Samuel Yellen – Como em uma marca d’água

Como em uma marca d’água, deciframos,
Por baixo do verniz da relva e dos ramos,
A obsoleta planta da fundação,
E onde corriam muros e construção.

Aqui, os cascalhos enterrados guardam
Vias trilhadas por pés que já não andam;
Cada fragmento que sobreviveu
Vela cicatrizes do que já morreu.

É fácil ler que aqui ficava a entrada,
Mas não o passado e sua aprisionada
Aversão. Lemos as linhas de um salão,
Mas não sua oculta e surda danação.

Lemos nessas esmaecidas ruínas
A calamidade que não discrimina;
Não de Pompéia o logro violento,
Mas a lava do tempo em movimento.

Trad.: Nelson Santander

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As in a Watermark

As in a watermark, we read
Beneath the gloss of grass and weed
The obsolete foundation plan
And where the walls and plumbing ran.

Here the sunken stones secrete
The pathways of now vanished feet;
Each surviving trace contrives
To shroud the scars of former lives.

With ease we read the door was here,
But not the bygone shut-in fear;
We read the contours of this room,
But not its muffled private doom.

We read in this eclipsed debris
The leveling catastrophe;
Not Pompeii’s crushing pantomime,
But the lava flow of time.

Angela Leite de Souza – Do Lado de Cá Dessas Rosas

Nem percebi quando me cobriram
com esta colcha rosa de rosas
amorosamente.
Dormia meu novo sono
sem tranquilizantes, sem relógios:
estou serena e não há pressa em acordar.
Ser apenas, estar.
Não me roem mais tristezas nem desejos,
lateja leve leve uma saudade.
Meu corpo vai não sendo, sou feliz.
Livre do dever de viver e de burlar
a morte
compreendo: um é o avesso da outra,
sua sombra, seu reflexo, viceversamente.
Indivisíveis e incomunicáveis,
a morte, onipresente na vida,
e a vida, na morte, transparente.
Quem me garante não ser a vida esta
que um lençol de flores aquece e acalenta e basta?
Não será muito mais morte
a lágrima caída em minha testa
ou a mão que em vão me roça
à procura de respostas?

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 22/02/2016

Mariana Spada – Bratislava

A primeira lufada de sol
se derramou preguiçosamente
sobre estátuas de heroísmo alheio
e ruas desertas após uma geada
que deve ter coberto de gelo a margem
do outro lado do Danúbio.

Bratislava ficou para trás.
O grande livro do mundo
se abre inteiramente esta manhã
e o balanço suave do vagão-restaurante
é como uma mãe que passa
cem vezes a escova em nosso cabelo
enquanto sussurra ao ouvido:
não há futuro que seja nosso
é pura ventura o presente
e o passado um cacho
curto e embaraçado.

Trad.: Nelson Santander

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Bratislava

La primera bocanada de sol
fue derramándose lacia
sobre estatuas de heroísmo ajeno
y calles desiertas al cabo de una helada
que habrá escarchado la orilla
al otro lado del Danubio.

Atrás quedó Bratislava.
El gran libro del mundo
se abre por completo esta mañana
y el meneo suave del vagón comedor
es como una madre que nos pasa
cien veces el cepillo por el pelo
mientras susurra al oído:
no hay futuro que sea nuestro
es todo dicha el presente
y el pasado un rizo
corto y enredado.

Carlos Drummond de Andrade – Os Rostos Imóveis

Pai morto, namorada morta.
Tia morta, irmão nascido morto.
Primos mortos, amigo morto
Avô morto, mãe morta
(mãos brancas, retrato sempre inclinado na parede, grão de poeira nos olhos).
Conhecidos mortos, professora morta.

Inimigo morto.
Noiva morta, amigas mortas.
Chefe de trem morto, passageiro morto.
Irreconhecível corpo morto: sera homem ou bicho!
Cão morto, passarinho morto.
Roseira morta, laranjeiras mortas.
Ar morto, enseada morta.
Esperança, paciência, olhos, sono, mover de mão: mortos.

Homem morto. Luzes acesas.
Trabalha à noite, como se fora vivo.

Bom dia! Está mais forte (como se fora vivo).

Morto sem notícia, morto secreto.
Sabe imitar fome, e como finge amor.

E como insiste em andar, e como anda bem.
Podia cortar casas, entrar pela porta.

Sua mão pálida diz adeus à Rússia.
O tempo nele entra e sai sem conta.
Os mortos passam rápidos, já não há pegá-los.
Mais um se despede, outro te cutuca.
Acordei e vi a cidade:
eram mortos mecânicos,
eram casas de mortos,
ondas desfalecidas,
peito exausto cheirando a lírios,
pés amarrados.
Dormi e fui à cidade:
toda se queimava,
estalar de bambus,
boca seca, logo crispada.
Sonhei e volto à cidade.
Já não era a cidade.
Estavam todos mortos, o corregedor-geral verificava etiquetas nos cadáveres.
O próprio corregedor morrera há anos, mas sua mão continuava implacável.
O mau cheiro zumbia em tudo.

Desta varanda sem parapeito contemplo os dois crepúsculos.
Contemplo minha vida fugindo a passo de lobo, quero detê-la, serei mordido?
Olho meus pés, como cresceram, moscas entre eles circulam.
Olho tudo e faço a conta, nada sobrou, estou pobre, pobre, pobre,
mas não posso entrar na roda,
não posso ficar sozinho,
a todos beijarei na testa,
flores umidas esparzirei,
depois… não há depois nem antes.
Frio há por todos os lados,
e um frio central, mais branco ainda.

Mais frio ainda…
Uma brancura que paga bem nossas antigas cóleras e amargos…
Sentir-me tão claro entre vós, beijar-vos e nenhuma poeira em boca ou rosto.

Paz de finas árvores,
de montes fragílimos lá embaixo, de ribeiras tímidas, de gestos que já não podem mais irritar,
doce paz sem olhos, no escuro, no ar.
Doce paz em mim,
em minha família que veio de brumas sem corte de sol
e por estradas subterrâneas regressa às suas ilhas,
na minha rua, no meu tempo – afinal – conciliado,
na minha cidade natal, no meu quarto alugado,
na minha vida, na vida de todos, na suave e profunda morte de mim e de todos.

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 22/02/2016

Alison C. Rollins – A Biblioteca de Babel

A Biblioteca de Babel

para Jorge Luis Borges

Enquanto ainda houver um pouco de luz
sobre a página, escrevo agora
uma história da neve, de tudo
o que já foi e ainda será pensado.
Quando um poeta cego diz Preciso que você
seja meus olhos, ele está pedindo para ver
através de sua boca.

Trad.: Nelson Santander

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The Library of Babel

for Jorge Luis Borges

While there is still some light
on the page, I am writing now
a history of snow, of everything
that has been and will be thought.
When a blind poet says I need you
to be my eyes, they are asking to see
through your mouth.

Carlos Drummond de Andrade – Noturno Oprimido

A água cai na caixa com uma força,
com uma dor! A casa não dorme, estupefata.
Os móveis continuam prisioneiros
de sua matéria pobre, mas a água parte-se

a água protesta. Ela molha toda noite
com sua queixa feroz, seu alarido.
E sobre nossos corpos se avoluma
o lago negro de não sei que infusão.

Mas não é o medo da morte do afogado,
o horror da água batendo nos espelhos,
indo até cofres, os livros, as gargantas.
É o sentimento de uma coisa selvagem,

Sinistra, irreparável, lamentosa.
Oh vamos nos precipitar no rio espesso
que derrubou a última parede
entre os sapatos, as cruzes e os peixes cegos do tempo.

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 22/02/2016

Jules Supervielle – A ponta da chama

Por toda sua vida,
Ele gostou de ler
À luz de uma vela
E com frequência passava
A mão sobre a chama
Para convencer-se
De que estava vivo,
De que estava vivo.

Desde o dia em que morreu
Ele mantém ao lado
Uma vela acesa,
Mas oculta as mãos.

Trad.: Nelson Santander. Tradução para o português, a partir da versão em inglês de W.S. Merwin (original em francês).

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The Tip of the Flame

All through his life
He had liked to read
By a candle
And often he passed
His hand over the flame
To convince himself
That he was alive,
That he was alive.

Since the day he died
He has kept beside him
A lighted candle
But he hides his hands.

Cassiano Ricardo – Vociferação

  I

 Homem
 em Adão.
 Homem
em Cristo.
 Homem
 em globo.

  II

como salvar
  Deus?
nós faremos
  d’Ele
novamente o
 Autor de
 tudo:
do peixe, da
 ave, da
  cobra,
 da maçã,
do sapo, do
 rouxinol
 do sol.

 O
obrigaremos
  contudo
a suar san-
gue conosco,
  na guerra,
  na fome
  na peste
  na
  terra suja;

a engolir
    fogo
  como nós,
   no circo
  queimando
    boca
e estômago.

  Um Deus
que nos
   socorra.
Que não fuja;
  que morra
em nós.
   Quando
  qualquer
   de nós
  morra.

À semelhança
de qualquer
   de nós.

Deus mal-me-
  quer
Deus bem-me-
  quer

)horizontal
 vertical(

 no leito
na forca
  ou num
batiscafo.

  III

 Um Deus
de cabeça
 pra baixo

  Morcego
pendurado
  no teto
da igreja.

 Um Deus
antiazul.

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 22/02/2016

Natasha Trethewey – Teorias sobre o tempo e o espaço

Pode-se chegar lá a partir daqui, embora
não haja como voltar para casa.

Todo lugar aonde for será algum lugar
onde você nunca esteve. Experimente isso:

siga para o sul pela Mississippi 49,
os marcos da estrada, um a um, assinalando

mais um minuto de sua vida. Siga por aí
até sua conclusão natural — ponto final

na costa, o píer em Gulfport onde
os cordames dos barcos de camarão são pontos soltos

em um céu que ameaça chuva. Atravesse
a praia artificial, 26 milhas de areia

despejada sobre um mangue — terreno
soterrado do passado. Traga apenas

o que precisa carregar — um tomo de memórias,
suas páginas em branco aleatórias. No cais,

onde você embarca para Ship Island,
alguém tirará sua foto:

a fotografia — quem você era —
estará lá à espera, quando voltar

Trad.: Nelson Santander

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Theories of Time and Space

You can get there from here, though
there’s no going home.

Everywhere you go will be somewhere
you’ve never been. Try this:

head south on Mississippi 49, one—
by—one mile markers ticking off

another minute of your life. Follow this
to its natural conclusion—dead end

at the coast, the pier at Gulfport where
riggings of shrimp boats are loose stitches

in a sky threatening rain. Cross over
the man-made beach, 26 miles of sand

dumped on a mangrove swamp—buried
terrain of the past. Bring only

what you must carry—tome of memory
its random blank pages. On the dock

where you board the boat for Ship Island,
someone will take your picture:

the photograph—who you were—
will be waiting when you return

Cassiano Ricardo – Gramática Visual de Cristo

1

“Cristo, terá sido
em vão teu sacri-
fício?
vê, o sangue escorre,
acre, no massacre
das ruas.”

Cristo espalmou a
mão
cobrindo os olhos
horizontalmente
pra não ver
a destruição
do ser

2

“Cristo,
vê os pequeninos
que tanto amaste
agora garotos
nos becos
como ratos dentro
de sapatos
rotos.”

Cristo escondeu,
de novo, a face,
como se chorasse
não querendo
que o vissem
chorar.

Gramática visual
a de Cristo;
“Não ver
é não ser visto.“

3

“Cristo,
ouve a imprecação
que sai da boca
dos famintos,
dos nus,
caídos na sarjeta
fria por onde
ninguém passa
mesmo por graça.”

Cristo se mantém
mudo
cotovelo ossudo
posto
em ângulo agudo
ocultando as rugas
do rosto.

Mudo, dizia tudo
cobrindo o olhar
verde
(Ver – ser cúmplice
Não ver – igual
a não ser visto.
Gramática visual
de Cristo)

4

Como se dissesse:
“Pudesse, arranca-
ria os olhos pelo
vídeo
(como Édipo)
à hora dos robôs
regougando
invadirem a furna-
urna-noturna
prá morte dupla:
(o suicídio/
deicídio)

“Que restará
do ‘amai-vos
uns aos outros’?
Só os laivos nos
lábios
dos que se beijam
hoje
de coração trocado.”

“Desço a persiana
da pálpebra
mas fica incendia-
do em mim o olho
d’alva interior
vendo tudo,”

“Deus e o Homem
comidos pelo fogo
de fulgorídeo
no mesmo ato
exato,
execrando.”

5

Nisto Cristo
parou de falar
vendando o rosto
e a barba
já hirsuta
braço em ângulo
agudo
sobre o olhar
verde.

Já fora do ar.

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 22/02/2016