside whenever he wanted—

no matter what his parents said.

Koleka Putuma – Enterro

Nós nos revezávamos para enterrar uns aos outros, animados por estar sob o peso da areia em nossos trajes de banho, com apenas nossas cabecinhas espiando por cima. Quem fazia o papel da mãe do falecido chorava histericamente. Todos queríamos uma chance de interpretar a mãe do falecido, para que pudéssemos soluçar dramaticamente e lançar nossos pequenos corpos sobre a areia e o caixão de conchas. O falecido sempre ganhava vida de tanto rir, e todos nós ríamos durante o cortejo. No funeral, éramos tias, tios, primos e vizinhos que há muito não voltavam para casa. Discutíamos sobre quem seria o guardião dos castelos que construíamos. Aqueles que não recebiam partes da propriedade faziam birra, deixavam de brincar e iam nadar ou colher conchas, ou construir seus próprios castelos. Adquirir terras era fácil naquela época. Possuir algo que você construiu era simples naquela época. O castelo destruído pelo mar era algo que lamentávamos e esquecíamos de manhã. Deixar para trás o que achávamos ser nosso era fácil naquela época. Voltar para casa naquela época, como tias, tios, primos e vizinhos há muito perdidos às vezes faziam, não era complicado ou sobrecarregado por anos de perguntas sem respostas. Conversávamos sem sufocar. Conversávamos sem o fardo do luto ou das responsabilidades. Os caixões podiam ser desfeitos. Morríamos e ressuscitávamos. Éramos frágeis e imortais. Brincávamos de Deus. Íamos e vínhamos quando queríamos. A vida e a morte eram então um jogo para o qual tínhamos um controle remoto.

Trad.: Nelson Santander

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Burial

We took turns to bury each other, excited to be underneath the weight of sand in our bathing suits, with just our tiny heads peering through the top. Whoever played the mother of the deceased would wail hysterically. We all wanted a chance to play the mother of the deceased, so we could sob dramatically and throw our small bodies over the sand and seashell coffin. The deceased would always come to life from too much giggling, we all giggled through the procession. At the funeral we were long-lost aunties and uncles and cousins and neighbours who have not been home in years. We fought over who would be the custodians of the castles we built. Those who were not given property shares threw tantrums and dismissed playing altogether and went swimming or collecting shells, or went about building homes of their own. Acquiring land was easy then. Owning something you had built was simple then. The castle bulldozed by the sea was something we mourned and forgot in the morning. Letting go of what you believed belonged to you was easy then. Coming home then, as long-lost aunties, uncles, cousins and neighbours was not complicated or loaded with years of unanswered questions. We spoke without choking. We spoke without the burden of grief or responsibilities. Coffins could be dismantled. We died and rose again. We were fragile and immortal. We played God. Came and went as we pleased. Life and death then was a game we had a remote for.

Philip Levine – Nosso vale

Não vemos o oceano, nunca, mas em julho e agosto,
quando o pior do calor parece emanar da dura argila
deste vale, pode-se estar caminhando por um pomar de figueiras
quando de repente o tempo esfria, e, por um momento,
é possível sentir o aroma de sal, e nesse momento, quase se pode
crer que algo está esperando além da Pacheco Pass,
algo maciço, irracional, e tão poderoso que nem mesmo
as montanhas que se erguem a leste daqui têm uma palavra para isso.

Você provavelmente acha que estou louco ao dizer que as montanhas
não têm uma palavra para oceano, mas quando se mora aqui,
começa-se a crer que elas sabem tudo.
Elas mantêm aquele enorme silêncio que consideramos sagrado,
um silêncio que cresce no outono, quando a neve cai
lentamente entre os pinheiros, e o vento diminui
a menos do que um sussurro e mal conseguimos recuperar
o fôlego porque estamos emocionados e aterrorizados.

É preciso lembrar que esta não é a sua terra.
Não pertence a ninguém, como o mar ao lado do qual você viveu
e pensou que fosse seu. Lembre-se dos pequenos barcos
que balançavam à medida que as ondas chegavam, e dos homens
que ganhavam a vida com isso, apenas para se verem
reduzidos a nada. Agora você diz que este é seu lar,
então vá em frente, venere as montanhas enquanto elas se dissolvem no pó,
espere pelo vento, sinta o cheiro do sal, chame isso de nossa vida.

Trad.: Nelson Santander

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Our Valley

We don’t see the ocean, not ever, but in July and August
when the worst heat seems to rise from the hard clay
of this valley, you could be walking through a fig orchard
when suddenly the wind cools and for a moment
you get a whiff of salt, and in that moment you can almost
believe something is waiting beyond the Pacheco Pass,
something massive, irrational, and so powerful even
the mountains that rise east of here have no word for it.

You probably think I’m nuts saying the mountains
have no word for ocean, but if you live here
you begin to believe they know everything.
They maintain that huge silence we think of as divine,
a silence that grows in autumn when snow falls
slowly between the pines and the wind dies
to less than a whisper and you can barely catch
your breath because you’re thrilled and terrified.

You have to remember this isn’t your land.
It belongs to no one, like the sea you once lived beside
and thought was yours. Remember the small boats
that bobbed out as the waves rode in, and the men
who carved a living from it only to find themselves
carved down to nothing. Now you say this is home,
so go ahead, worship the mountains as they dissolve in dust,
wait on the wind, catch a scent of salt, call it our life.

Rigoberto González – Casa

Não sou sua mãe, não me comoverei
com o sofrimento ou a gratidão de homens
que lamentam como órfãos à minha porta.
Não sou uma igreja. Não respondo às
orações, mas nunca as rejeito.

Entre e ajoelhe-se, sente-se ou fique de pé,
o peso de seu fardo não diminuirá,
não importa o tempo de sua permanência.
Diga-me o que quiser, eu tenho que ouvir,
mas não espere que eu responda

quando você me contar que perdeu o emprego
ou que sua esposa encontrou um outro amor
ou que seus filhos levaram seus risos
para outra cidade. Você se sente só e vazio?
Estou surpresa. Nem reparei que eles tinham partido.

Apesar da fila de faces fixadas como medalhas
em minhas paredes, eu não as mereci.
Os arranhões na madeira não são minhas cicatrizes.
Se houver um cheiro de especiarias no ar,
culpe os truques da cozinha

ou seu triste vício nos dias passados, que
nunca perduram, não importa o quanto você
acredite que sim. Não sou uma cápsula do tempo.
Não dou valor a coisas insignificantes como mechas
de cabelo, dentes de leite, canhotos de ingressos

e alianças de compromisso — meras partículas
de poeira que eu sopraria para a rua se pudesse
espirrar. Tire seu uniforme do colégio
e o vestido de noiva de sua mulher de perto
de mim. O apego sentimental me incomoda.

Então, vá embora, velho sofá que chora
moedas ao ser arrastado para a varanda.
Adeus, cama fria que quebra seus ossos
em protesto ao despejo, execução hipotecária ou
qualquer que seja a causa desse sinistro desfile

de partidas. Não sou um animal de estimação. Não sinto
o abandono. Às vezes, nem vejo você
chegar, sair ou ficar para trás. Minhas janelas
são seus olhos, não os meus. Se você morrer
dentro de mim, deixarei que você conte

aos vizinhos. Desligue os aquecedores,
não tenho medo do frio. Não sou aquela
que se encontra em um canto no chão
porque o que quer que tenha feito você pensar
que este era um lar caloroso não está mais aqui

para falar com você. Não me olhe
desta forma, não sou a culpada. Não concedi
nada ao imigrante ou ao exilado
que não tenha concedido a um coiote1 ou a um natural
da terra. Não sou um prêmio ou um desejo realizado.

Não sou um castelo de conto de fadas. Embora
já tenha sido, em alguma terra distante habitada
por sonhadores agora extintos. Quem sabe
o que aconteceu lá? Em todo caso, desejo-lhe
uma boa viagem, fantasias grotescas e alegria.

Até mais, disfarce de parede a parede em camurça
vulgar e chita. Cuide-se, seu tolo,
e não se esqueça de que sou apenas uma casa,
uma estrutura sem alma para aqueles cujos
santos padroeiros são a saudade e o desespero.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: 1. “Coiotes” são traficantes de pessoas que operam, frequentemente em redes criminosas, ajudando indivíduos a atravessar ilegalmente fronteiras, especialmente a fronteira entre o México e os Estados Unidos. Essas atividades são ilegais e podem ser perigosas para os migrantes, envolvendo riscos significativos. O termo é amplamente utilizado para descrever aqueles que facilitam a migração ilegal, muitas vezes cobrando somas substanciais em troca de seus serviços.

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Casa

I am not your mother, I will not be moved
by the grief or gratitude of men
who weep like orphans at my door.
I am not a church. I do not answer
prayers but I never turn them down.

Come in and kneel or sit or stand,
the burden of your weight won’t lessen
no matter the length of your admission.
Tell me anything you want, I have to listen
but don’t expect me to respond

when you tell me you have lost your job
or that your wife has found another love
or that your children took their laughter
to another town. You feel alone and empty?
Color me surprised! I didn’t notice they were gone.

Despite the row of faces pinned like medals
to my walls, I didn’t earn them.
The scratches on the wood are not my scars.
If there’s a smell of spices in the air
blame the trickery of kitchens

or your sad addiction to the yesterdays
that never keep no matter how much you believe
they will. I am not a time capsule.
I do not value pithy things like locks
of hair and milk teeth and ticket stubs

and promise rings—mere particles
of dust I’d blow out to the street if I could
sneeze. Take your high school jersey
and your woman’s wedding dress away
from me. Sentimental hoarding bothers me.

So off with you, old couch that cries
in coins as it gets dragged out to the porch.
Farewell, cold bed that breaks its bones
in protest to eviction or foreclosure or
whatever launched this grim parade

of exits. I am not a pet. I do not feel
abandonment. Sometimes I don’t even see you
come or go or stay behind. My windows
are your eyes not mine. If you should die
inside me I’ll leave it up to you to tell

the neighbors. Shut the heaters off
I do not fear the cold. I’m not the one
who shrinks into the corner of the floor
because whatever made you think
this was a home with warmth isn’t here

to sweet-talk anymore. Don’t look at me
that way, I’m not to blame. I granted
nothing to the immigrant or exile
that I didn’t give a bordercrosser or a native
born. I am not a prize or a wish come true.

I am not a fairytale castle. Though I
used to be, in some distant land inhabited
by dreamers now extinct. Who knows
what happened there? In any case, good
riddance, grotesque fantasy and mirth.

So long, wall-to-wall disguise in vulgar
suede and chintz. Take care, you fool,
and don’t forget that I am just a house,
a structure without soul for those whose
patron saints are longing and despair.

Javier Salvago – No verso de uma velha fotografia

Os Beatles ainda não tinham surgido, ninguém havia abatido Che Guevara.

Nat King Cole cantava ansiedad de tenerte en mis brazos ou solamente una vez se entrega el alma.

e no cinema talvez exibissem Sete noivas para sete irmãos.

O comandante Armstrong ainda não havia deixado sua profana pegada no rosto esburacado da lua.

Os velhos seguiam contando histórias da guerra ao calor da fogueira.

Estavam longe o Vietnã, os hippies, a Primavera, Maio e esta discreta liberdade… para fazer o quê?

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 05/09/2019

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Al dorso de una vieja fotografía

Todavía no habían llegado los Beatles, ni habían acribillado a Che Guevara.

Nat King Cole cantaba por la radio ansiedad de tenerte en mis brazos o solamente una vez se entrega el alma.

y en el cine tal vez ponían Siete novias para siete hermanos.

Todavía el comandante Armstrong no había dejado su profana huella sobre el picado rostro de la luna.

Todavía los viejos seguían contando historias de la guerra al calor de la lumbre.

Quedaban lejos Vietnam, los hippies, la Primavera, el Mayo y esta discreta libertad… ¿para hacer qué?

Pattiann Rogers – Expressão Cósmica

Quase tudo o que conheço se regozija
em nascer — não apenas a orangetip do deserto1,
na flor entrelaçada ou na tansy2, sacudindo
de suas asas a umidade do parto, mas também a toutinegra
descoberta fazendo seu ninho, a cabeça inclinada para o céu,
e o gambá-do-mel, o gambá pigmeu,
polegares cegos e sem pelos de avançar,
pressionar e separar.

Quase tudo o que vi avança
para esse estado, como se não houvesse outro
destino conhecido — o estalo violento
e o lançamento da semente da vagem da hamamélis,
a filosofia implícita no impulso de dentro para fora
da semente do trevo-azedo3. Todas as pilosas
sementes de tamargueira são obstinadas
em se prender ao vento e girar
buscando a sorte para nascer na água.

E surpreendo-me bastante ao considerar
todas as incessantes pancadas e espancamentos,
os golpes na cabeça, o furor das asas,
e os estalos de bicos, lutando para se libertar
de cascas gelatinosas, couro,
cálcio ou conchas ásperas e córneas. Pernas
e ombros, joelhos e cotovelos agitam-se igualmente
contra as paredes de seus úteros por toda parte, em nichos
de florestas de pinheiros, barrancos de infiltração e pantanosas
pradarias, entre gramíneas da savana, em esteiras
tecidas e lençóis perfumados de linho.

Fanáticos frenéticos, todos, mesmo antes do
início eles são poeira escura e congelada
de puro frenesi para vir à luz.

Quase tudo o que conheço anseia por nascer,
a obsessão se funda explicitamente
nas harpas e escadas de ossos,
no coração pulsante, vasos e vozes
de todos aqueles que aceleram com ímpeto
inequívoco e absoluto em direção a esta honra indescritível.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.:

1. Trata-se de uma borboleta, a Desert Orangetip, também conhecida como Anthocharis cethura. Essa borboleta é uma espécie nativa do sudoeste dos Estados Unidos e norte do México. Possui uma aparência marcante, com asas brancas translúcidas e bordas alaranjadas, destacando-se contra os cenários desérticos.

2. O tansy (Tanacetum vulgare) é uma planta herbácea e perene da família das asteráceas, nativa da Europa e Ásia temperadas.

3. A azedinha (wood sorrel ou Oxalis) é uma erva daninha comestível selvagem com um sabor cítrico e brilhante.

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Opus from Space

Almost everything I know is glad
to be born—not only the desert orangetip,
on the twist flower or tansy, shaking
birth moisture from its wings, but also the naked
warbler nesting, head wavering toward sky,
and the honey possum, the pygmy possum,
blind, hairless thimbles of forward,
press and part.

Almost everything I’ve seen pushes
toward the place of that state as if there were
no knowing any other—the violent crack
and seed-propelling shot of the witch hazel pod,
the philosophy implicit in the inside out
seed-thrust of the wood sorrel. All hairy
saltcedar seeds are single-minded
in their grasping of wind and spinning
for luck toward birth by water.

And I’m fairly shocked to consider
all the bludgeonings and batterings going on
continually, the head-rammings, wing-furors,
and beak-crackings, fighting for release
inside gelatinous shells, leather shells,
calcium shells or rough, horny shells. Legs
and shoulder, knees and elbows flail likewise
against their womb walls everywhere, in pine
forest niches, seepage banks and boggy
prairies, among savannah grasses, on woven
mats and perfumed linen sheets.

Mad zealots, every one, even before
beginning they are dark dust-congealings
of pure frenzy to come into light.

Almost everything I know rages to be born,
the obsession founding itself explicitly
in the coming bone harps and ladders,
the heart-thrusts, vessels and voices
of all those speeding with clear and total
fury toward this singular honor.