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Kim Addonizio – Para a mulher que chora descontroladamente no banheiro ao lado

se você já acordou vestida às 4 da manhãfechou as pernas para alguém que amava abriu-as para alguém que não roçou-se contraum travesseiro no escuro ficou miseravelmente em uma praiaalgas agarradas em seus tornozelos pagouuma boa grana por um corte de cabelo ruim se afastoude um espelho que queria matá-la sangrouno banco de trás por…
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Paulo Henriques Britto – de “Duas autotraduções”

(CADERNO, XIV)II Isto, também, será lembrado um dia,porém não tal qual é sentido agora.Não que as lembranças sejam distorcidasde propósito; é só porque a memória,entre o vivido e o lembrado, interpõecomo que um filtro, com pequenas falhasou até mesmo substituições –nem tanto por mentiras deslavadas,mas por versões plausíveis do ocorrido.São mudanças sutis, que se desculpam,como…
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Tony Harrison – Longa distância II

Embora minha mãe há dois anos já fosse falecida, papai mantinha junto ao fogão os chinelos dela, quentes,colocava ao seu lado na cama bolsas de água aquecidae ainda ia renovar seus passes e bilhetes Não podíamos simplesmente aparecer. Era necessáriotelefonar. Ele adiava a visita por uma horapara poder arrumar as coisas dela e parecer solitário,como…
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Joan Margarit – Amor e tempo

Lembras quando ainda desconheciasque a vida não teria piedade de ti?Amor e tempo: o tempo nos habitacomo a areia do rio que, lentamente,vai moldando a forma da margem.O amor, que refletiu em teu olharo esplendor da ilha do tesouro.Sensual, solitária, cercadapela sonora senectude do mare os gritos militares das gaivotas.O sonho clandestino dos cinquenta anos.…
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Emily Jungmin Yoon – Entre o equinócio de outono e o solstício de inverno, hoje

Li um poema coreanocom o verso “Hoje você é o mais jovemque jamais será”. Hoje sou a mais velhaque já fui. Hoje bebemos chá de trigo sarraceno. Hoje há calorem meu apartamento. Hoje pensona palavra coreana chada.Significa frio. Significa estar cheio.Significa bater. Vestir. Hoje estamos gastos.Hoje você veste o frio. Sua pele gelada.Meu coração bate…
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Manuel António Pina – As vozes

A infância vempé ante pésobe as escadase bate à porta – Quem é?– É a mãe morta– São coisas passadas– Não é ninguém Tantas vozes fora de nós!E se somos nós quem está lá forae bate à porta? E se nos fomos embora?E se ficamos sós? REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 12/02/2019 Mais…
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Julia Hartwig – Assim será

Tudo retornaráE não será em forma de cinzas ou ruínastudo será como antes da extinção à vista e em florAmizades não desfeitaspoços não envenenadoscombates ainda repletos de esperança de êxito Incontáveis estrelasUma lua desconhecidaNós ainda ignorantesdo que pode ser realizadoe daquilo que para semprenos será arrebatado Trad.: Nelson Santander, a partir da versão em espanhol…
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Manuel Vilas – O último Elvis

Respeita sempre a decadência das mulherese dos homens que amaram ou pelo menos tentaram amara vida e esta os chamuscou ou lhes quebrou os ossos da face,as entranhas e as veias e o fígado e o nobre coração.Respeita todos os sagrados e humildes naufrágiosdos seres humanos. Respeita aqueles que se suicidaram. Respeita aqueles que se…
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Dean Young – Ode às cinzas

Quando a vi mais adiante, corri dois quarteirõesgritando seu nome; depois, percebendo que não eravocê, mas uma sósia assustada, continueicorrendo, gritando agora aos céus, perpetuandosua fama e seu brilho. Desde quefui incinerado, muitas vezes voltei a este pensamento – o de que todas as coisas amadas são perseguidas e nunca capturadas,mesmo enquanto dormia ao meu…
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Walter Savage Landor – Epitáfio

Não lutei com ninguém; nada valia a lida.Amei a natureza, e, tanto quanto, a arte;As mãos, estas aqueci no fogo da vidaQue naufraga; estou pronto para o desate. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 09/02/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva…