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Henri Michaux – Nós dois ainda

1948 Música do fogo, tu não soubeste tocar. Lançaste sobre a minha casa um pano negro. O que é este opaco em toda a parte? É o opaco que tapou o meu céu. O que é este silêncio em toda a parte? É o silêncio que calou o meu canto. * De esperança tinha-me bastado…
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Christopher Bursk – “Ashes, Ashes, We All Fall Down”

“Ashes, Ashes, We All Fall Down“1 Se vou me transformar em cinzas em uma década ou algo assim,por que ficar acordado até depois da meia-noite encarando a TVcomo se ela pudesse mudar de opiniãoe eleger, por uma vez, um candidato independente para o cargoou acabar com a guerra e, ao mesmo tempo, remover a acne…
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Víctor Botas – “Collige, virgo, rosas”

Não faltam os que suponham que em sessentabilhões de anos estaremos de voltaao mesmo estado de agora (ao que parece,o Espaço se dilata para logo,elástico, contrair-se e mais uma vezdilatar-se), repetindotu, as profundidades desses olhos,eu, este esperar a morte de tuamão agonizante nas minhas, aquimesmo, precisamente neste lugar. Mas, casoseja tudo uma farsa e nunca…
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Rui Caeiro – [Fica e é só o que fica]
![Rui Caeiro – [Fica e é só o que fica]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2023/02/jhp-50.jpg)
Fica e é só o que fica: o primeiro encontroo primeiro beijo numa gare desertao mar por líquida ou aérea testemunha depois a longa gestação do adeusúnico e verdadeiro adeuso subtil envenenamento da memória
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Luis Alberto de Cuenca – “Collige, virgo, rosas”

Moça, colhe as rosas, não esperes a manhã.Corta-as sem hesitar, sem comedimento,sem parar para pensar se são boas ou más.Que não reste nenhuma. Poda os roseiraisque encontrares pelo caminho e deixa os espinhospara tuas colegas do colégio. Desfrutada luz e do ouro enquanto podes e consagratua beleza a esse deus rechonchudo e melancólicoque passeia pelos…
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Mary Oliver – Chumbo

Eis uma históriade partir o seu coração.Quer ouvi-la?Neste inverno, os mergulhões pousaram em nossa enseadae morreram, um por um,de nada que conseguíssemos ver.Um amigo me contousobre um na costaque ergueu a cabeça, abriuseu elegante bico e gritouno longo e doce deleite de sua vida,grito que, se você já ouviu,sabe que é uma coisa sagrada,e pelo…
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Francisco Brines – “Collige, virgo, rosas”*

Já estás com quem desejas. Ri e goza. Ama.E inflama-te na noite que agora se inicia,e entre tantos amigos (e comigo)abre os grandes olhos para a vidacom a avidez preciosa dos teus anos.A noite, longa, extinguir-se-á com a aurora,e virão esquadrões de espiões com a luz,apagar-se-ão as estrelas, e também a lembrança,e a alegria findará…
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Maria do Rosário Pedreira – [Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foi]
![Maria do Rosário Pedreira – [Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foi]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2023/02/fire_flames-wallpaper-1920x1080-1.jpg)
Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foiverdade — que não amei ninguém depois de ti nemo meu corpo procurou nunca mais outro incêndioque não fosse a memória de um instante juntodo teu corpo; e que deixei de ler quando partistepor não suportar as palavras maiores longe da tua boca;e que tranquei os…
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Garcilaso de la Vega – Soneto XXIII

Enquanto que de rosa e de açucenase mostra toda a cor neste teu rosto,enquanto o teu olhar ardente, honesto,acende o coração e o serena; e enquanto o teu cabelo, que das franjasdo ouro se escolheu, com voo presto,sobre o formoso colo branco, ereto,o vento move, espalha e desarranja: colhe de tua alegre primaverao doce fruto,…
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Jorie Graham – Então a chuva

depois de anos de virga1, depoisde muito quase& muito nunca mais, depoisde unir-se aos relâmpagos secos & correntes descendentes & fogo,depois de pegar um caminhoalternativo pelahistória & evitar- nos, depois das árvores,depois dos jardins,depois que as duras sementesforam enterradas o mais fundo possível & mantidas vivas pelo sereno,depois que os sulcosque outrora ela abriuse encheram…