James Elroy Flecker – A um poeta daqui a mil anos

Eu, que há mil anos concluí meu percurso,
E escrevi esta doce e arcaica canção,
Por arautos te envio este discurso
Por estradas que meus pés não trilharão.

Não me importa se os mares tu transpões,
Ou se galgas em segurança um céu mau,
Se eriges exímias fortificações
Feitas de alvenaria ou de metal.

Mas ainda tens canções e o hidromel,
E estátuas e amores de olhos brilhantes,
E tolas ideias sobre o bem e o mal
E as orações para seres arrogantes?

E como iremos triunfar? Como um vento
vespertino que nossos sonhos propala,
como o velho e cego Homero, agourento,
três mil anos antes já imaginara.

Ó amigo oculto, ignoto, não nascido,
da doce língua inglesa um estudante,
Lê à noite e sozinho o que eu digo:
Eu estava em meu auge, eu era um vate.

Como nunca poderei ver tua fronte,
E minha mão tu nunca apertarás,
Vai minh’alma além do tempo e do horizonte
Para cortejá-lo. Tu entenderás.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 16/05/2020

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To a poet a thousand years hence

I who am dead a thousand years,
And wrote this sweet archaic song,
Send you my words for messengers
The way I shall not pass along.

I care not if you bridge the seas,
Or ride secure the cruel sky,
Or build consummate palaces
Of metal or of masonry.

But have you wine and music still,
And statues and a bright-eyed love,
And foolish thoughts of good and ill,
And prayers to them who sit above?

How shall we conquer? Like a wind
That falls at eve our fancies blow,
And old Maeonides the blind
Said it three thousand years ago.

O friend unseen, unborn, unknown,
Student of our sweet English tongue,
Read out my words at night, alone:
I was a poet, I was young.

Since I can never see your face,
And never shake you by the hand,
I send my soul through time and space
To greet you. You will understand.

Lucille Clifton – [entardecer e meu falecido ex-marido]

entardecer e meu falecido ex-marido
se ergue do tabuleiro ouija
através do ar trêmulo eu resmungo
os nomes de nossos filhos rebeldes
e peço-lhe que explique por que
faço tanto alvoroço como uma peixeira por que
o câncer e a terrível solidão
e as guerras contra o nosso povo
e o quarto cintila como se lavado
em lágrimas e saindo da névoa uma das mãos
se torna carne e observo
enquanto seus dedos apontando soletram

saber não ajuda em nada

Trad.: Nelson Santander

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[evening and my dead once husband]

evening and my dead once husband
rises up from the spirit board
through trembled air i moan
the names of our wayward sons
and ask him to explain why
i fuss like a fishwife why
cancer and terrible loneliness
and the wars against our people
and the room glimmers as if washed
in tears and out of the mist a hand
becomes flesh and i watch
as its pointing fingers spell

it does not help to know

Augusto de Campos – Viv (1992)

Augusto de Campos - vivViv (1992), “viver é defender uma forma” (hoelderlin via Webern)

REPUBLICAÇÃO: poema concreto originalmente publicado na página em 15/05/2020

Sharon Olds – Ode à terra

Querida terra, peço desculpa por tê-la desprezado,
pensei que você fosse apenas o cenário
para os protagonistas — as plantas,
os animais e os animais humanos.
É como se eu amasse apenas as estrelas
e não o céu que deu a elas
espaço para brilhar. Sutil, variada,
sensível, você é a pele do nosso solo,
você é a nossa democracia. Quando compreendi
que nunca a havia honrado como uma igual
viva, senti vergonha de mim mesma,
como se não tivesse reconhecido
uma personagem que parecia tão diferente de mim,
mas agora posso ver-nos a todos, feitos dos
mesmos materiais básicos —
primos daquela primeira explosão do nada —
em nossa intrincada equação juntos. Ó terra,
ajude-nos a encontrar maneiras de servir à sua vida,
você que nos gerou e nos alimentou
e que, no final, vai nos acolher,
e girar conosco, e oscilar e orbitar.

Trad.: Nelson Santander

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Ode to Dirt

Dear dirt, I am sorry I slighted you,
I thought that you were only the background
for the leading characters—the plants
and animals and human animals.
It’s as if I had loved only the stars
and not the sky which gave them space
in which to shine. Subtle, various,
sensitive, you are the skin of our terrain,
you’re our democracy. When I understood
I had never honored you as a living
equal, I was ashamed of myself,
as if I had not recognized
a character who looked so different from me,
but now I can see us all, made of the
same basic materials—
cousins of that first exploding from nothing—
in our intricate equation together. O dirt,
help us find ways to serve your life,
you who have brought us forth, and fed us,
and who at the end will take us in
and rotate with us, and wobble, and orbit.

Juan Vicente Piqueras – Oração do incrédulo

O importante é rezar, não importa a quem,
que as perguntas sejam as orações
do pensamento, plantem sua semente
em nossa solidão, e que não exista paz
que, à força de insistir, seja capaz
de não existir, não tenha remédio
senão atender à voz de quem a chama.

Que deus não exista, acaso
é razão para nele não crer?

Deus é o nome da sede, a sina
e a querência desta solidão
em que ambos consistimos.

De ninguém falo com deus, de deus com ninguém.
Escrevo-o com cuidado e em minúscula.
Sou ateu e laico todos os dias.
Mas há noites amnióticas
em que minha alma reza de joelhos,
não importa a quem,
pergunta, espera, pede.

E minha alma ajoelhada é uma vela
à luz da qual, em cuja noite, escrevo.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 14/05/2020

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Plegaria del descreído

Lo importante es rezar, no importa a quién,
que las preguntas sean las plegarias
del pensamiento, planten su semilla
en nuestra soledad, y no haya paz
que, a fuerza de insistir, sea capaz
de no existir, no tenga más remedio
que acudir a la voz de quien la llama.

Que dios no exista, ¿acaso
es razón para no creer en él?

Dios es el nombre de la sed, el sino
y la querencia de esta soledad
en que ambos consistimos.

De nadie hablo con dios, de dios con nadie.
Lo escribo con cuidado y con minúscula.
Yo soy ateo y laico cada día.
Pero hay noches amnióticas
en que mi alma reza de rodillas
no importa a quién,
pregunta, espera, pide.

Y mi alma arrodillada es una vela
a cuya luz, en cuya noche, escribo.

Kim Addonizio – Poema da morte

Tenho que trazer isso à tona de novo, não há outro assunto?
Posso esquecer o pedaço achatado de pele de esquilo
agitando-se na estrada, posso esquecer a estrada
e como não consigo parar de dirigir, não importa o que aconteça,
nem mesmo para abastecer, ou por amor, posso por favor não pensar
no meu pai deixado em alguma cidade atrás de mim,
em seu terno azul, com as mãos cruzadas,
e na minha avó queixando-se da bexiga,
engolindo todas as pílulas, e nas cidades pelas quais estou passando agora,
posso tentar não vê-las, as crianças agachadas
nas valas, os orifícios em seus peitos e testas,
a mulher embalando seu tumor, o cão arrastando seus quadris aleijados?
Posso fechar os olhos e recostar se eu quiser,
posso me apoiar nos ombros dos meus amigos
e comer enquanto eles comem, e beber da garrafa
que está sendo passada de mão em mão; posso me animar,
não posso, Cristo? Posso? Deve ter outro assunto, em um minuto
vou pensar nele. Vou. E se você souber qual é, me ajude.
Ajude-me. Lembre-me por que estou aqui.

Trad.: Nelson Santander

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Death poem

Do I have to bring it up again, isn’t there another subject?
Can I forget about the scrap of flattened squirrel fur
fluttering on the road, can I forget the road
and how I can’t stop driving no matter what,
not even for gas, or love, can I please not think
about my father left in some town behind me,
in his blue suit, with his folded hands,
and my grandmother moaning about her bladder
and swallowing all the pills, and the towns I’m passing now
can I try not to see them, the children squatting
by the ditches, the holes in their chests and foreheads,
the woman cradling her tumor, the dog dragging its crippled hips?
I can close my eyes and sit back if I want to,
I can lean against my friends’ shoulders
and eat as they’re eating, and drink from the bottle
being passed back and forth; I can lighten up, can’t I,
Christ, can’t I? There is another subject, in a minute
I’ll think of it. I will. And if you know it, help me.
Help me. Remind me why I’m here.

Eugenio Montale – A enguia

A enguia, a sereia
dos mares frios que deixa o Báltico
para alcançar os nossos mares,
nossos estuários, os rios
que sobe pelas profundezas, contra a enxurrada,
de braço em braço e depois
de veio em veio, cada vez mais delgados,
sempre mais dentro, sempre mais perto do coração
da rocha, filtrando-se
por regos de lama até que um dia
uma luz desfechada dos castanheiros
acende sua chispa num poço d`água parada,
nas valas que se despejam
dos flancos do Apenino, na Romagna;
a enguia, tocha, açoite,
flecha de Amor na terra
que só as nossas ravinas ou os ressecados
regatos pirenaicos reconduzem
a paraísos de fecundação;
a verde alma que procura
vida onde só
reina aridez e a desolação,
a centelha que diz:
tudo começa quando tudo parece
carbonizar-se, galho enterrado;
breve arco-íris, íris gêmea
daquela que teus cílios encastoam
e que fazes brilhar intacta entre os filhos
do homem, afundados no teu lamaçal, podes tu
não crê-la irmã?

Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 13/05/2020

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L’anguilla

L’anguilla, la sirena
dei mari freddi che lascia il Baltico
per giungere ai nostri mari,
ai nostri estuari, ai fiumi
che risale in profondo, sotto la piena avversa,
di ramo in ramo e poi
di capello in capello, assottigliati,
sempre più addentro, sempre più nel cuore
del macigno, filtrando
tra gorielli di melma finché un giorno
una luce scoccata dai castagni
ne accende il guizzo in pozze d’acquamorta,
nei fossi che declinano
dai balzi d’Appennino alla Romagna;
l’anguilla, torcia, frusta,
freccia d’Amore in terra
che solo i nostri botri o i disseccati
ruscelli pirenaici riconducono
a paradisi di fecondazione;
l’anima verde che cerca
vita là dove solo
morde l’arsura e la desolazione,
la scintilla che dice
tutto comincia quando tutto pare
incarbonirsi, bronco seppellito;
l’iride breve, gemella
di quella che incastonano i tuoi cigli
e fai brillare intatta in mezzo ai figli
dell’uomo, immersi nel tuo fango, puoi tu
non crederla sorella?

Li-Young Lee – Cuidado

Então somos poeira. Enquanto isso, minha esposa e eu
fazemos a cama. Segurando as pontas opostas do lençol,
nós o levantamos, fazendo-o ondular, e depois puxamos com força,
medindo com os olhos enquanto ele cai alinhado
entre nós. Puxamos, dobramos e ajustamos. E se eu tiver sorte,
ela vai se lembrar de um sonho recente e me contar.
Um dia, nos deitaremos e não nos levantaremos.
Um dia, tudo o que guardamos será entregue.
Até lá, seguiremos aprendendo a reconhecer
aquilo que amamos e o que é necessário
para cuidar do que não nos cabe.
Tantas vezes o medo me levou
a abandonar o que sei que, no fim,
terei que renunciar. Mas, por ora,
ouvirei o sonho dela,
e ela o meu, nossa mútua escuta trazendo
mais e mais detalhes à luz
de uma cuidado recíproco e frágil.

Trad.: Nelson Santander

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To Hold

So we’re dust. In the meantime my wife and I
make the bed. Holding opposite edges of the sheet,
we raise it, billowing, then pull it tight,
measuring by eye as it falls into alignment
between us. We tug, fold, tuck. And if I’m lucky,
she’ll remember a recent dream and tell me.
One day we’ll lie down and not get up.
One day, all we guard will be surrendered.
Until then, we’ll go on learning to recognize
what we love, and what it takes
to tend what isn’t for our having.
So often fear has led me
to abandon what I know I must relinquish
in time. But for the moment,
I’ll listen to her dream,
and she to mine, our mutual hearing calling
more and more detail into the light
of a joint and fragile keeping.

Eavan Boland – Quarentena

Na pior hora da pior estação
do pior ano de todo um povo
um homem partiu do internato com a mulher
Ele andava – ambos andavam – para o norte

Ela tinha a febre da fome e não se aguentava.
Ele a ergueu e a pôs nas costas.
Andou assim para oeste e oeste e norte. Até que
ao anoitecer sob estrelas congeladas chegaram.

De manhã ambos foram encontrados mortos.
De frio. De fome. Das toxinas de toda uma história.
Mas os pés dela estavam aninhados no peito dele.
O calor final de sua carne foi seu presente para ela.

Nunca deixe um poema de amor chegar a esse fim.
Não há lugar aqui para o inexato
Elogio à graça leve e sensual do corpo.
Há tempo apenas para esse impiedoso inventário:

Sua morte juntos no inverno de 1847.
Também o que sofreram. Como viveram.
E o que há entre um homem e uma mulher.
E em qual treva se pode provar melhor.

Trad.: Mario Sergio Conti

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 12/05/2020

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Sobre o poema e sua autora:

Da Folha: Conheça ‘Quarentena’, poema de Eavan Boland, sobre a Grande Fome

“Eavan Boland ensinou inglês na Universidade Stanford por 21 anos. Com a pandemia, ela quis ficar perto das filhas e netos. Voltou no mês passado da Califórnia para a Irlanda e, pelo computador, continuou a dar aulas sobre literatura irlandesa. Até a segunda-feira passada.

Acordou, teve um infarto e morreu à tarde, em Dublin. Tinha 75 anos. Do presidente do país aos meios literários, houve comoção. Ela não é popular porque nenhum poeta o é mais: poesia virou arte de elite.

Mas foi uma voz incisiva, sensível à história e à condição feminina no presente.

Não é pouco. Sobretudo numa terra de escritores arquiconhecidos —Swift, Sterne, Yeats, Shaw, Wilde, Joyce, Beckett, Heaney. Todos eles tensionados pela história da Irlanda, por sua vez marcada pela posição subalterna e atritos com o Reino Unido. Todos eles homens.

Eavan Boland começou a escrever cedo e sua poesia amadureceu devagar. Filha de diplomata, teve uma infância cosmopolita em Londres e Nova York. A volta à Irlanda, insular, foi um estranhamento.

Frequentava rodas literárias em Dublin, mas casou e foi morar num subúrbio pacato.

Teve duas filhas e, como todas as suas vizinhas, cuidava da casa e da família. Contudo, professora, ensaísta e poeta, não era bem como elas. Os terremotos dos anos 1960 não a tiraram do prumo. O primeiro feminismo, um pouco. E a obra de Sylvia Plath, totalmente.

Sua poesia adquiriu aos poucos contundência. Fez versos sobre casamento, menstruação, criar as filhas, mastectomia. Em “Violência Doméstica” e “Uma Mulher sem País”, fez algo meio impossível: foi crítica e convencional, sentimental e seca, evidente e elíptica.

“Quarentena”, de 2001, seu poema mais conhecido, embebe em ácido uma chaga aberta da história irlandesa. E, na forma, se insurge contra a imagem feminina na poesia romântica. É singular, estranho, belo.

Nele, a pior hora é a noturna. A estação letal, o inverno. O ano horrível, 1847. Foi o auge da Grande Fome. Uma praga dizimou todas as plantações de batata da Irlanda, alimento básico dos camponeses empobrecidos e endividados. Ou seja, da maioria acachapante do povo.

Explorados pela aristocracia e hostilizados pela Coroa, durante anos os irlandeses padeceram de fome, frio, epidemias várias. Mais de 1 milhão de pessoas pereceram, 20% da população. Outro milhão emigrou.

A ilha de esmeralda regrediu à treva medieval da peste negra.

Foi o maior desastre sanitário, demográfico e humanitário do século 19. O crítico literário Terry Eagleton —neto de imigrantes irlandeses— chamou-o de “Auschwitz irlandês”, mas pré-moderno. As raízes do nacionalismo, da religiosidade fanática e da luta violenta pela independência estão fincadas na Grande Fome.

“Quarentena” começa com um casal que foge das autoridades. A mulher teve tifo (“famine fever”) e o marido a carrega pela noite gelada até que chegam —e o poema não diz onde. São encontrados enregelados, paralisados num último gesto: ele tenta aquecer os pés dela em seu peito.

Eavan Boland aí se insurge contra poemas de amor, contra o romantismo galante que põe a mulher no pedestal de musa. Seu impiedoso inventário registra a fuga, a dor, o frio. Monossílabos sincopados politizam o amor mudo de um casal, sua busca inútil por calor na escuridão.

Em “Quarentena”, o que sobrevive ao homem e à mulher não é apenas o amor —como em “An Arundel Tomb”, de Philip Larkin. É a Grande Fome, a sociedade que a produziu, da história irlandesa que vem de 1847 e molda o presente. Cinco estrofes condensam a catástrofe.

Eavan Boland reviveu e deu forma ao passado. Inspirou-se em meia dúzia de frases de uma memória da Grande Fome, escrita por um padre no início do século 20. “Minha Própria História”, o livro, dá até o nome dos jovens do poema, Kit e Patrick.

Há uma longa discussão na Irlanda acerca da representação da Grande Fome. Tem-se como assente que ela foi sub-representada: existem poucos romances, peças, poesias, filmes a seu respeito. A sub-representação se estenderia à historiografia, à economia e à sociologia.

Parece ser verdade. Porque a Grande Fome é pouco conhecida fora de lá. Isso se deve mais ao presente que ao passado. Na indústria cultural, por exemplo, Hollywood venceu a Segunda Grande Guerra. Para cada Svetlana Aleksiévitch há cem Spielbergs.

Há infindáveis imagens da peste que hoje engolfa o Brasil. Boa parte delas é chocante, mas vazia. A poesia política pode representar as toxinas de toda uma história?”

Quarantine

In the worst hour of the worst season
of the worst year of a whole people
a man set out from the workhouse with his wife.
He was walking—they were both walking—north.

She was sick with famine fever and could not keep up.
He lifted her and put her on his back.
He walked like that west and west and north.
Until at nightfall under freezing stars they arrived.

In the morning they were both found dead.
Of cold. Of hunger. Of the toxins of a whole history.
But her feet were held against his breastbone.
The last heat of his flesh was his last gift to her.

Let no love poem ever come to this threshold.
There is no place here for the inexact
praise of the easy graces and sensuality of the body.
There is only time for this merciless inventory:

Their death together in the winter of 1847.
Also what they suffered. How they lived.
And what there is between a man and woman.
And in which darkness it can best be proved.

Marina Colasanti – Sexta-feira à noite

Sexta-feira à noite
Os homens acariciam o clitóris das esposas
Com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
Contam dinheiro, papéis, documentos
E folheiam nas revistas
A vida dos seus ídolos.

Sexta-feira à noite
Os homens penetram suas esposas
Com tédio e pénis.
O mesmo tédio com que todos os dias
Enfiam o carro na garagem
O dedo no nariz
E metem a mão no bolso
Para coçar o saco.

Sexta-feira à noite
Os homens ressonam de borco
Enquanto as mulheres no escuro
Encaram seu destino
E sonham com o príncipe encantado.

Marina Colasanti

– 26 de setembro de 1937

+ 28 de janeiro de 2025