Víctor Botas – “Collige, virgo, rosas”

Víctor Botas – “Collige, virgo, rosas”

Não falta quem suponha que em sessenta
bilhões de anos voltaremos
a estar como agora (ao que parece,
o Espaço se estica para depois,
elástico, encolher e novamente
outra vez dilatar-se), repetindo
tu, as profundidades desses olhos,
eu, este esperar a morte de tua
mão agonizante nas minhas, aqui
mesmo, precisamente nesse lugar. Mas, caso
seja tudo uma farsa e nunca mais
a história se repita e, como eu
suspeito, o tempo voe — eheu fugaces1 —
rumo a uma noite eterna, parece-me
que o melhor que faríamos seria
(hoje mostro meu lado horaciano à beça)
agarrar esse instante que se vai
com unhas e dentes (fazes bem,
fazes bem em rir: isso é muito sério),
sem meta — nem astro — física que o valham.

Trad.: Nelson Santander

  1. Eheu fugaces: “Ai, fugazes…”, expressão que abre a ode II, 14, de Horácio, referindo-se à passagem dos anos. ↩︎

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 29/08/2018

“Collige, virgo, rosas”

No falta quien supone que en sesenta
mil millones de años, volveremos
a estar igual que ahora (al parecer
el Espacio se estira para luego,
elástico, encogerse y nuevamente
otra vez dilatarse), repitiendo
tú, las profundidades de esos ojos,
yo, este esperar la muerte de tu mano
agónica en las mías, aquí mismo,
justo en ese lugar. Pero, por si
es todo una patraña y nunca más
se repite la historia y, como yo
sospecho, el tiempo vuela – eheu fugaces –
hacia una noche eterna, me parece
que lo mejor que haríamos sería
(hoy enseño el horacio cosa mala)
agarrar ese instante que se va
con uñas y con dientes (haces bien,
haces bien en reírte: esto es muy serio),
sin meta – ni astro – físicas que valgan.

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