Louise Bogan – Canção

Ama-me porque estou perdida;
Ama-me em minha ruína.
Isso é coragem, — nenhum homem,
Nem um sequer almejou tal sina.

Sê forte, olha para o meu coração
Como outros olham meu semblante.
Ama-me — digo-te: ali é um lugar
Terrível e decadente.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Song

Love me because I am lost;
Love me that I am undone.
That is brave,—no man has wished it,
Not one.

Be strong, to look on my heart
As others look on my face.
Love me,—I tell you that it is a ravaged
Terrible place.

Amadeu Amaral – Névoa

Tudo isto há de passar, decerto, muito em breve…
Branca névoa sutil, ir-se-á quando o sol nasça;
branco sonho de amor, passará, como passa
pelas ondas em fúria uma garça de neve.

Passará dentro em pouco, imitando a fumaça
que se evola e se esvai nas curvas que descreve.
Fumaça de ilusão, força é que o vento a leve,
força é que o vento a leve, e disperse, e desfaça.

Que importa! Uma ilusão que nos alegra e afaga
há de ser sempre assim, no mar bravo da vida,
como a espuma que fulge e morre sobre a vaga.

Esta me há de fugir, esta que hoje me inflama!
E antes vê-la fugir como uma luz perdida
que possuí-la na mão como um pouco de lama…

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 22/02/2016

Seamus Heaney – Uma ligação

‘Espere’, ela disse, ‘Vou lá fora chamá-lo.
O clima aqui está tão bom que ele aproveitou
Para capinar um pouco’.
Então eu o vi
Ajoelhado ao lado do canteiro de alho-poró,
Tocando, inspecionando, separando um
Talo do outro, delicadamente arrancando
Tudo o que não era afilado, frágil e sem folhas,
Satisfeito ao sentir cada pequena raiz de erva daninha se partir,
Mas pesaroso também…

Então me peguei ouvindo
O grave e amplificado tique-taque dos relógios no corredor,
Onde o telefone jazia esquecido em uma calma
De vidro espelhado e pêndulos ensolarados…

E me peguei então pensando: se fosse hoje,
É assim que a Morte convocaria o Homem Comum.

No instante seguinte ele falou, e eu quase disse que o amava.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

A call

‘Hold on,’ she said, ‘I’II just run out and get him.
The weather here’s so good, he took the chance
To do a bit of weeding.’
So I saw him
Down on his hands and knees beside the leek rig,
Touching, inspecting, separating one
Stalk from the other, gently pulling up
Everything not tapered, frail and leafless,
Pleased to feel each little weed-root break,
But rueful also…

Then found myself listening to
The amplified grave ticking of hall clocks
Where the phone lay unattended in a calm
Of mirror glass and sunstruck pendulums …

And found myself then thinking: if it were nowadays,
This is how Death would summon Everyman.

Next thing he spoke and I nearly said I loved him.

Lêdo Ivo – Epitalâmio

A terra cessa de girar, para que eu te ame.
Não há mais Dia e Noite, meu amor.
Somos hóspedes do impossível. Tudo é verdade
e as horas irrompem como vulcões.
O mar não clama, embora ainda exista.

Para os que amam, como nós, as rotações foram

abolidas,

os séculos assumem a forma de um instante,
e os corpos giram, planetas nas almas imóveis.

 

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 22/02/2016

Seamus Heaney – Recesso escolar

Passei a manhã toda na enfermaria da escola1
Contando os sinais que marcavam o fim das aulas.
Às duas horas, os vizinhos me levaram para casa.

Na varanda, encontrei meu pai chorando —
Ele que sempre enfrentara funerais com serenidade —
E Big Jim Evans dizendo que fora um duro golpe.

O bebê balbuciava e sorria balançando o carrinho
Quando entrei, e me senti constrangido
Com os velhos que se levantavam para apertar minha mão

E dizer que ‘lamentavam minha perda’.
Sussurros informavam aos estranhos que eu era o mais velho,
E estudava fora, enquanto minha mãe segurava minha mão

na dela e soltava suspiros secos e raivosos.
Às dez horas, a ambulância chegou
Com o corpo, já limpo e enfaixado pelas enfermeiras.

Na manhã seguinte, subi até o quarto. Campainhas-brancas
E velas suavizavam a cabeceira; vi-o
Pela primeira vez em seis semanas. Mais pálido agora,

Com um hematoma de papoula na têmpora esquerda,
Jazia em uma caixa de quatro pés, como em seu berço.
Sem cicatrizes evidentes, o para-choque o arremessara longe.

Uma caixa de quatro pés, um pé para cada ano.

Trad.: Nelson Santander

  1. O poema foi inspirado pela morte do irmão mais novo de Heaney, Christopher, que faleceu tragicamente aos quatro anos de idade, após ser atropelado por um carro. O evento ocorreu quando Heaney estava no internato, e a experiência de retornar para casa e confrontar o luto familiar moldou a carga emocional e reflexiva do poema. ↩︎

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Mid-Term Break

I sat all morning in the college sick bay
Counting bells knelling classes to a close.
At two o’clock our neighbours drove me home.

In the porch I met my father crying—
He had always taken funerals in his stride—
And Big Jim Evans saying it was a hard blow.

The baby cooed and laughed and rocked the pram
When I came in, and I was embarrassed
By old men standing up to shake my hand

And tell me they were ‘sorry for my trouble’.
Whispers informed strangers I was the eldest,
Away at school, as my mother held my hand

In hers and coughed out angry tearless sighs.
At ten o’clock the ambulance arrived
With the corpse, stanched and bandaged by the nurses.

Next morning I went up into the room. Snowdrops
And candles soothed the bedside; I saw him
For the first time in six weeks. Paler now,

Wearing a poppy bruise on his left temple,
He lay in the four-foot box as in his cot.
No gaudy scars, the bumper knocked him clear.

A four-foot box, a foot for every year.

Domingos Carvalho da Silva – Mensagem

Longe, muito longe, um país nos contempla.
Um país de silício e saibro, de água salgada e sol
Onde os peixes não chegam, os corvos não assistem.
Onde os náufragos se afogam no incêndio
do solitário dia
eterno.

Longe, muito longe, onde a areia reflete
as escamas da lua;
onde só os mortos vão beijar a praia,
estaremos um dia.

Nas impassíveis furnas há de reinar o vácuo.
Nossa voz secará como crestada
haste de palha.

Lá estaremos, amiga, e, em odres de óleo ardente,
entraremos no mundo mineral. E então
a terra florescerá. E do teu corpo
germinarão gardênias e andorinhas
e o mundo ressurgirá da abolição da morte.

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 22/02/2016

Gerard Fanning – Ala St Charles

Os notívagos arrastam contágio
Pelos longos corredores.
Fitando o barco postal de Dublin,
Eles imaginam as bandeiras do Titanic,
Ou sua flotilha fantasmagórica,
Deslizando para dar forma
Ao naufrágio do meridiano de Greenwich.
Por mais que o mundo opere de forma confiante,
Os dias se confundem aqui,
O crepúsculo funde-se à fosforescência desbotada,
Torneiras imitam cachoeiras sem nomes,
E, no canto do quarto,
Perto da sala de desinfecção acortinada,
Algo luminoso evolui,
Nosso leitor de cardápio tropeça nas palavras,
Meu velho amigo é auxiliado a descer
Para a ala de transplantes,
E um a um nos despedimos
Com um aceno de cabeça e um sorriso.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

St Charles Ward

The nightwalkers drag contagion
Down the long corridors.
Staring at Dublin’s mailboat
They imagine the flags of the Titanic,
Or its ghostly flotilla,
Gliding out to formulize
The wreck of the Greenwich meridian.
However confident the world works,
Days blur here,
Twilight fuses the bleached phosphorescence,
Taps mimic the unnamed waterfalls,
And in the corner of the room,
Near the curtained sluice alcove
Something bright evolves,
Our menu reader slurs his lines,
My old friend is helped down
To the transplant ward,
And one by one we sign off
With a nod and a smile.

Thiago de Mello – O Morto

Qual a verdade que o morto
conheceu, além dos muros,
e lhe fez cerrar os lábios
estrangulando a palavra
porventura essencial?
Enfim livre da cegueira,
que paisagem contemplou
para que o rosto lhe turve
tão rude ruga de mágoa?
Soube talvez que melhor
fora mostrar-se de todo:
desvelar inteira a face,
seus amores e seus ódios,
e não (de medo) exilar-se
no recôncavo do sonho,
onde fundava universos
em que só fulgisse a luz
de fabulárias auroras.
Certo lhe amarga saber
que inútil fora o tormento
de escolher entre dois rumos;
que o soberbo privilégio
sobre a pedra, sobre o pássaro,
de assombrar-se antes si mesmo,
está proscrito. Que agora
irmanados inexistem.
Dói-lhe esta mágoa profunda:
a de perceber-se enigma
e não se ter decifrado.
Talvez a mágoa do morto
seja mais funda: saber
ter sido apenas um erro
no pensamento de Deus.

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 22/02/2016

Gwendolyn MacEwen – Fogos de artifício

Fogos de Artifício

Em memória de Marian Engel

Um ano após sua morte, no inverno baço,
Parte de seu jardim jaz enterrada no meu jardim,
Para onde a transplantei. Eu me pergunto
Onde você está agora — (não é exatamente no céu
Porque você disse uma vez que sabia tudo sobre o céu
E não queria ir para lá). Não obstante,
Ao celebrar sua vida, celebro sua entrada
Em algum reino incondicional.

Amiga, que sua morte seja fogos de artifícios,
Como os cata-ventos e as escolas ardendo
(temos tanto a desaprender)
Que você tinha em seu jardim no dia 24 de maio,
Cem anos atrás, quando mal éramos jovens.

Que seja uma conflagração, um sinal,
Como todas aquelas flores barulhentas e eloquentes
Que queimarão por todo o verão em meu quintal —
(as lanternas japonesas, laranja brilhante e audaciosa contra o muro do jardim) —

Tudo lutando para se tornar o que já é
E nós, que você deixou para trás,
Lutando para nos tornarmos o que já somos.

Inverno de 1986

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Fireworks

In memory of Marian Engel

A year after your death, in the spleen of winter
Part of your garden lies buried in my garden
Where I transplanted it. I wonder
Where you are now — (it isn’t exactly heaven
because you said once you knew all about heaven
and didn’t want to go there). Nevertheless
As I celebrate your life I celebrate your entry
Into some unconditional kingdom.

Friend, let your death be fireworks
Like the pinwheels and burning schoolhouses
(we have so much to unlearn)
You had in your garden on the 24th of May
A hundred years ago when we were less than young.

Let it be a conflagration, a sign,
Like all those loud outspoken flowers
Which will burn all summer in my back yard —
(the Japanese lanterns, bright audacious orange against the garden wall) —

Everything struggling to become what it already is
And we who are left behind you
Struggling to become what we already are.

Winter 1986

Giórgos Seféris – Existe

Existe, pelos deuses cruéis predestinada,
uma dor universal,
e cada um de nós dela pega a sua parte,
quanto aguente levar.

Julgamos insensatos
os que, carregando pressurosamente nos ombros
mais do que podiam carregar,
aliviam assim a carga comum:
os heróis, os mártires, os criminosos.

Rogo-lhes que nos perdoem.
Recordamos.

Trad.: José Paulo Paes

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 22/02/2016