Joan Margarit – Inverno de 95

Esta carta a escrevo para alguém
que está em um barco pelo norte
de Tenerife, em cinquenta e sete.
Um rapaz que, da amurada,
mira o duro poente sobre o mar
e estuda arquitetura em Barcelona,
para onde retorna agora. Aviso-te
com um sinal de alerta: a alegria
que sentes ao deixar teu pai para trás
revela a solidão sob uma luz dourada.
Teu pai já te espera,
outra vez, no porto de chegada:
não te conhece e olha para nenhuma parte,
nada diz e tampouco te responde.
Lentamente, com o dorso da mão
roças-lhe a face enquanto lhe falas
como se tratasse de ti mesmo,
como se o amanhã fosse agora.
O ontem nos espera no amanhã,
vai sempre mais depressa que nós.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 29/10/2019

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Invierno del 95

Esta carta la escribo para alguien
que va en un barco por el norte
de Tenerife, en el cincuenta y siete.
Un muchacho que, desde la baranda,
mira el férreo poniente sobre el mar
y estudia arquitectura en Barcelona,
adonde vuelve ahora. Te aviso
con un gesto de alarma: la alegría
que sientes al dejar tu padre atrás
muestra la soledad bajo una luz dorada.
Tu padre ya te espera,
otra vez, en el puerto de llegada:
no te conoce y mira hacia ninguna parte,
nada dice y tampoco te contesta.
Despacio, con el dorso de la mano
le rozas la mejilla mientras le hablas
como si se tratase de ti mismo,
igual que si el mañana fuese ahora.
El ayer nos espera en el mañana,
va siempre más deprisa que nosotros.

Linda Pastan – Flores Silvestres

Você me deu dentes-de-leão.
Eles tomaram nosso jardim
por direito de ocupação —
sóis redondos surgindo
em abril, delicadas luas
retirando-se em junho.
Você me deu sapatinhos-de-dama,
sanguinárias, serralhas,
trillium cujo número secreto
as crianças que você me deu
contam. Na hierarquia
das flores, as silvestres
se erguem em seus caules
para serem nomeadas.
Chame-as de ervas daninhas.
Eu as colho como
colhi você,
por sua alegria feroz
e indisciplinada.

Trad.: Nelson Santander

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Wildflowers

You gave me dandelions.
They took our lawn
by squatters’ rights—
round suns rising
in April, soft moons
blowing away in June.
You gave me lady slippers,
bloodroot, milkweed,
trillium whose secret number
the children you gave me
tell. In the hierarchy
of flowers, the wild
rise on their stems
for naming.
Call them weeds.
I pick them as I
picked you,
for their fierce,
unruly joy.

Manuel António Pina – Eugénio de Andrade no seu leito de morte

Na mão de Ana o iogurte não
iluminava, escurecia,
comunhão ajoelhada
no fundo do coração do dia

dividido onde, desperto, ele dormia.
O movimento da colher embalava-o
como uma música que quase se ouvia
neste mundo ou um colo que o adormecia.

A tarde declinava, as sombras,
como sonhos, alongavam-se na almofada;
tudo fazia um sentido
limpo e simples, onde não alcança a poesia.

O que não fora dito
calado ficaria para sempre,
as palavras haviam-se sumido, transidas,
no interior da casa, o próprio silêncio emudecera.

Senhor, permite que adormeçamos
antes que feches a luz,
que os rebanhos estejam recolhidos
e os credores se tenham afastado da nossa porta,
mas que tenhamos pago as dívidas aos que nos serviram
e aos que nos amaram e aos que nos esperaram;
as tuas grandes mãos sustentarão o telhado e as paredes
e moerão o grão e fermentarão o trigo,
apaga com as tuas mãos o nosso rasto
e que repousemos
sem motivo para nos culparmos
por não termos sido felizes.

             Foz do Douro, 22/1/2005

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 28/10/2019

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Thomas Ligotti – Memento

Você pretendia cuidar de tudo
e organizar seus assuntos.
Mas o inesperado aconteceu
e não houve tempo.

Mais tarde, os entes queridos vieram,
se desfizeram de algumas coisas
e deixaram outras de lado:
lembranças ou objetos de valor.

Eles choraram por um velho pente
que ainda tinha alguns cabelos
enrolados entre os dentes.
Mas também riram um pouco.

Então alguém encontrou
o que você deixou guardado no sótão.
“Meu Deus”, eles murmuraram
e foram para casa esquecer de você.

Trad.: Nelson Santander

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Memento

You meant to take care
and put your affairs in order.
But the unexpected occurred
and there wasn’t time.

Later, the loved ones came
and gave away some things,
while putting aside some others:
keepsakes or valuables.

They cried over an old comb
that still had some hairs
twirling through its teeth.
Yet they laughed a little too.

Then someone uncovered
what you left in the attic.
“Oh, dear,” they said softly
and went home to forget you.

Henry Reed – A nomeação das peças

Hoje temos a nomeação das peças. Ontem
Tivemos a limpeza diária. E amanhã de manhã,
Teremos o que fazer depois da ordem de “fogo”. Mas hoje,
Hoje nós temos a nomeação das peças. A japonica
Arde como coral em todos os jardins adjacentes,
E hoje nós temos a nomeação das peças.

Isto é o zarelho móvel inferior. E isto
É o zarelho móvel superior, cuja utilidade você entenderá
quando receber sua bandoleira. E este é o elo de encaixe,
Que no seu caso você não tem. Os ramos
Mantêm nos jardins seus gestos silenciosos e eloquentes,
Que no nosso caso nós não temos.

Esta é a trava de segurança, que é sempre liberada
Com um simples movimento do polegar. E por favor não quero
Ver ninguém usando o dedo. Você pode fazer isso com facilidade
Se tiver alguma força no polegar. As flores
São frágeis e imóveis, nunca permitem que alguém as veja
usando seus dedos.

E isto que você vê é o ferrolho. A finalidade dele
É o de destravar a culatra, como pode ver. Podemos deslizá-lo
Rapidamente para trás e para frente: chamamos isso de
Libertar a retratora. E rapidamente para trás e para frente
As primeiras abelhas estão apalpando e assediando as flores:
Chamam isso de libertar a primavera.

Chamam isso de libertar a primavera: é perfeitamente fácil
Se você tiver alguma força no polegar: como o ferrolho,
e a culatra, e a peça de armar, e o ponto de equilíbrio,
Que no nosso caso não temos; e a amendoeira em flor
Silenciosa em todos os jardins e as abelhas indo para trás e para frente
Pois hoje temos a nomeação das peças.

Trad.: Nelson Santander

Um pouco sobre o poema e sua tradução

The naming of parts, escrito em 1942 pelo poeta inglês Henry Reed, é a Parte I de uma coletânea de seis poemas chamada Lessons of War (Lições de Guerra). Reed, que era visceralmente contra a guerra, utiliza os poemas dessa coletânea para expressar seu posicionamento pacifista, fazendo uma espécie de paródia do treinamento do Exército Britânico durante a Segunda Guerra Mundial.

As cinco estrofes de The Naming of Parts (que traduzi por A Nomeação das Peças) se estruturam, cada uma, em torno de duas vozes: a de um instrutor que ensina o funcionamento de um rifle, usando uma linguagem rigorosamente técnica, e a que parece ser a de um recruta mais interessado na natureza ao seu redor do que na aula que está sendo ministrada. Em vez de aprender sobre a arma, o recruta se apropria de parte das expressões e palavras do instrutor para transfigura-las poeticamente, dando-lhes novo significado.

Na primeira estrofe, por exemplo, o instrutor esclarece que aquele dia é dedicado à nomeação das peças do rifle. O dia anterior foi reservado para a limpeza das armas e no dia seguinte eles irão para o campo de batalha. O recruta, todavia, está absorto nas camélias que ardem “como coral em todos os jardins adjacentes”.

Na estrofe seguinte, o instrutor demonstra como funciona a colocação da correia de transporte do rifle (também conhecida no Brasil como “bandoleira”) e aponta a existência de um dispositivo de encaixe que, no entanto, não está presente nos rifles dos recrutas (a passagem é intencionalmente irônica, já que o Exército da Rainha estava mal preparado e mal equipado para a guerra). O recruta não está preocupado com isso: ele está de olho nas árvores vizinhas, cujos galhos se justapõem e se encaixam silenciosamente, mas de forma eloquente.

As demais estrofes têm a mesma estrutura lógico-formal, contrastando o palavreado técnico e monótono do instrutor com a visão poética e reveladora do recruta. Surgem também, aqui e ali, insinuações de cunho sexual (segundo alguns intérpretes, uma alusão sub-reptícia à sexualidade reprimida dos soldados em razão da guerra), evidenciadas pela menção às abelhas polinizando as flores, em contraposição ao movimento de vai-e-vem do ferrolho do rifle. A última estrofe resume as lições aprendidas com o instrutor e, por que não?, com o recruta.

A tradução do poema apresentou algumas dificuldades que não sei se consegui resolver satisfatoriamente.

Logo na primeira estrofe, Reed usa os verbos “firing” e “glistens” (em português, “disparar” e “brilhar”, respectivamente, mas que também podem significar “arder”) pra demonstrar a brutal diferença entre atirar em alguém e iluminar o mundo com a beleza. Em português, os verbos utilizados para designar o disparo de uma arma de fogo são “atirar”, “disparar”, “descarregar”, etc. Ou seja, em língua portuguesa o termo “fogo” não tem um correspondente verbal. Por essa razão, e para manter a conexão entre o verbo “firing” (disparar com uma arma de fogo) e o brilho das camélias, optei, por um lado, por usar a palavra “fogo” extraída de um comando militar (o famoso “Preparar… apontar… Fogo!”) e, de outro, uma das acepções da palavra “glistens” em português – “arder” – que significa “estar em chamas, abrasado; incendiar-se, queimar” (todas relativas ao fogo), mas que, no caso, está empregada no sentido de produzir brilho, cintilar.

Na primeira estrofe encontramos também a palavra Japonica. A Japonica é uma das espécies da flor conhecida como Camélia, cujo nome científico é Camellia japonica, nativa das florestas do sul do Japão. Reed não escolheu esta flor ao acaso. O nome remete diretamente ao Japão, que durante a Segunda Guerra Mundial se aliou à Alemanha e Itália para formar o Eixo, inimigo das forças Aliadas das quais a Inglaterra fazia parte. Em português, não é comum fora dos círculos especializados o uso de expressões científicas para denominar as plantas. Ninguém além dos botânicos chama a mini-rosa de Rosa chinensis, a margarida de Leucanthemum vulgare ou a Flor-de-lis de Sprekelia Formosissima. Todavia, não é totalmente fora de propósito, nesse caso, o uso do nome científico já que ele se presta a especificar a qual espécie de camélia estamos nos referindo. Assim, fica mantida a alusão poética desejada pelo autor.

Outra dificuldade foi identificar corretamente os nomes das peças mencionadas no poema e encontrar a nomenclatura correspondente em português, ainda mais considerando que estamos falando de um rifle da Segunda Guerra Mundial, que provavelmente nem mesmo é mais fabricado. Recorri à internet e tenho dúvidas sobre se consegui encontrar, em português, todos os termos técnicos das peças citadas no poema. O certo é que, em algumas passagens, optei deliberadamente por não buscar o exato termo em nossa língua (embora mantendo o sentido técnico original), para tentar emular a conexão que o texto faz entre as peças da arma e os devaneios do recruta. Por exemplo, “Piling swivel” poderia ser traduzido como “argola móvel para empilhamento/agrupamento (dos rifles)” – e desconheço se há uma peça com a mesma função em rifles brasileiros, e qual o nome que é dado a ela no Brasil. No poema, a peça “piling swivel” se correlaciona com os ramos de árvores que “Mantêm nos jardins seus gestos silenciosos e eloquentes”. Assim, optei por traduzir o nome desta peça como “elo de encaixe”, que, além de, imagino eu, indicar corretamente a função da peça, faz referência aos galhos de árvores que se encaixam uns aos outros.

Dentro ainda da técnica de alusão “arma-natureza” utilizada pelo poeta, uma expressão em especial se mostrou impossível de ser recuperada com os dois significados usados no poema. A expressão “easing the spring”, em inglês, pode tanto significar tanto “soltar/libertar/distensionar a mola” quanto “soltar/libertar a primavera”. Habilmente, Reed utiliza as duas acepções desta expressão para justapor o universo da guerra ao da natureza, numa estrofe com evidente conotação sexual (bem por isso, traduzi “cocking-piece” por “peça de armar”). Foi impossível encontrar uma palavra em português que significasse simultaneamente “mola” e “primavera”. Por isso, optei por uma palavra (“retratora”, relativa à mola retratora e recuperadora do ferrolho) que recupera ao menos parte da fonética da sua correspondente no último verso da estrofe (“primavera”).

Observação final: como iria republicar este poema, aproveitei para fazer alguns ajustes na tradução, em 08/08/2024.

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The naming of parts

Today we have naming of parts. Yesterday,
We had daily cleaning. And tomorrow morning,
We shall have what to do after firing. But today,
Today we have naming of parts. Japonica
Glistens like coral in all of the neighboring gardens,
And today we have naming of parts.

This is the lower sling swivel. And this
Is the upper sling swivel, whose use you will see,
When you are given your slings. And this is the piling swivel,
Which in your case you have not got. The branches
Hold in the gardens their silent, eloquent gestures,
Which in our case we have not got.

This is the safety-catch, which is always released
With an easy flick of the thumb. And please do not let me
See anyone using his finger. You can do it quite easy
If you have any strength in your thumb. The blossoms
Are fragile and motionless, never letting anyone see
Any of them using their finger.

And this you can see is the bolt. The purpose of this
Is to open the breech, as you see. We can slide it
Rapidly backwards and forwards: we call this
Easing the spring. And rapidly backwards and forwards
The early bees are assaulting and fumbling the flowers:
They call it easing the Spring.

They call it easing the Spring: it is perfectly easy
If you have any strength in your thumb: like the bolt,
And the breech, and the cocking-piece, and the point of balance,
Which in our case we have not got; and the almond-blossom
Silent in all of the gardens and the bees going backwards and forwards
For today we have naming of parts.

William Stafford – Viajando na Escuridão

Viajando na escuridão, encontrei um cervo
morto à margem da estrada junto ao Rio Wilson.
Geralmente é melhor rolá-los para o cânion:
a estrada é estreita; desvios poderiam causar mais mortos.

À luz da lanterna traseira, caminhei até o carro
e me coloquei ao lado do monte, uma corsa, recém-abatida;
ela já estava rígida, quase fria.
Eu a arrastei para longe; ela estava inchada na barriga.

Ao tocar seu flanco, descobri a razão —
ela estava quente do lado; sua cria estava ali esperando,
viva, imóvel, para nunca mais nascer.
Ao lado daquela estrada da montanha, hesitei.

O carro apontava para frente com as luzes baixas ligadas;
sob o capô, ronronava o motor estável.
Fiquei diante do reflexo do escapamento quente que se tornava vermelho;
ao nosso redor, eu podia sentir a natureza selvagem nos observando.

Refleti profundamente por todos nós — meu único desvio —,
e depois a empurrei para dentro do rio.

Trad.: Nelson Santander

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Traveling through the Dark

Traveling through the dark I found a deer
dead on the edge of the Wilson River road.
It is usually best to roll them into the canyon:
that road is narrow; to swerve might make more dead.

By glow of the tail-light I stumbled back of the car
and stood by the heap, a doe, a recent killing;
she had stiffened already, almost cold.
I dragged her off; she was large in the belly.

My fingers touching her side brought me the reason—
her side was warm; her fawn lay there waiting,
alive, still, never to be born.
Beside that mountain road I hesitated.

The car aimed ahead its lowered parking lights;
under the hood purred the steady engine.
I stood in the glare of the warm exhaust turning red;
around our group I could hear the wilderness listen.

I thought hard for us all—my only swerving—,
then pushed her over the edge into the river.

Linda Gregg – Em louvor à primavera

O dia é tomado por tudo e se completa.
Saio, entro, e saio novamente, confundida
por uma beleza que não conhece a espera,
correndo como fogo. Todas as coisas se movem mais rápido
que o tempo e, assim, criam uma quietude. Minha mente
se inclina para trás e sorri, sem ter nada a dizer.
Mesmo à noite, saio com uma luz e observo
o florescimento. Ajoelho-me e contemplo uma coisa
de cada vez. Uma aranha branca em um botão de peônia.
Nada tenho a oferecer, sou apenas uma pobre serva,
mas posso louvar a primavera. Louvar a natureza selvagem
que não se importa com a hora. A corsa que não
cede à escuridão, mas segue se desenvolvendo a noite toda.
A beleza em todos os estágios de florescimento. Violetas
se erguem para a chuva e o riacho fica mais ruidoso do que nunca.
O velho fazendeiro alemão está dormindo e as flores continuam
a se abrir. Há estrelas. A menta cresce alta. As folhas
se dobram sob a luz do sol enquanto a chuva continua a cair.

Trad.: Nelson Santander

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In Praise of Spring

The day is taken by each thing and grows complete.
I go out and come in and go out again,
confused by a beauty that knows nothing of delay,
rushing like fire. All things move faster
than time and make a stillness thereby. My mind
leans back and smiles, having nothing to say.
Even at night I go out with a light and look
at the growing. I kneel and look at one thing
at a time. A white spider on a peony bud.
I have nothing to give, and make a poor servant,
but I can praise the spring. Praise this wildness
that does not heed the hour. The doe that does not
stop at dark but continues to grow all night long.
The beauty in every degree of flourishing. Violets
lift to the rain and the brook gets louder than ever.
The old German farmer is asleep and the flowers go on
opening. There are stars. Mint grows high. Leaves
bend in the sunlight as the rain continues to fall

Les Murray – O Significado da Existência

Todas as coisas, exceto a linguagem,
conhecem o significado da existência.
Árvores, planetas, rios, tempo
não têm outra consciência. Expressam-no
momento a momento, como o universo.

Mesmo este corpo tolo
o vivencia em parte e teria
dignidade plena nele,
não fosse a liberdade ignorante
de minha mente falante.

Trad.: Nelson Santander

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The Meaning Of Existence

Everything except language
knows the meaning of existence.
Trees, planets, rivers, time
know nothing else. They express it
moment by moment as the universe.

Even this fool of a body
lives it in part, and would
have full dignity within it
but for the ignorant freedom
of my talking mind.

João Cabral de Melo Neto – Uma faca só lâmina

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado

qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso,
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

A.
Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.

Mas o que não está
nele está como bala:
tem o ferro do chumbo,
mesma fibra compacta.

Isso que não está
nele é como um relógio
pulsando em sua gaiola,
sem fadiga, sem ócios.

Isso que não está
nele está como a ciosa
presença de uma faca,
de qualquer faca nova.

Por isso é que o melhor
dos símbolos usados
é a lâmina cruel
(melhor se de Pasmado):

porque nenhum indica
essa ausência tão ávida
como a imagem da faca
que só tivesse lâmina,

nenhum melhor indica
aquela ausência sôfrega
que a imagem de uma faca
reduzida à sua boca,

que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente.

B.
Das mais surpreendentes
é a vida de tal faca:
faca, ou qualquer metáfora,
pode ser cultivada.

E mais surpreendente
ainda é sua cultura:
medra não do que come
porém do que jejua.

Podes abandoná-la,
essa faca intestina:
jamais a encontrarás
com a boca vazia.

Do nada ela destila
a azia e o vinagre
e mais estratagemas
privativos dos sabres.

E como faca que é,
fervorosa e energética,
sem ajuda dispara
sua máquina perversa:

a lâmina despida
que cresce ao se gastar,
que quanto menos dorme
quanto menos sono há,

cujo muito cortar
lhe aumenta mais o corte
e se vive a se parir
em outras, como fonte.

(Que a vida dessa faca
se mede pelo avesso:
seja relógio ou bala,
ou seja faca mesmo.)

C.
Cuidado com o objeto,
com o objeto cuidado,
mesmo sendo uma bala
desse chumbo ferrado,

porque seus dentes já
a bala os traz rombudos
e com facilidade
se em botam mais no músculo.

Mais cuidado porém
quando for um relógio
com o seu coração
aceso e espasmódico.

É preciso cuidado
por que não se acompasse
o pulso do relógio
com o pulso do sangue,

e seu cobre tão nítido
não confunda a passada
com o sangue que bate
já sem morder mais nada.

Então se for faca,
maior seja o cuidado:
a bainha do corpo
pode absorver o aço.

Também seu corte às vezes
tende a tornar-se rouco
e há casos em que ferros
degeneram em couro.

O importante é que a faca
o seu ardor não perca
e tampouco a corrompa
o cabo de madeira.

D.
Pois essa faca às vezes
por si mesma se apaga.
É a isso que se chama
maré-baixa da faca.

Talvez que não se apague
e somente adormeça.
Se a imagem é relógio,
a sua abelha cessa.

Mas quer durma ou se apague:
ao calar tal motor,
a alma inteira se torna
de um alcalino teor

bem semelhante à neutra
substância, quase feltro,
que é a das almas que não
têm facas-esqueleto.

E a espada dessa lâmina,
sua chama antes acesa,
e o relógio nervoso
e a tal bala indigesta,

tudo segue o processo
de lâmina que cega:
faz-se faca, relógio
ou bala de madeira,

bala de couro ou pano,
ou relógio de breu,
faz-se faca sem vértebras,
faca de argila ou mel.

(Porém quando a maré
já nem se espera mais,
eis que a faca ressurge
com todos seus cristais.)

E.
Forçoso é conservar
a faca bem oculta
pois na umidade pouco
seu relâmpago dura

(na umidade que criam
salivas de conversas,
tanto mais pegajosas
quanto mais confidências).

Forçoso é esse cuidado
mesmo se não é faca
a brasa que te habita
e sim relógio ou bala.

Não suportam também
todas as atmosferas:
sua carne selvagem
quer câmaras severas.

Mas se deves sacá-los
para melhor sofrê-los,
que seja em algum páramo
ou agreste de ar aberto.

Mas nunca seja ao ar
que pássaros habitem.
Deve ser a um ar duro,
sem sombra e sem vertigem.

E nunca seja à noite,
que esta tem as mãos férteis.
Aos ácidos do sol
seja, ao sol do Nordeste,

à febre desse sol
que faz de arame as ervas,
que faz de esponja o vento
e faz de sede a terra.

F.
Quer seja aquela bala
ou outra qualquer imagem,
seja mesmo um relógio
a ferida que guarde,

ou ainda uma faca
que só tivesse lâmina,
de todas as imagens
a mais voraz e gráfica,

ninguém do próprio corpo
poderá retirá-la,
não importa se é bala
nem se é relógio ou faca,

nem importa qual seja
a raça dessa lâmina:
faca mansa de mesa,
feroz pernambucana.

E se não a retira
quem sofre sua rapina,
menos pode arrancá-la
nenhuma mão vizinha.

Não pode contra ela
a inteira medicina
de facas numerais
e aritméticas pinças.

Nem ainda a polícia
com seus cirurgiões
e até nem mesmo o tempo
como os seus algodões.

E nem a mão de quem
sem o saber plantou
bala, relógio ou faca,
imagens de furor.

G.
Essa bala que um homem
leva às vezes na carne
faz menos rarefeito
todo aquele que a guarde.

O que um relógio implica
por indócil e inseto,
encerrado no corpo
faz este mais desperto.

E se é faca a metáfora
do que leva no músculo,
facas dentro de um homem
dão-lhe maior impulso.

O fio de uma faca
mordendo o corpo humano,
de outro corpo ou punhal
tal corpo vai armando,

pois lhe mantendo vivas
todas as molas da alma
dá-lhes ímpeto de lâmina
e cio de arma branca,

além de ter o corpo
que a guarda crispado,
insolúvel no sono
e em tudo quanto é vago,

como naquela história
por alguém referida
de um homem que se fez
memória tão ativa

que pôde conservar
treze anos na palma
o peso de uma mão,
feminina, apertada.

H.
Quando aquele que os sofre
trabalha com palavras,
são úteis o relógio,
a bala e, mais, a faca.

Os homens que em geral
lidam nessa oficina
têm no almoxarifado
só palavras extintas:

umas que se asfixiam
por debaixo do pó
outras despercebidas
em meio a grandes nós;

palavras que perderam
no uso todo o metal
e a areia que detém
a atenção que lê mal.

Pois somente essa fraca
dará a tal operário
olhos mais frescos para
o seu vocabulário

e somente essa faca
e o exemplo de seu dente
lhe ensinará a obter
de um material doente

o que em todas as facas
é a melhor qualidade:
a agudeza feroz ,
certa eletricidade,

mais a violência limpa
que elas têm, tão exatas,
o gosto do deserto,
o estilo das facas.

I.
Essa lâmina adversa,
como o relógio ou a bala,
se torna mais alerta
todo aquele que a guarda,

sabe acordar também
os objetos em torno
e até os próprios líquidos
podem adquirir ossos.

E tudo o que era vago,
toda frouxa matéria,
para quem sofre a faca
ganha nervos, arestas.

Em volta tudo ganha
a vida mais intensa,
com nitidez de agulha
e presença de vespa.

Em cada coisa o lado
que corta se revela,
e elas que pareciam
redondas como a cera

despem-se agora do
caloso da rotina,
pondo-se a funcionar
com todas suas quinas.

Pois entre tantas coisas
que também já não dormem,
o homem a quem a faca
corta e empresta seu corte,

sofrendo aquela lâmina
e seu jato tão frio,
passa, lúcido e insone,
vai fio contra fios.

*

De volta dessa faca,
amiga ou inimiga,
que mais condensa o homem
quanto mais o mastiga;

de volta dessa faca
de porte tão secreto
que deve ser levada
como o oculto esqueleto;

da imagem em que mais
me detive, a da lâmina,
porque é de todas elas
certamente a mais ávida;

pois de volta da faca
se sobe à outra imagem,
àquela de um relógio
picando sob a carne,

e dela àquela outra,
a primeira, a da bala,
que tem o dente grosso
porém forte a dentada

e daí à lembrança
que vestiu tais imagens
e é muito mais intensa
do que pôde a linguagem,

e afinal à presença
da realidade, prima,
que gerou a lembrança
e ainda a gera, ainda,

por fim à realidade,
prima, e tão violenta
que ao tentar apreendê-la toda imagem rebenta.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 22/10/2019

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A. E. Housman – De “A Shropshire Lad”, Canto XL

Canto XL (de “Um Rapaz de Shropshire”)

Em meu coração, sopra uma brisa assassina
  Oriunda de uma longínqua região: 
Aqueles pináculos, aquelas colinas
  Da memória, aquelas fazendas, o que são? 
 
Esta é a terra das perdidas substâncias
  Eu enxergo suas planícies a brilhar, 
As estradas felizes de minhas andanças
  Para as quais, entretanto, eu não posso voltar.

Trad.: Nelson Santander

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A Shropshire Lad, XL

Into my heart an air that kills 
  From yon far country blows: 
What are those blue remembered hills, 
  What spires, what farms are those? 
 
That is the land of lost content,
  I see it shining plain, 
The happy highways where I went 
  And cannot come again.