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Raymond Carver – Vocês não sabem o que é o amor (uma noite com Charles Bukowski)

Vocês não sabem o que é o amor disse BukowskiEu tenho 51 anos e olhem pra mimestou apaixonado por essa garotaestou louco por ela mas ela também estáentão tudo bem cara é assim que deve serEu entro no sangue delas e elas não conseguem se livrarElas tentam de tudo pra se afastar de mimmas no…
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Wilfred Owen – Futilidade

Coloquem-no à luz do sol… Em casa Seu toque gentil o acordava com a lembrança De campos ainda por plantar… O sol o acordou sempre, até na França, Até chegarem a manhã de hoje e a neve que aí está. Se alguma coisa pode acorda-lo agora, Só o velho sol saberá. Lembrem que também acorda…
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Andreia C. Faria – “Tenho a pedir-vos que não reutilizeis mais nada”

“Tenho a pedir-vos que não reutilizeis mais nada”, um poema de Andreia C. Faria
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Adam Zagajewski – Conversa com Friedrich Nietzsche

Excelentíssimo Senhor Friedrich, tenho a impressão de estar a ver agora o senhor, no terraço do sanatório, ao amanhecer, com o nevoeiro a cair e o canto a rebentar nas gargantas dos pássaros. Não muito alto, a cabeça como um projétil, o senhor está a escrever um novo livro e uma estranha energia flui de…
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Jorge Luis Borges – João 1,14

Não será menos enigmática esta páginaque as de Meus livros sagrados nem aquelas outras que repetemas bocas ignorantes,por julgá-las de um homem, não espelhosobscuros do Espírito.Eu que sou o É, o Foi e o Serátorno a condescender com a linguagem,que é tempo sucessivo e emblema.Quem brinca com um menino brinca com algopróximo e misterioso;eu quis…
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Ian Hamilton – Despertar

Sua cabeça, tão enferma, repousa junto à minha.Tão sensível. Você não consegue lembrarPor que está aqui, nem reconheceEstas mãos prestativas.Meu amor,O mundo nos encurrala. Estamos perdendo terreno. Trad.: Nelson Santander Awakening Your head, so sick, is leaning against mine,So sensible. You can’t rememberWhy you’re here, nor do you recognizeThese helping hands.My love,The world encircles us.…
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Manuel António Pina – Gare du Sud

Tudo o que temos pertence a outros, desconhecidos de nós, e ainda a outros, e temo-lo como se o perdêssemos ficando uma sombra, a nossa sombra. Estamos longe de casa e essa sombra é a única morada a que podemos acolher-nos. A nossa voz não somos capazes já de ouvi-la, balbuciante; e se a ouvíssemos…
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José María Cumbreño – Identidade

Durante anos, a roupa que usei foi herdada de meu irmão mais velho.Meu nome me foi dado em homenagem ao meu avô.O primeiro carro que conduzi era de segunda mão.A primeira mulher que me beijou já havia beijado outros.A casa em que habito é alugada.Tudo o que escrevo já foi escrito por alguém há muito…
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Billy Collins – As cadeiras em que ninguém se senta

Vêem-se em varandas e em relvados mesmo à beira do lago, geralmente dispostas em pares indicando que um casal se poderá sentar ali e olhar para a água ou para as grandes árvores frondosas. O problema é que nunca se vê ninguém sentado nessas cadeiras abandonadas embora a dada altura deva ter parecido um bom…
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José Luis García Martín – Em algum lugar

Logo, depois, mais tarde, quando nunca,meus passos se afastaram dos meus passose em algum lugar, não sei se dentro ou fora,ouviu-se uma voz que repetia um nome.Uma voz, apenas um eco, quase nada,talvez a voz do vento entre as árvoresonde árvores sequer existiam.Tremiam os alicerces da terraou seria eu quem tremia naquele instantequando um sol…