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Vasco Miranda – de “Invenção da Manhã”

20 Olha Jorge quando vier a morte E virá cedo “Não deixes fechar-me os olhos” Eflorescências salitrosas me rebentarão das órbitas Para queimar as mãos que fechar-mos queiram – Não pode a luz negar-se a quem bêbado dela Inventou em cada dia uma madrugada E eis tudo quanto deixo a quem me herde Não Jorge…
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Joseph Stroud – A mais difícil tradução do amor

Após cinco anos de casamento ele achou que seu coração finalmente havia traduzido o matrimônio. Mas foi como aquela noite no Festival de Filmes Estrangeiros quando, quase na metade, o filme de repente mudou de legendado para dublado & por um instante ele achou que entendia romeno. Trad.: Nelson Santander Love’s More Difficult Translation About…
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José Agostinho Baptista – É a prata da minha amada

É a prata da minha amada. Dir-lhe-ei docemente adeus, e que não arranque os espinhos da primeira rosa, subindo pela vida. E quando eu caminhar pelo vale da sombra, ela descerá ao pequeno porto, descalçando as sandálias, mergulhando no mar, repetindo os nomes de todos os que partiram, de todos os que a amaram, hesitando…
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José Paulo Paes – Elogio da Memória

O funil da ampulhetaapressa, retardando-a,a quedada areia. Nisso imita o jogomanhosode certos momentosque se vão emboraquando mais queríamosque ficassem. Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog
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Ruy Belo – Missa de aniversário

Há um ano que os teus gestos andam ausentes da nossa freguesia Tu que eras destes campos onde de novo a seara amadurece donde és hoje? Que nome novo tens? Haverá mais singular fim de semana do que um sábado assim que nunca mais tem fim? Que ocupação é agora a tua que tens todo…
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Luis Cernuda – Os espinhos

Possuem já os espinhos verdor novo na colina, toda de púrpura e neve pelo ar estremecida. Quantos céus em flor já viste? Embora ao encontro eles serão sempre devotados, tu não o serás um dia. Antes que a penumbra caia, sabe o que a alegria é junto aos espinhos vermelhos e alvos em flor. Olha.…
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Luís de Góngora – Estamos desperdiçando a páscoa, moças

Estamos desperdiçando a páscoa, moças, Estamos desperdiçando a páscoa! Moçoilas do meu distrito, Louquinhas e confiantes, Que não vos engane o tempo, a idade e a confiança. Não deixeis cortejar-vos o frescor da juventude, porque de flores caducas tece o tempo suas grinaldas. Estamos desperdiçando a páscoa, moças, Estamos desperdiçando a páscoa! Voam os velozes…
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José Régio – Cântico Negro

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: “vem por aqui!” Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali… A minha glória é esta:…
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Javier Salvago – No verso de uma velha fotografia

Os Beatles ainda não tinham surgido, nem haviam abatido Che Guevara. Nat King Cole cantava ansiedad de tenerte en mis brazos ou solamente una vez se entrega el alma. e no cinema talvez exibissem Sete noivas para sete irmãos. O comandante Armstrong ainda não havia deixado sua profana pegada no rosto esburacado da lua. Os…
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Ferreira Gullar – Aqui e agora

1 Que faz a defunta manhã na manhã nova? Que sois vós hoje alegria de outrora riso extinta palavra de afeto? que sois vós senão fantasmas senão miasmas a infectar de morte o que está vivo? 2 Se há sol no pátio e um carro penetra nele e estaciona e o chofer desce bate a…