C. K. Williams – A Corsa

Perto do crepúsculo, de uma trilha, de um arroio,
paramos, eu, inquieto e angustiado
pelo sofrimento de alguém que eu amava;
a corsa, sempre sobressaltada.

Apenas sua orelha ligeira se movia,
transpassada pelo sol avermelhado,
tingida de uma cor que eu só vira
na foto de uma criança no ventre.

Nada mais se movia, nem uma folha,
nem o ar, mas ela se assustou e disparou
para dentro da mata crepitante.

A fração de minha dor que às vezes
me liberta partiu com ela; o resto,
no rastro da luz tardia, ficou.

Trad.: Nelson Santander

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The Doe

Near dusk, near a path, near a brook,
we stopped, I in disquiet and dismay
for the suffering of someone I loved,
the doe in her always incipient alarm.

All that moved was her pivoting ear
the reddening sun shining through
transformed to a color I’d only seen
on a photo of a child in a womb.

Nothing else stirred, not a leaf,
not the air, but she startled and bolted
away from me into the crackling brush.

The part of my pain which sometimes
releases me from it fled with her, the rest,
in the rake of the late light, stayed.

Haroldo Barbosa e Luis Reis – Notícia de Jornal

 

“Tentou contra a existência
Num humilde barracão
Joana de Tal, por causa de um tal João.
Depois de medicada,
Retirou-se pro seu lar.”

Aí a notícia carece de exatidão.
O lar não mais existe.
Ninguém volta ao que acabou.
Joana é mais uma mulata triste que errou.

Errou na dose, errou no amor,
Joana errou de João.
Ninguém notou, ninguém morou
Na dor que era o seu mal:

– A dor da gente não sai no jornal…

Letra: Haroldo Barbosa / Intérpretes: Chico Buarque e Miltinho

REPUBLICAÇÃO: canção originalmente publicada na página em 13/03/2016

Eavan Boland – Chegamos sempre tarde demais

A memória
tem duas partes.

Primeiro, a revisitação:

o modo como ainda posso ver
aqueles amantes à mesa do café. Ela chora.

Nova Inglaterra. Hora do café da manhã. Inverno. Atrás dela,
além da janela panorâmica,
um bosque de pinheiros brancos.

Neve nova cai, e a antiga,
perdendo o equilíbrio nos ramos,
se desprende em fragmentos,
acrescendo novas frações. Depois,

a reencenação. Sempre a mesma coisa.
Eu me levanto, afasto
o café. E sempre estou indo até ela.

O rubor e o ardor coram
sua fronte agora, e descem pelo pescoço.

Ergo uma das mãos. Aponto para
aquelas árvores, mostro a ela nossa necessidade dessas
belas superações do
que sofremos pelo
que sobrevive. E ela nunca sequer me vê.

Trad.: Nelson Santander

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We are always too late

Memory
is in two parts.

First, the revisiting:

the way even now I can see
those lovers at the café table. She is weeping.

It is New England, breakfast time, winter. Behind her,
outside the picture window, is
a stand of white pines.

New snow falls and the old,
losing its balance in the branches,
showers down,
adding fractions to it. Then

the reenactment. Always that.
I am getting up, pushing away
coffee. Always, I am going towards her.

The flush and scald is
to her forehead now, and back down to her neck.

I raise one hand. I am pointing to
those trees, I am showing her our needs for these
beautiful upstagings of
what we suffer by
what what survives. And she never even sees me.

Caetano Veloso – Como Dois e Dois

Quando você me ouvir cantar
Venha, não creia, eu não corro perigo
Digo, não digo, não ligo, deixo no ar
Eu sigo apenas porque eu gosto de cantar…

Tudo vai mal, tudo
Tudo é igual quando eu canto e sou mudo
Mas eu não minto, não minto, estou longe e perto
Sinto alegrias, tristezas e brinco

Meu amor, tudo em volta está deserto, tudo certo
Tudo certo como dois e dois são cinco…

Quando você me ouvir chorar
Tente, não cante, não conte comigo
Falo, não calo, não falo, deixo sangrar
Algumas lágrimas bastam pra consolar

Tudo vai mal, tudo
Tudo mudou, não me iludo e contudo
A mesma porta sem trinco, o mesmo teto,
E a mesma lua a furar nosso zinco.

Meu amor, tudo em volta está deserto, tudo certo
Tudo certo como dois e dois são cinco.

REPUBLICAÇÃO: canção originalmente publicada na página em 13/03/2016

Eavan Boland – Âmbar

Nunca importou que houvesse outrora um vasto lamento:

árvores nas colinas, nos bosques, chorando —
um ouro fluido vertendo

até o chão através das estações e dos séculos —
até agora.

Nesta amena tarde de setembro, da qual você está ausente,
seguro, como se minha mão pudesse retê-lo,
um ornamento de âmbar

que um dia você me deu.

A razão diz:
Os mortos não podem ver os vivos.
Os vivos nunca verão os mortos novamente.

O ar límpido de que precisávamos para nos encontrar
se perdeu para sempre, e ainda assim

esta resina um dia
recolheu sementes, folhas, e até pequenas penas, enquanto caía
e caía.

Agora, sob a luz do sol, elas parecem tão vivas quanto
sempre foram,

como se o passado se tornasse o presente e a própria memória
um mel báltico —

um desgaste nas margens do visível, uma prova do quanto
pode ser preservado

dentro de uma imperfeita translucidez.

Trad.: Nelson Santander

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Amber

It never mattered that there was once a vast grieving:

trees on their hillsides, in their groves, weeping—
a plastic gold dropping

through seasons and centuries to the ground—
until now.

On this fine September afternoon from which you are absent
I am holding, as if my hand could store it,
an ornament of amber

you once gave me.

Reason says this:
The dead cannot see the living.
The living will never see the dead again.

The clear air we need to find each other in is
gone forever, yet

this resin once
collected seeds, leaves and even small feathers as it fell
and fell

which now in a sunny atmosphere seem as alive as
they ever were

as though the past could be present and memory itself
a Baltic honey—

a chafing at the edges of the seen, a showing off of just how much
can be kept safe

inside a flawed translucence.

Caetano Veloso – O Homem Velho

O homem velho deixa a vida e morte para trás
Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais
O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais
O homem velho é o rei dos animais

A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol
As linhas do destino nas mãos a mão apagou
Ele já tem a alma saturada de poesia, soul e rock’n’roll
As coisas migram e ele serve de farol

A carne, a arte arde, a tarde cai
No abismo das esquinas
A brisa leve traz o olor fugaz
Do sexo das meninas

Luz fria, seus cabelos têm tristeza de néon
Belezas, dores e alegrias passam sem um som
Eu vejo o homem velho rindo numa curva do caminho de Hebron
E ao seu olhar tudo que é cor muda de tom

Os filhos, filmes, livros, ditos como um vendaval
Espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal
Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que é imortal

REPUBLICAÇÃO: canção publicada no blog originalmente em 12/03/2016

Eavan Boland – Brasas

Em uma noite de inverno, quando uma geada cortante
fazia as trilhas entre os tojais estalarem sob os pés,
uma desventurada mulher, olhos arregalados, cabelos em desalinho,
chegou ao lugar onde os Fianna1 haviam montado acampamento.

Tua face é de sombra. Estás lendo.
Ainda há calor na fogueira. Estou lendo:

Ela pediu a cada um deles, por sua vez,
que a levasse para sua cama, que a abrigasse com seu corpo.
Cada um a olhou — ela era velha além dos anos.
Cada um a recusou, cada um a repeliu, exceto Diarmuid.

Quando ele acordou pela manhã, ela era jovem e bela.
E era dele, para sempre, mas com uma condição:
ele não poderia dizer que ela já fora velha e abatida.
Ele não poderia dizer que ela jamais tinha sido… aqui eu levanto o olhar.

Estás de costas. Não tens interesse nisso.

Fiz essa fogueira com a primeira turfa do inverno.
Olha-me sob a última luz polida dela.
Diz-me que ainda sentes o calor.
Diz-me que nunca falarás sobre as cinzas.

Trad.: Nelson Santander

  1. O poema faz referência a uma lenda do ciclo mitológico irlandês conhecido como Ciclo Feniano (ou Ciclo Ossiânico). Diarmuid Ua Duibhne era um guerreiro dos Fianna, um grupo de heróis liderados por Fionn mac Cumhaill na Irlanda antiga. A passagem alude ao encontro de Diarmuid com uma mulher idosa e miserável que pede abrigo aos guerreiros, sendo rejeitada por todos, exceto por ele. Em algumas interpretações, essa figura pode ser associada ao motivo mitológico da Soberania — uma personificação da terra da Irlanda, que testa os heróis aparecendo primeiro como uma velha horrenda (cailleach) antes de revelar sua verdadeira forma como uma jovem bela. Esse padrão narrativo, comum na mitologia celta, simboliza a aliança entre o herói digno e a terra/soberania. A condição imposta a Diarmuid — nunca mencionar sua aparência anterior — representa a lealdade e discrição exigidas em relações de confiança. No poema de Boland, essa história mítica serve como metáfora para relacionamentos contemporâneos, sugerindo as complexidades da memória, do envelhecimento e da intimidade. ↩︎

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Embers

One night in winter when a bitter frost
made the whin-paths crack underfoot,
a wretched woman, eyes staring, hair in disarray,
came to the place where the Fianna had pitched camp.

Your face is made of shadow. You are reading.
There is heat from the fire still. I am reading:

She asked every one of them in turn
to take her to his bed, to shelter her with his body.
Each one looked at her — she was old beyond her years.
Each one refused her, each spurned her, except Diarmuid.

When he woke in the morning she was young and beautiful.
And she was his, forever, but on one condition.
He could not say that she had once been old and haggard.
He could not say that she had ever … here I look up.

You are turned away. You have no interest in this.

I made this fire from the first peat of winter.
Look at me in the last, burnished light of it.
Tell me that you feel the warmth still.
Tell me you will never speak about the ashes.

Adriana Calcanhotto e Antonio Cicero – Inverno

No dia em que fui mais feliz
Eu vi um avião
Se espelhar no seu olhar até sumir
De lá pra cá não sei
Caminho ao longo do canal
Faço longas cartas pra ninguém
E o inverno no Leblon é quase glacial
Há algo que jamais se esclareceu:
Onde foi exatamente que larguei
Naquele dia mesmo
O leão que sempre cavalguei?
Lá mesmo esqueci
Que o destino
Sempre me quis só
No deserto sem saudade, sem remorso só
Sem amarras, barco embriagado ao mar
Não sei o que em mim
Só quer me lembrar
Que um dia o céu
Reuniu-se a terra um instante por nós dois
Pouco antes do Ocidente se assombrar

Letra de Antonio Cícero

REPUBLICAÇÃO: canção originalmente publicado na página em 12/03/2016

Lee Stockdale – O armazém geral do meu falecido pai no meio do deserto

Tem bombas de gasolina com o Pégaso vermelho1,
mas não é apenas um posto de gasolina, seu pai não é meu pai,
de pé sobre mim, com uma prancheta, conferindo as coisas feitas e por fazer.

Ele parece feliz nesta última parada antes da morte para os que vivem,
antes da vida para os que ainda não nasceram,
onde seu armazém geral negocia farinha, açúcar, cortes de carnes,
ou fígado, roxo-avermelhado, um coração que ele embrulha em papel pardo.

Ele corta meu cabelo sob a cobertura de zinco. Devo ter chegado aqui
de uma direção ou outra pela estrada que se estende de horizonte a horizonte,
o calor do deserto fazendo meus olhos tremular como poças.

Cheguei engatinhando,
e ele me entregou uma Nehi de laranja gelada.
É pura coincidência que esta loja seja do meu pai.
Pergunto-lhe de onde vem toda essa mercadoria, já que nenhum caminhão passa por essa estrada
para repor produtos que ninguém compra.
Ele não gosta de perguntas que desafiam sua existência.
Fico quieto, pois ele está cortando meu cabelo
e pode, consciente ou inconscientemente, me deixar com uma aparência ridícula.

Você está fazendo um ótimo trabalho aqui, digo, o que ele sabe que é besteira –
quantos pais, mesmo mortos, montam um armazém geral no deserto?
Insisto: Você mantém as prateleiras abastecidas, o chão varrido, o banheiro limpo.
Quanto mais falo, mais me encorajo a amá-lo pelo trabalho que teve
para fazer tudo isso parecer real, com latas de pregos de todos os tamanhos, feijão, arroz,
prateleiras de bebidas, balcão de frios com picles gigantes.

Começo a perceber que homem querido e doce ele é. Será porque está morto?
Queria que estivesse vivo outra vez.
Não acho que ele tenha se matado só para me magoar pessoalmente.
À noite, ele diz, coiotes uivantes descem das montanhas
e deixam recados, versículos bíblicos, ameaças, cartas de amor.
Tudo que um coiote precisa tirar do peito.
Pergunto se eles vêm todas as noites.
Sem falta, ele diz

Trad.: Nelson Santander

  1. Lee Stockdale venceu o National Poetry Competition com o poema My Dead Father’s General Store in the Middle of a Desert, escolhido entre mais de 17 mil inscrições de 103 países. O poema, elogiado por sua “beleza, inteligência e graça”, retrata um encontro entre pai e filho, refletindo sobre perda e reconciliação. A obra foi inspirada na trágica morte do pai do poeta, que tirou a própria vida dias após o assassinato de John F. Kennedy. (Fonte: The Guardian, 29/03/2023) ↩︎

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My Dead Father’s General Store in the Middle of a Desert

It has gas pumps with red horses and wings,
but is not merely a gas station, your father is not my father,
standing over me with a clipboard, checking off things done and left undone.

He seems happy at this last stop before death for those living,
before life for those not yet born,
where his general store deals in flour, sugar, pieces of hacked meat,
or liver, reddish purple, a heart he wraps in brown paper.

He cuts my hair beneath the tin awning. I must have gotten here
from one direction or other on the road that stretches horizon to horizon,
the desert heat shimmering my eyes into pools.

I crawled in on my hands and knees,
he handed me an ice-cold orange Nehi drink.
It’s pure coincidence that this store is my father’s.
I ask him where all this stuff comes from, as no trucks travel this road
to replenish merchandise no one buys.
He doesn’t like questions that challenge his existence.
I become quiet, he’s cutting my hair
and might consciously or unconsciously make me look bad.

You’re doing a great job out here, I say, which he knows is bullshit –
how many fathers, even if they’re dead, set up a general store in a desert.
I persist, You keep the shelves stocked, floor broomed, bathroom clean.
The more I talk, the more I encourage myself to love him for the trouble he went to
making all this seem real, with cans of various sized nails, beans, rice,
shelves of liquor, deli section with giant pickles.

I begin to see what a dear, sweet man he is. Is this because he is dead?
I wish he were alive again.
I don’t think he killed himself to be mean to me personally.
At night, he says, howling coyotes come down from the mountains
and leave notes, Bible verses, threatening messages, love letters.
Everything a coyote wants to get off its chest.
I ask if they come every night.
He says, Without fail.

Carlos Drummond de Andrade – Versos à Boca da Noite

Sinto que o tempo sobre mim abate
sua mão pesada. Rugas, dentes, calva.
Uma aceitação maior de tudo,
e o medo de novas descobertas.

Escreverei sonetos de madureza?
Darei aos outros a ilusão de calma?
Serei sempre louco? Sempre mentiroso?
Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo?

Há muito suspeitei o velho em mim.
Ainda criança, já me atormentava.
Hoje estou só. Nenhum menino salta
de minha vida, para restaurá-la.

Mas se eu pudesse recomeçar o dia!
Usar de novo minha adoração,
meu grito, minha fome. Vejo tudo
impossível e nítido, no espaço.

Lá onde não chegou minha ironia,
entre ídolos de rosto carregado,
ficaste, explicação de minha vida,
como os objetos perdidos na rua.

As experiências se multiplicaram:
viagens, furtos, altas solidões,
o desespero, agora cristal frio,
a melancolia, amada e repelida,

E tanta indecisão entre dois mares,
entre duas mulheres, duas roupas.
Toda essa mão para fazer um gesto
que de tão frágil nunca se modela,

E fica inerte, zona de desejo
selada por arbustos agressivos.
(Um homem se contempla sem amor,
se despe sem qualquer curiosidade.)

Mas vêm o tempo e a ideia de passado
visitar-te na curva de um jardim.
Vem a recordação, e te penetra
dentro de um cinema, subitamente.

E as memórias escorrem do pescoço,
do paletó, da guerra, do arco-íris;
enroscam-se no sonho e te perseguem,
à busca de pupila que as reflita.

E depois das memórias vem o tempo
trazer novo sortimento de memórias,
até que, fatigado, te recuses
e não saibas se a vida é ou foi.

Esta casa, que miras de passagem,
estará no Acre? na Argentina? Em ti?
Que palavra escutaste, e onde, quando?
Seria indiferente ou solidária?

Um pedaço de ti rompe a neblina,
voa talvez para a Bahia e deixa
outros pedaços, dissolvidos no atlas,
em País-do-Riso e em tua ama preta.

Que confusão de coisas ao crepúsculo!
Que riqueza! Sem préstimo, é verdade.
Bom seria captá-las e compô-las
num todo sábio, posto que sensível:

uma ordem, uma luz, uma alegria
baixando sobre o peito despojado.
E já não era o furor dos vinte anos
nem a renúncia às coisas que elegeu,

Mas a penetração no lenho dócil,
um mergulho em piscina, sem esforço,
um achado sem dor, uma fusão,
tal uma inteligência do universo

comprada em sal, em rugas e cabelo.

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 11/03/2016