José Asunción Silva – Obra Humana

No interior da floresta intocada
em que, uma noite, no início de maio,
tocou a velha ramagem folhada
da pálida lua o primeiro raio,

poucos meses depois a luz de gás
da aurora na estação iluminou
o curso da locomotiva audaz
que por trilhos duríssimos cruzou.

E onde fora certa vez um abrigo,
porto seguro de um alado enxame,
atravessou o espaço um escondido
telegrama de amor num fio de arame.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 19/01/2019

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José Asunción Silva – Obra humana

En lo profundo de la selva añosa
donde una noche, al comenzar de mayo,
tocó en la vieja enredadera hojosa
de la pálida luna el primer rayo,

pocos meses después la luz de aurora
del gas en la estación iluminaba
el paso de la audaz locomotora
que en el carril durísimo cruzaba.

Y en donde fuera en otro tiempo el nido,
albergue muelle del alado enjambre,
pasó por el espacio un escondido
telegrama de amor, por el alambre.

Galway Kinnell – Dia 26 de dezembro

Uma terça-feira, dia de Tiw*,
deus da guerra, desponta na escuridão.
O curto feriado em que conversamos perto do fogo,
flutuamos em raquetes de neves por entre os
antigos bordos autopodados,
visitamos, fomos visitados, demos
um pluviômetro, ganhamos meias vermelhas,
observamos os pintassilgos quase cobertos
de neve bicando pequenos fragmentos
de sementes de girassol que os chapins
seguram com suas garras em um galho
e despedaçam, espalhando detritos
como açougueiros desleixados, acabou.
Começa a vida irregular. Ligações telefônicas,
pesquisas no Google, cartas evasivas,
arranjos complicados, faxes,
dúvidas, conversações,
e-mails, beijos dados solenemente.

Trad.: Nelson Santander

* N. do T.: Tiw, também conhecido como Tyr, era o deus nórdico da guerra, da justiça e da ordem

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The 26th of December

A Tuesday, day of Tiw,
god of war, dawns in darkness.
The short holiday day of talking by the fire,
floating on snowshoes among
ancient self-pollarded maples,
visiting, being visited, giving
a rain gauge, receiving red socks,
watching snow buntings nearly over
their heads in snow stab at spirtled bits
of sunflower seeds the chickadees
hold with their feet to a bough
and hack apart, scattering debris
like sloppy butchers, is over.
Irregular life begins. Telephone calls,
Google searches, evasive letters,
complicated arrangements, faxes,
second thoughts, consultations,
e-mails, solemnly given kisses.

Manuel Bandeira – Versos de Natal

Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página anteriormente em 10/04/2016

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Luci Shaw – A canção de Maria

O rústico tecido azul e a curva do meu peito
mantém aquecida esta pequena estrela nua e quente
que caiu em meus braços (Descanse…
você que teve que vir de tão
distante). Agora a proximidade satisfaz
docemente o corpo de Deus. Tranquilo repousa
aquele cuja força fez jorrar
um universo. Ele dorme,
aquele cujas pálpebras nunca antes se fecharam.
Sua respiração (tão leve que mal parece
uma respiração) uma vez agitou as profundezas escuras
para fazer brotar um mundo.
Encantado com o arrulho das pombas e o sussurro da palha,
ele sonha,
sem ouvir a música de suas outras esferas.
Respiração, boca, ouvidos, olhos
ele se restringiu
aquele que transbordou todos os céus,
todos os anos.
Mais velho que a eternidade, agora ele
é novo. Agora um nativo da terra como eu, pregado
ao meu pobre planeta, preso para que eu possa ser livre,
cego em meu ventre para eu saber que minha escuridão terminou,
trazido a este nascimento
para que eu seja uma recém-nascida,
e para que ele me veja curada
eu devo vê-lo dilacerado.

Trad.: Nelson Santander

Mary’s Song

Blue homespun and the bend of my breast
keep warm this small hot naked star
fallen to my arms. (Rest…
you who have had so far
to come.) Now nearness satisfies
the body of God sweetly. Quiet he lies
whose vigor hurled
a universe. He sleeps
whose eyelids have not closed before.
His breath (so slight it seems
no breath at all) once ruffled the dark deeps
to sprout a world.
Charmed by dove’s voices, the whisper of straw,
he dreams,
hearing no music from his other spheres.
Breath, mouth, ears, eyes
he is curtailed
who overflowed all skies,
all years.
Older than eternity, now he
is new. Now native to earth as I am, nailed
to my poor planet, caught that I might be free,
blind in my womb to know my darkness ended,
brought to this birth
for me to be new-born,
and for him to see me mended
I must see him torn.

João Miguel Fernandes Jorge – Presépio Animado da Ribeira Grande

Ainda todos se lembram do dezembro de 96.
Era dia de natal. Na estrada que leva ao norte
da ilha, sob grande tempestade, trôpego, na
berma, um gato de pelagem branca. Parecia

ferido. Fêmea branca, a que chamariam persa
de pelo curto, tinha uma chaga na orelha
alastrava pelo crânio e pela face e
olho. Massa disforme de carne e sangue,

pancada de carro ou parede de muro desabado
a ferida. Animal muito manso, delicado e
tímido, deixou que me aproximasse
lhe pegasse e a trouxesse para dentro do

meu carro. Tremia de frio e também de medo e
dor. Enxuguei-a com um pedaço de
flanela, dei por mim chamando-lhe
Princesa: era muito nova, pequena,

de um branco que resistia ao lixo da terra
da quase sarjeta de onde a tirei; olhos
claros, amendoados. A mais
delicada e triste das gatas com a horrível

ferida a alastrar, implacável. Uma
gangrena que exalava cheiro pestilento
– a princesa branca apodrecia no dia
de natal. Havia uma caixa de cartão

no banco traseiro, coloquei-a dentro e
descobri a casa do veterinário. Era uma pasta
de sangue, carne e urina tão assustada
estava. O médico agarrou-a – eles já

cheiraram muita pestilência, os veterinários –
fez-lhe festas. Era muito meiga. Não
pude olhar enquanto a matava; meteu o
corpo branco, ainda quente, na caixa de

cartão. Levei-a, morta, e com aquele cheiro;
já quase noite. Enterrei-a num pequeno
jardim, bem perto do presépio animado da Ribeira
Grande, que nesse fim de dia de natal ainda

visitei. As lágrimas de nada servem, nem
por uma gata branca a que chamei Princesa,
durante uma escassa hora, a debater-se
com a morte. O sangue, a urina

o cheiro da gangrena. Este é o inferno
dos mortais, a sua beleza e fragilidade. A
morte é uma coisa e a vida, a mesma
coisa. A face da morte é o reflexo da

vida quando se debruça sobre a superfície
da ilha. Luze em todos os natais, suave,
esbatida de traços – palavra de traição
que rodeia o medo, o abandono.

Republicação: poema publicado no blog originalmente em 15/05/2018

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Carlos Drummond de Andrade – Aniversário

Os cinco anos de tua morte
esculpiram já uma criança.
Moldada em éter, de tal sorte,
ela é fulva e no dia avança.

Este menino malasártico,
Macunaíma de novo porte,
escreve cartas no ar fantástico
para compensar tua morte.

Com todos os dentes, feliz,
lá de um mundo sem sul nem norte,
de teu inesgotável país,
ris. Alegria ou puro esporte?

Ris, irmão, assim cristalino
(Mozart aberto em pianoforte)
o redondo, claro, apolíneo
riso de quem conhece a morte.

Não adianta, vê, te prantearmos…
Tudo sabes, sem que isso importe
em cinismo, pena, sarcasmo.
E, deserto, ficas mais forte.

Giras na Ursa Maior, acaso,
solitário, em meio à coorte,
sem, nas pupilas, flor ou vaso.
Mas o jardim é teu, da morte.

Se de nosso nada possuímos
salvo o apaixonado transporte
— vida é paixão —, contigo rimos,
expectantes, em frente à Porta!

Carlos Drummond de Andrade – Desfile

O rosto no travesseiro,
escuto o tempo fluindo
no mais completo silêncio.
Como remédio entornado
em camisa de doente;
como na penugem
de braço de namorada;
como vento no cabelo,
fluindo: fiquei mais moço.
Já não tenho cicatriz.
Vejo-me noutra cidade.
Sem mar nem derivativo,
o corpo era bem pequeno
para tanta insubmissão.
E tento fazer poesia,
queimar casas, me esbaldar
nada resolve: mas tudo
se resolveu em dez anos
(memórias do smoking preto)
O tempo fluindo: passos
de borracha no tapete,
lamber de língua de cão
na face: o tempo fluindo.
Tão frágil me sinto agora.
A montanha do colégio.
Colunas de ar fugiam
das bocas, na cerração.
Estou perdido na névoa,
na ausência, no ardor contido
O mundo me chega em cartas.
A guerra, a gripe espanhola,
descoberta do dinheiro,
primeira calça comprida,
sulco de prata de Halley,
despenhadeiro da infância.
Mais longe, mais baixo, vejo
uma estátua de menino
ou um menino afogado.
Mais nada: o tempo fluiu.
No quarto em forma de túnel
a luz veio sub-reptícia.
Passo a mão na minha barba.
Cresceu. Tenho cicatriz.
E tenho mãos experientes.
Tenho calças experientes.
Tenho sinais combinados.
Se eu morrer, morre comigo
um certo modo de ver.
Tudo foi prêmio do tempo
e no tempo se converte.
Pressinto que ele ainda flui.
Como sangue; talvez água
de rio sem correnteza.
Como planta que se alonga
enquanto estamos dormindo.
Vinte anos ou pouco mais,
tudo estará terminado.
O tempo fluiu sem dor.
O rosto no travesseiro,
fecho os olhos, para ensaio.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 18/01/2019

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Sharon Olds – As formas

Sempre tive a sensação de que minha mãe
morreria por nós, se atiraria em um incêndio
para nos tirar de lá, seus cabelos flamejando como
uma auréola, pularia na água, seu corpo
branco afundando e girando lentamente,
o astronauta com seu tubo cortado,
caindo
        na
             escuridão. Ela teria nos
coberto com seu corpo, empurraria seus
seios entre nossos peitos e a faca,
teria nos colocado no bolso de seu casaco
para nos proteger das chuvas. Em um desastre, 
uma mãe animal, ela teria morrido por nós,

mas na vida como era
ela tinha que se colocar
em primeiro lugar.
Ela tinha que fazer o que ele 
mandasse fazer com as crianças, ela tinha
que se proteger. Na guerra, ela teria
morrido por nós, eu digo que sim,
e eu sei: eu sou estudante da guerra,
dos fornos a gás, sufocamentos, facas,
afogamentos, queimaduras, de todas as formas
em que experimentei seu amor.

Trad.: Nelson Santander

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The Forms

I always had the feeling my mother would
die for us, jump into a fire
to pull us out, her hair burning like
a halo, jump into water, her white
body going down and turning slowly,
the astronaut whose hose is cut
falling
into
blackness. She would have
covered us with her body, thrust her
breasts between our chests and the knife,
slipped us into her coat pocket
outside the showers. In disaster, an animal
mother, she would have died for us,

but in life as it was
she had to put herself
first.
She had to do whatever he
told her to do to the children, she had to
protect herself. In war, she would have
died for us, I tell you she would,
and I know: I am a student of war,
of gas ovens, smothering, knives,
drowning, burning, all the forms
in which I have experienced her love.

Vinicius de Moraes – Cemitério Marinho

Tal como anjos em decúbito
A conversar com o céu baixinho
Existem cerca de cem túmulos
Num lindo cemiteriozinho
Que eu, a passeio, descobri
Um dia em Sidi Bou Said.

Mal defendidos por uns muros
Erguidos ao sabor da morte
Eu nunca vi mortos tão puros
Mortos assim com tanta sorte
As lajes de cal como túnicas
Brancas, e árabes; não púnicas.

Sim, porque cemiteriozinho
Nunca se viu assim tão árabe
Feito o beduíno que é sozinho
Ante o deserto que lhe cabe
E mudo em face do horizonte
Sem uma sombra que o confronte.

Pequenos paralelepípedos
Fendidos uns, conforme o sexo
Eis suas lápides: antípodas
Das que se vêem num cemitério
De gente do nosso pigmento:
Os nossos mortos de cimento.

Quem se deixar de tarde ali
Isento de mágoa ou conflito
A olhar o mar (sem Valéry!)
Como um espelho de infinito
E o céu como um anti-recôncavo:
Como o convexo de um côncavo

Acabará (comigo deu-se!)
Ouvindo os mortos cochicharem
Alegremente, eles e Deus
Mas não o nosso: o Deus dos árabes
Que não fez Sidi Bou Said
Para os prazeres de André Gide

Mas sim porque a vida segue
E o tempo pára, e a morte é um canto
Porque morrer é coisa alegre
Para quem vive e sofre tanto
Como no cemiteriozinho, ali
Ao céu de Sidi Bou Said.

Sidi Bou Said, outubro de 1963
Florença, novembro de 1963

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 16/01/2020

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Alberto Ríos – Cinco anos depois

Eu era, e agora sou.
Há tanto a expressar nessas poucas palavras.

Às vezes, essa mudança é doçura,
Um beijo, um afago. Às vezes,

Nada nos alerta. Não podemos prever.
É imposto a nós. Uma arma,

Um terremoto, uma inundação — qualquer um dos terríveis
Horrores deste mundo.

Nesses momentos, não pedimos,
Não temos a chance de respirar fundo,

É simplesmente o fim de um capítulo
E a primeira página do próximo. Somos lançados

Em águas profundas e ficamos com raiva,
Estamos com raiva, estamos com raiva.

Não sabíamos nadar, mas agora nadamos —
Precisamos nadar.

Não é justo. Nunca é justo.
Não temos chance de participar da decisão

Que nos transforma.
Nós éramos, e agora somos. Lamentavelmente,

Não estamos sós. Se é um de nós,
Somos todos nós, são muitos de nós.

Nós éramos, e agora somos.
Doçura ou crueldade, subitaneidade, choque,

Um toque áspero que pode significar:
Nós mudamos.

Se foi um beijo, nossas vidas são poderosamente direcionadas
Para a leveza.

Mas quando não é doçura, não é um beijo,
vivemos o resto da vida como alguém diferente,

Mas alguém que ainda somos nós.
Se tivéssemos uma arma, ou porque tínhamos uma arma,

Se as coisas tivessem sido diferentes, melhores,
Se a reabilitação tivesse sido mais eficaz,

Se Deus tivesse intervindo, se alguém tivesse ouvido:
Estaríamos vivendo no mundo normal.

Poderíamos olhar para os coelhos ao longo da rodovia
E para as montanhas azuis e desgastadas ao longe

Como qualquer um.
Mas cinco anos depois de algo ter nos acontecido,

Não somos mais qualquer um.
As lebres e as montanhas de Tucson —

As amamos, não facilmente, mas intensa, intensamente
Do novo jeito que tivemos que encontrar.

As amamos como quem agora somos.
Amamos porque isso é o que resta.

Trad.: Nelson Santander

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Five Years Later

I was, and now I am.
So much goes into the saying of those few words.

Sometimes this change is sweetness,
A kiss, a caress. Sometimes,

Nothing warns us. It cannot be thought by us.
It is done to us. A gun,

An earthquake, a flood—any of the muscular
Horrors of this world.

In those instances, we don’t ask for it,
We don’t get to take a deep breath,

It is simply the end of the chapter
And page 1 of the next. We are thrown

Into the deep water and we are angry,
We are angry, we are angry.

We could not swim, but now we are swimming—
We have to swim.

It is not fair. It is never fair.
We have no chance to be part of the decision

That changes us.
We were, and then we are. Regrettably,

We are not alone. If it is one of us,
It is all of us, so many of us.

We were, and now we are.
Sweetness or cruelty, suddenness, shock,

A rough touch that could be either:
We are changed.

If it has been a kiss, our lives are turned powerfully
Toward lightness.

But when it is not sweetness, not a kiss,
We live the rest of our lives as someone else,

But someone who is still us.
If we had a gun, because we did have a gun,

If things had gone differently, better,
If the rehab had been more effective,

Had God stepped in, had anyone heard:
We would be living in the regular world.

We could look at the rabbits along the highway
And the blue, ragged mountains in the distance

Like anyone.
But five years after something has happened to us

We are not the anyone.
The jackrabbits and the Tucson Mountains—

We love them, not easily but fiercely, fiercely
In the new way we have had to find.

We love them as who we are now.
We love because that’s what’s left.